Por Yuri Lamounier Mombrini Lira
Meditemos agora sobre o grande legado deixado por Jesus: o mandamento do amor. O grande desafio que Jesus propõe aos seus discípulos é a vivência do amor. Há alguns anos, Padre Zezinho compôs e gravou uma canção que nos inspira e nos recorda que, para sermos felizes, é preciso que simplesmente sigamos os passos de Jesus de Nazaré. “Amar como Jesus amou, pensar como Jesus pensou, viver como Jesus viveu. Sentir o que Jesus sentia, sorrir como Jesus sorria e, ao chegar ao fim do dia, eu sei que eu dormiria muito mais feliz”. A proposta de Jesus é, ao mesmo tempo, tão simples e tão complexa.
Em sua mais recente encíclica, o Papa Francisco nos lembra que “o modo como nos ama é algo que Cristo não nos quis explicar exaustivamente. Mostra-o em seus gestos […]. Procuremos, pois, onde nossa fé pode reconhecê-lo: no Evangelho”[1]. Sigamos o conselho de Francisco e vamos aos Evangelhos para aprender a amar como Jesus amou.
Nos Evangelhos, inúmeras vezes, Jesus fala do amor e lembra que ele deve fazer parte do agir cristão. Nos Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas – os chamados Evangelhos sinóticos –, um homem perguntou para Jesus qual era o maior dos mandamentos e Ele disse: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora o segundo é semelhante a esse: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22, 34-40; Mc 12,28-31; Lc 10,25-28).
De certo modo, Jesus nos fala de três amores ou três dimensões em que podemos viver o amor, sendo dois explícitos e um outro de modo um pouco velado: amar a Deus, amar ao próximo e a amar a si mesmo. Em síntese: se eu me amo, deveria ser capaz de amar a Deus e ao próximo; se eu amo a Deus, tenho a obrigação ética de amar o próximo e a mim e, amando ao próximo, demonstro amor a Deus e a mim mesmo. Cuidado, porém, deve ser tomado para que o amor a nós mesmos não seja confundido com narcisismo. O amor a si mesmo deve ser entendido a partir da perspectiva do cuidado, uma vez que cada pessoa é imagem e semelhança de Deus. Nos Evangelhos sinóticos, a vivência do amor é mensurada nessas três etapas. Somos chamados a amar a Deus sobre todas as coisas, mas o amor ao próximo se dá a partir do amor a si mesmo.
O Evangelho de João dá um salto e nos apresenta Jesus falando de um outro horizonte para o amor. Disse Jesus: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor” (Jo 15,9). No horizonte do Quarto Evangelho, percebe-se que a medida do nosso amor não somos nós mesmos, mas o próprio Cristo. A medida do nosso amor deve ser o amor de Jesus: o amor de Jesus pelo Pai e o amor que Jesus demonstra pelas pessoas. Isso fica ainda mais evidente na sequência do capítulo 15 do Evangelho de João: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,12). A partir dessa perspectiva joanina, a medida do amor é o próprio Cristo.
De acordo, com o teólogo italiano Carlo Rocchetta, “a medida da caridade, já não é dada somente pelo amor que cada um tem por si mesmo, mas do ícone Jesus que se oferece a todos gratuitamente, por pura benevolência, e amadurece a força daquele amor”[2]. Assim, o grande desafio de amar como Jesus amou se dá exatamente pelo fato de Jesus ser a medida do amor. O psicanalista e filósofo alemão, Erich Fromm, escreveu em Arte de amar:
O primeiro passo é tomar consciência de que amar é uma arte, do mesmo modo que viver é uma arte, se quisermos aprender a amar deveríamos proceder da mesma maneira como quando queremos aprender outra arte, por exemplo, música, pintura, marcenaria ou as artes da medicina e da engenharia […] O processo de aprendizado de uma arte pode ser dividido em duas partes: uma, o domínio da teoria; a outra o domínio da prática[3].
