O Sabor da Lei

Comentário sobre Mt 5,17-37

“Tendo nos purificado de todo ódio, é necessário amar até os inimigos e, quando necessário, sacrificar a alma pelos amigos, tendo o mesmo amor que Deus e seu Cristo tem por nós.”
(São Basílio Magno)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introduzindo

No 6º Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos oferece o texto de Mt 5,17-37. Uma continuidade dos textos do Evangelho dos domingos anteriores. Depois de proclamar que o Reino de Deus é dos pobres, e que os pobres são os protagonistas do anúncio deste Reino a todos e todas, Jesus mostra que este Reino é a Justiça de Deus. Esta é muito mais exigente do que a justiça que os homens e as mulheres praticam. Somente a perfeição da Justiça – palavra chave para se entender o Evangelho de Mateus – pode trazer a plenitude na vida das pessoas. O Reino de Deus, no Evangelho de Mateus denominado Reino dos Céus, exige compromisso com seus valores e confronto com tudo que é contrário a ele. É preciso solidariedade e partilha, construindo relações sustentadas no amor fraterno, pelo qual uma sociedade justa se faz possível. A Justiça apresentada pelo evangelho mateano não pode ser confundida com legalismo. O simples cumprimento de leis não produz equidade nas relações. É preciso usar do Sal do Reino, dando sabor à Justiça pelo amor, que se traduz em misericórdia e compaixão. Na ética de Mateus, a Justiça é fruto do amor.

Bebendo da Fonte da Palavra

No longo texto de Mateus que a liturgia nos oferece (20 versículos), a comunidade mateana deseja trazer luz e sal à ética da vida. O judaísmo normativo havia perdido o verdadeiro sabor em viver o sonho de Deus. Em viver conforme a Lei. Foram, aos poucos, se prendendo às tradições obcecadas por detalhes opressores, vazias da relação íntima com Iahweh, o Deus que se revela a partir da história humana. Sobretudo, quando homens e mulheres estão em situação de sofrimento. O Deus de Abraão, Isaac e Jacó, o libertador do povo hebreu no Cativeiro do Egito, o consolador dos aflitos no Exílio da Babilônia, o Deus presente em cada situação de opressão e sofrimento; foi transformado em juiz impiedoso – segundo a tradição do Templo – e subterfúgio para uma série de injustiças, sobretudo aos mais pobres e às mulheres. Esta ideia de Deus que o judaísmo normativo impunha às pessoas foi desmentida por Jesus. Mateus é muito pedagógico ao anunciar a nova proposta de Jesus. Não que a novidade de Jesus anule a antiga Lei, ao contrário, é sal e luz sobre ela. Remove a poeira do tradicionalismo que oprime. Liberta com o verdadeiro sabor da vida. Ilumina os porões do ostracismo e da imagem obscurecida de Deus, apresentada pelos Fariseus e Mestres da Lei. Aos poucos, Jesus apresenta seu Abba, o Paizinho, bem diferente – mais próximo e paternal – do que a imagem do Adonay, Senhor todo-poderoso e implacável juiz.

