Por Karina Moreti
É interessante como existem personagens nas Sagradas Escrituras que não são lembrados, mas sem eles, a história não teria como evoluir. Muitos não tem nome. Uma destas pessoas é a pequena escrava de Naamã. Há quem se lembre da história dos mergulhos no Jordão que o curaram da lepra. Mas dificilmente, saberiam responder como ele tomou o caminho até Eliseu.
O Segundo Livro dos Reis não registra a idade desta pequena personagem, nem o seu rosto ou mesmo o som exato da sua voz. Apenas relata que era menina, israelita, e que foi levada cativa e obrigada a servir a esposa de Naamã (cf. 2Rs 5,2). O texto começa sem poesia, porque a história começa com violência. Antes do milagre, há a perda da liberdade. Antes da fé celebrada, há ruptura com toda a vida anterior. A vocação dessa menina não nasce no templo, no abrigo da segurança, mas no exílio forçado, quando sua história foi arrancada de suas mãos sem consulta ou escolha.
A pequena escrava foi arrancada da terra, da família, da língua, da infância. Transformada em objeto de serviço na casa do inimigo. A Escritura não suaviza esse dado, e não devemos suavizá-lo. O corpo da menina carrega a experiência de tantas vidas atravessadas por guerras decididas por outros, silenciadas por estruturas de poder, obrigadas a sobreviver onde não queriam estar. E ainda assim, é a partir desse corpo ferido que Deus escolhe falar.
Talvez à noite, quando a casa silenciava e o peso do dia finalmente cessava, ela pensasse em silêncio: “Meu Deus, não escolhi estar aqui. Não escolhi servir quem destruiu minha casa. Mas Tu estás comigo também neste lugar?” Ela observa Naamã. Vê o general forte, respeitado, temido, e percebe aquilo que ninguém ousa dizer em voz alta: a lepra. A ferida escondida do homem poderoso. “Ele comanda exércitos”, talvez pensasse, “mas não consegue curar o próprio corpo.” Então, algo acontece dentro dela. Não nasce ódio, nem desejo de vingança, mas memória. Ela se lembra do Deus de Israel, do profeta, da possibilidade de vida.
E dessa memória nasce uma palavra. Curta, simples, desarmada, mas lancinantemente enraizada na fé: “Tomara que o meu senhor estivesse diante do profeta que está em Samaria; ele o curaria da lepra” (2Rs 5,3). A menina não denuncia, não acusa, não pede juízo. Ela deseja cura para o inimigo. Séculos antes do Sermão da Montanha, sua vida já encarna aquilo que Jesus diria: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44). Ela não ama porque esqueceu a violência sofrida, mas porque se recusa a deixar que a violência determine quem ela se tornará. Isso não é ingenuidade espiritual nem submissão cega. Isso é liberdade interior. Amar o inimigo, aqui, não significa absolver o mal, mas interromper seu avanço. Deus escolhe alguém ferido para anunciar graça a quem representa o sistema que fere. O Reino começa quando a dor não gera mais ódio, mas testemunho.
Antes de Eliseu agir, ela fala. Antes do Jordão, há sua palavra. Antes da purificação, há seu testemunho. Ela é a primeira voz profética nesta história. Não unge, não impõe mãos, não realiza sinais visíveis. Ela aponta. E isso basta. Como tantas figuras discretas na história da salvação, ela não ocupa o centro do palco, mas sustenta toda a cena. Naamã atravessa reis, cartas, ouro e prata, buscando soluções grandes para um problema profundo, enquanto Deus já havia começado pequeno. “Deus escolheu o que é fraco para confundir o que é forte” (1Cor 1,27). A fé da menina não é infantilizada; é amadurecida pela dor. Ela sabe que a salvação não nasce do poder, mas da confiança.
Depois disso, ela desaparece do texto. Não é recompensada, não é libertada, não recebe reconhecimento público. E isso incomoda, porque revela uma verdade dura: muitos são fundamentais na história da salvação, sem jamais serem celebrados por ela. A Escritura não erra ao silenciá-la novamente. Sua vocação não era ser vista, mas ser ponte. Sua fidelidade não precisava de aplausos para ser eterna.
Há aqui um eco profundo do mistério da Cruz. Jesus também foi levado para fora, humilhado, ferido, sem aparência que agradasse, e tornou-se mediação de cura para inimigos. “Pelas suas feridas fomos curados” (Is 53,5). A menina escrava de Naamã antecipa essa lógica, onde Deus transforma a dor não escolhida em lugar de revelação. Ela vive hoje nas crianças deslocadas pela guerra, nas pessoas arrancadas de suas casas, nas histórias silenciadas que continuam sustentando o mundo. Ela nos ensina que Deus não espera a história estar resolvida para chamar alguém; Ele chama no meio da história quebrada.
A menina sem nome nos lembra que Deus não depende de status, que a fé pode sobreviver ao trauma e que a vocação não anula a dor, mas a atravessa. Ela não escolheu a ferida, mas escolheu não permitir que a ferida tivesse a última palavra. E isso é fé. Isso é vocação!
Senhor,
Tu que falas pelos pequenos e pelos esquecidos,
acolhe a prece que nasce da dor não escolhida.Ensina-nos a não deixar que a ferida nos transforme em ódio,
mas em ponte de vida.Dá-nos um coração livre, capaz de desejar cura
até para quem nos feriu.Que nossa fé, como a da menina sem nome,
aponte para Ti mesmo quando ninguém nos vê.Amém.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
Deixe um comentário