Viver o amor proposto por Jesus é uma arte; exige aprendizagem na teoria e na prática. Muitas vezes, dominamos com maestria a teoria da arte de amar como Jesus amou. No entanto, temos grandes dificuldades de exercer essa arte de modo prático. Não basta nos contentarmos em vivenciar o amor de Jesus nas palavras e nos discursos, nas redes sociais, nos cartões de felicitações… Se reduzimos o mandamento de Jesus à prédica, ao discurso, à retórica, ele fica esvaziado de sentido. Contemplando a vida de Jesus de Nazaré, percebemos que Ele não amou apenas com palavras, mas, sobretudo, com gestos. Em Jesus, palavras e gestos estavam sempre em harmonia.
Para Jesus, o amor está relacionado com oblação, ou seja, o amor tem a ver com doação e gratuidade. A palavra oblação não é muito usada em nosso cotidiano, mas aparece constantemente nos textos da nova tradução do missal. Seu significado é oferta. Com Jesus, aprendemos que amar é um verbo oblativo. A grande oferta que Jesus fez é simbolizado por seu amor. Assim também, a maior oferta que podemos fazer é a do nosso amor. Podemos resumir essa característica oblativa do amor com um verso de uma conhecida canção de nossas liturgias: “quem vive para si, empobrece o seu viver, quem doar a própria vida, vida nova há de colher”.
Amar como Jesus amou foi, é e permanecerá sendo um desafio para quem se dispõe a ser seu discípulo. Humanamente falando seria impossível viver esse desafio proposto pelos Evangelhos, contudo essa vivência não depende apenas de nossas forças. Só conseguimos amar como Jesus amou, porque Ele mesmo nos ajuda com a sua graça a vivermos assim, seguindo seu mandamento.
No livro Testemunhas da esperança, Van Thuan nos ajuda a meditar sobre o amor de Jesus e nos apresenta o que chama de “defeitos de Jesus”. Disse o vietnamita: “abandonei tudo para seguir Jesus, porque amo os defeitos de Jesus”[4]. Transcrevo literalmente esse trecho do livro:
1º defeito – Jesus não tem boa memória: a memória de Jesus não é igual a minha; Ele não só perdoa e perdoa a todos, mas esquece até mesmo que perdoou.
2º defeito – Jesus não sabe matemática: se Jesus tivesse sido submetido a um exame de matemática, talvez Ele teria sido reprovado […] Para Jesus, uma pessoa tem o mesmo valor de noventa e nove, e talvez mais ainda! […] Que simplicidade a Sua, simplicidade que ignora cálculos humanos; que amor pelos pecadores.
3º defeito – Jesus desconhece lógica: na parábola da mulher que perde e encontra a sua moeda (Lc 15,8-10). É realmente ilógico perturbar suas amigas por causa de uma dracma! Depois, promove uma festa para comemorar o ocorrido.
4º defeito – Jesus é um aventureiro: quem cuida da publicidade de uma empresa ou se lança como candidato em algum tipo de eleição, geralmente faz muitas promessas. Nada de semelhante acontece com Jesus. A Sua propaganda, analisada humanamente é destinada ao fracasso. Ele promete, a quem o segue, julgamentos e perseguições.
5º defeito – Jesus não entende nem de finanças nem de economia: se Jesus fosse nomeado administrador de uma comunidade ou diretor de uma empresa, essas instituições fracassariam ou decretariam falência[5].
É no mínimo curioso pensar nessas características um tanto “defeituosas” do ponto de vista do que julgamos ser a maneira ideal de agir. A maneira como Jesus age e ama encontra-se na contramão do que o mundo ensina. O modo como Jesus ama extrapola nossa compreensão humana. Como canta Padre Fábio de Melo, “somos humanos demais pra compreender”.