Em razão desta visão torta de Deus presente na religião do judaísmo normativo, Jesus pede aos seus seguidores e às suas seguidoras que tenham a coragem de superar essa medida, chegando à plenitude da medida de seu Pai. “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20). E que fique claro: Jesus não está falando de condenação, quando fala da impossibilidade de entrar no Reino. Ele quer apontar a incompatibilidade. Cristãos e cristãs precisam superar os limites da visão limitada de religiosos incapazes de compreender o coração de Deus. O legalismo defendido pelos Fariseus e Mestres da Lei era resultado de uma visão obscurecida pelo apego excessivo às tradições. Perderam o sabor da vida. E, com isso, perderam o sentido da Lei. Os mandamentos que foram apresentados a Moisés, não tinham como objetivo restringir a vida das pessoas. Ao contrário, eram conselhos protetores, pelos quais a segurança e a felicidade se faziam possíveis. Já pensou em um mundo sem limites? Quando cada um e cada uma possa fazer o que quiser? Sem levar em consideração o respeito aos que estão ao redor? Seria o caos. Uma anarquia destrutiva. Portanto, a Lei de Deus é apresentada à humanidade como vias condutoras para o bem-viver, com fraternidade e sororidade. E fiquemos atentos: a via, o caminho, não é mais importante do que o caminhante. A Lei está a serviço da humanidade e não o contrário. Este foi o erro dos Fariseus e Mestres da Lei. Confundiram o meio com o objetivo. Em preferência a um, preteriu-se ao outro. Na defesa da Lei, anulou-se a liberdade humana, fazendo da religião motivo e oportunidade para exploração, marginalização, exclusão. E Jesus – motivado pelo amor de seu Pai – passa a ensinar sobre um caminho novo de amar e servir a Deus. Uma relação entre divino e humano que não passa pelo medo. É construída pelo amor. É uma nova imagem de Deus, que não marginaliza, mas liberta e ressignifica a história humana. Que não elege privilegiados, mas nivela a todos e todas como irmãos e irmãs.

Outra questão importante apresentada na perícope do Evangelho de Mateus é a ética que deve estar incondicionalmente ligada à vivência religiosa. Muitas vezes o culto se distanciava da vida. Não é incomum Jesus questionar o comportamento dos religiosos da época. Chega a usar palavras cheias de iracúndia profética. É neste contexto que precisamos ler: “quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta” (Mt 5,23-24). A vida religiosa, os cultos e as liturgias, precisam ter o testemunho da vida para que possam, de fato, refletir uma relação íntima com Deus. Sem a ética, o amor fraterno, a misericórdia e outras manifestações concretas de fé; o rito se torna encenação, teatro, hipocrisia. Por isso, Jesus nos convida na perícope de Mateus que estamos a refletir a descobrir o verdadeiro sabor da Lei e do Rito. Toda a vida deve estar pautada na verdade e na justiça. O contrário disso é hipocrisia religiosa, que constrói relações de opressão e exploração.

Ainda mais: o texto de Mt 5,17-37 denuncia as contradições presentes na forma que o judaísmo normativo entendia as Leis e suas aplicações. A penalidade sobre o homicídio é ampliada por uma visão mais próxima do ideal ao Reino de Deus (cf. Mt 5,21-22). Não basta condenar crimes de morte, é preciso promover uma cultura de paz. Qualquer forma de violência é reprovada pelo Evangelho. Importa ao seguidor e à seguidora de Jesus privilegiar o diálogo, o perdão e a reconciliação, como sinais de maturidade de fé, aplicados no cotidiano da vida (cf. Mt 5,25-26). Tal maturidade de fé deve incrustar-se no íntimo humano, sendo mais do que virtude aparente. É preciso compreender que a Lei nos conduz a um comportamento ético que transcende ao legalismo. Não basta observar o que está escrito. É preciso ir além do escrito, contemplando o sentido da Lei e não somente um infindável elenco de normas a seguir.

A Palavra de Deus em nossas Vidas

Durante nossa caminhada cristã, nos deparamos com muitas situações, nas quais os piores sentimentos se nos fazem apresentar. São as violências muitas, as injustiças, os atentados à Dignidade Humana em nome da ganância, do prestígio (autopromoção), do poder. Vivemos como testemunhas, espectadores de um mundo culpado. Culpado por esquecer os valores de Deus, aderindo – cada dia mais – às tentações diabólicas que seduzem homens e mulheres com prestígio, riqueza, poder. Como consequência, temos sofrimento, miséria, violência. A justiça é vista como privilégio de uns, ou algoz de outros que se sentem injustiçados quando seus privilégios são questionados. Quem ainda não ouviu a expressão: “ditadura da toga”? Quem usa essa expressão, geralmente vive em um poço de lama, no qual as maiores atrocidades são cometidas em nome de Deus, da pátria e da família. O Evangelho de Mateus responde a estes que querem uma justiça conivente com a arrogância e a desonestidade das elites: “Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno” (Mt 5,37). Não há Justiça quando se conspira contra a democracia, se nega direitos fundamentais da pessoa humana, quando se ataca de forma vergonhosa à “Casa Comum”, pela exploração predatória de seus recursos naturais. A estes, Jesus é imperativo: que a Justiça seja feita até as últimas consequências (cf. Mt 5,26).

