Não é de hoje que escutamos a expressão “povo de Deus” referindo-se ao povo hebreu, mais tarde chamado de israelita. Trata-se dos descendentes de Abraão pela veia de Isaac, seu filho. Esse termo corrente entre nós tem gerados perguntas: “Por que Israel pertence a Deus? Por que Deus elegeu esse povo em meio a outros? Isso lhe dá primazia sobre outros povos? Lhes dá privilégios sobre territórios, especialmente a faixa de Gaza?” Especialmente depois do genocídio que o estado de Israel tem feito com o povo da Palestina, com a desculpa de atacar o Hamas, fica difícil dizer que este é um povo eleito, um povo que pertence a Deus e carrega na sua história a marca da eleição.
Primeiramente, é preciso entender o que significa a eleição de Israel, conforme a bíblia. Não significa o desprezo dos outros povos em favor de um só. Significa apenas que, dentre os povos da época, todos politeístas, os descendentes de Abraão fizeram um caminho de reconhecimento de que há um único Deus e abandonaram paulatinamente a polilatria, ou seja, a adoração a mais de um Deus. No entanto, essa caminhada de Israel sempre foi vista não em função de si mesma, mas em função do mundo, dos outros povos. Todas as vezes que Israel entendeu isso como privilégio, algum líder ou profeta denunciou esse prediletismo como maléfico. É o caso do livro de Jonas que trata dessa temática. Jonas achou que só sua gente era digna da misericórdia de Deus e se recusou a compreender o perdão e o amor de Deus pelo povo de Nínive, capital da Assíria, povo inimigo de Israel.
O livro de Jonas não é o único a fazer essa denúncia. Os salmistas já tinham colocado na boca de Deus expressões que mostram como Deus é íntimo e cuidadoso com cada povo, mesmo os que são considerados adversários de Israel. É o caso do Sl 108,8-10 [1]: “Deus falou em seu santuário: ‘Quero festejar… meu é Galaad, meu é Manassés, Efraim é o elmo da minha cabeça, Judá é meu cetro de comando; Moab é a bacia para lavar-me; sobre Edom arremessarei minha sandália’”. Os nomes que aparecem na lista Galaad, Manassés, Efraim, Judá, Moab e Edom são nomes de povos e não nomes de pessoas, apesar de serem nomes de pessoas específicas também em alguns casos. Judá é o mais conhecido de todos. De Judá, reino do sul cuja capital era Israel, vieram os judeus, o povo ao qual Jesus pertencia.
Quando o escritor sagrado usa expressões como o elmo ou capacete, o cetro e a bacia, está falando de objetos pessoais, ou seja, de objetos preciosos que não negociamos com ninguém. Dizer que Moab é a bacia em que Deus se lava é dizer que um povo estrangeiro e inimigo de Israel é algo pelo qual Deus preza muito e do qual não abre mão. É dizer: “Moab me pertence, é um povo que também elegi, como não dou meu capacete para ninguém, também não dou minha bacia de banho”. O mesmo se dá quando é dito “sobre Edom arremessarei minha sandália”. Arremessar a sandália sobre um povo é dizer que este povo pertence a quem a lançou. É uma bela metáfora para falar de pertencimento, como nós falamos sobre alguém bem querido: “ele é da cozinha da minha casa”. Edom também é povo estrangeiro e inimigo antigo dos israelitas, pois eram descendentes de Esaú e não de Jacó, que mais tarde ganhou o nome de Israel (Gn 32,29) e deu nome a um povo e à capital do sul.
Assim, essa história de povo eleito, de predileção de Deus por um povo em detrimento de outro, é apenas para garantir privilégios e esconder jogos políticos de ganância e empoderamento material. Não há um povo que seja de Deus; todo povo é de Deus. Todas as nações lhe pertencem no sentido de que todas são dignas de seu amor, independente de sua cultura, de sua religião, de seu modo de vida. Deus é o Deus de todos e não apenas de alguns e a todos aceita tais como são.
[1] Versículos quase idênticos se encontram também no Sl 60,8-10.
Colaborou: Fique Firme
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