No ambiente eclesial estas tentações também nos chegam. Muitos querem viver segundo os cânones do Direito Canônico ou recitando verbetes do Catecismo, mas se esquecem do sabor da Lei, que é a prática da Justiça por Amor. São as muitas formas de tradicionalismo que privilegiam as escaladas por poder e prestígio. São as “virtuosas desculpas” que favorecem o acúmulo de riquezas, em nome de Deus. Quem se esqueceu dos clérigos que acumularam bens e riquezas, ostentando luxo, porque sua ação evangelizadora está intimamente ligada aos métodos de marketing religioso? Esse mecanismo de comércio não deseja promover o sonho de Deus para a humanidade. Promove figuras sacerdotais que arrebanham pessoas, enchendo espaços de shows, ou motiva as vigílias insones com aquele sacerdote piedoso das madrugadas. Enquanto isso, cristãos e cristãs que escolhem doar a vida promovendo caridade e justiça social, são chamados de comunistas. Pode parecer belo e piedoso o modelo de ser Igreja midiática. Todavia, enquanto a fé glamour se expande cada dia mais, a fé comprometida com os projetos do Reino se atrofia; relegando profecia e engajamento nas pautas humanitárias à condição de marginalidade. Quem nunca ouviu pregadores confundir (propositalmente) justiça social, profecia, opção preferencial pelos pobres; com ideologia marxista? Revestem a Igreja em Saída com o espectro do bicho-papão do comunismo. Enquanto isso, os pobres ficam cada vez mais pobres e, muitas vezes, quem os oprime e explora são os mesmos que rezam as insones Ave-Marias madrugueiras.

É fato que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem nos advertido herculeamente sobre a necessidade de uma Igreja comprometida com os apelos das realidades que nos cercam. As Campanhas da Fraternidade, a cada ano, nos apontam um foco de reflexão e ação em prol de uma sociedade mais humana e solidária. E mesmo sendo diretriz da Conferência Nacional dos Bispos, ou seja, Magistério Oficial da Igreja; há quem simplesmente as ignore. E mais: não são raras as publicações nas mídias de opositores às Campanhas da Fraternidade. Com isso, busca-se uma Igreja presa no passado, apregoando espiritualidades atrofiadas, anacrônicas; cheias de devoção, mas vazias do Evangelho. E Jesus nos adverte: “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20). Não basta conhecer a Lei de Deus e prestar-lhe homenagem por devoções e ritos. É preciso redescobrir o sabor da Lei e do Rito, ou seja: viver o amor e a misericórdia.

Na atualidade do que vivemos, quando o cristão e a cristã se cala diante do sofrimento de seus irmãos e irmãs, corrobora para que tais sofrimentos se perpetuem. Há culpabilidade na omissão. Ser profeta, agir em profecia, ser Sal e Luz; não é facultativo ao discípulo e à discípula de Jesus. Ao contrário, trata-se de um imperativo. Nosso batismo nos impele à missão de testemunhar Jesus profeta, sacerdote e rei. O discipulado nos faz continuadores da Ação e Mensagem de Jesus. O silêncio diante das injustiças é cumplicidade, é revestir-se do espectro do opressor, em detrimento dos oprimidos. É igualar-se aos Fariseus e Mestres da Lei que esqueceram o verdadeiro sabor da Lei, da vontade de Deus.

Precisamos Evangelizar a partir dos pobres e com os pobres: verdadeiros herdeiros do Reino dos Céus.


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