Van Thuan chega à conclusão que Jesus possui esses “defeitos” exatamente porque é amor. Ele vive e age por amor. O último “defeito” de Jesus apresentado por Van Thuan é: “Jesus na qualidade de Mestre, seria demitido pela direção de qualquer escola por ter revelado, antes da hora, o tema do exame final. E o que é mais grave é que ele desenvolveu o próprio tema do exame”[6].
O exame final de que fala Van Thuan é aquele que Jesus desenvolve no capítulo 25 do Evangelho de Mateus, as obras de caridade. Jesus diz que todas as vezes que fizermos o bem a qualquer pessoa, na verdade, é a Ele que nós fizemos e, todas as vezes que deixarmos de fazer o bem a alguém, é ao próprio Cristo que não o fizemos.
Por isso, São João da Cruz dizia: “No entardecer da vida, examinar-te-ão no amor”[7]. Isso nos leva a descobrir que, desde o amanhecer de nossa vida, podemos optar pelo amor. Tudo gira em torno do amor, que é sempre feito através de atitudes, mais do que com palavras. Assim, vemos a grandeza que é esse desafio de amar como Jesus amou.
Outro grande homem, São Charles de Foucauld, ensinava: “O amor é inseparável da imitação – quem ama quer imitar–, é o segredo de minha vida. Apaixonei-me por esse Jesus de Nazaré crucificado, e passo a vida tentando imitá-lo”[8]. Segundo o místico francês do século XX, um passo importante para amarmos como Jesus amou é imitar Jesus. Ou seja, fazer o que ele fez, viver como Ele viveu.
De acordo com o dicionário online Priberam[9], imitar significa: “reproduzir ou tentar reproduzir fielmente (o que foi ou é feito por outrem), as características de alguém ou algo; inspirar-se em; ter como exemplo, copiar”. Normalmente, o bebê imita sua mãe e seu pai; os alunos imitam seus professores. Também existem muitos comediantes que, para fazer graça, imitam o jeito de falar e os trejeitos dos famosos.
Para nós também é importante esse desejo de imitar Jesus. O apóstolo Paulo, nos primórdios do cristianismo, já escrevia: “Sede meus imitadores, como eu sou de Cristo” (1Cor 11,1); também, na Carta aos Filipenses, ele pediu aos seus interlocutores: “Irmãos, sede meus imitadores” (Fl 3,17). E na Carta aos Efésios – atribuída a Paulo, mas certamente escrita por algum discípulo seu – encontramos: “Sede, pois, imitadores de Deus como filhos queridos” (Ef 5,1). Desse modo, fica evidente que, para imitar Jesus, devemos nos inspirar em suas palavras, em seus gestos, em sua vida.
É difícil, mas não é impossível, amar como Jesus amou. Amar como Jesus amou é um convite para vivermos a ternura como ele viveu. No livro Pedagogia da ternura, Eder Vasconcelos diz: “Ternura é ouvir com o coração, falar com o coração, ver com o coração, sentir com o coração […] Cultivando a caridade terna, somos capazes de amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos”[10]. Eis um caminho belo e desafiador: aprender a ouvir, falar, ver e sentir com o coração.
O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, em uma crônica escreveu algo que inspira nossa reflexão:
Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando[11].
O amor nos reumaniza. O amor nos torna gente, nos torna capazes de escutar, dialogar e preenche de esperança o nosso coração. No seguimento de Jesus, encontramos essa dose de amor da qual andamos todos precisados. Aprendendo a amar como Jesus amou, poderemos transformar a nós próprios, as pessoas e o mundo.
Amar como Jesus amou exige sentir o que Jesus sentia, como cantou Padre Zezinho. Mas o que é que Jesus sentia? Como Jesus lidou com algumas situações em sua vida?
O apóstolo Paulo na Carta aos Filipenses nos exorta: “Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus. Ele, existindo em forma divina, não considerou um privilégio ser igual a Deus, mas esvaziou-se, assumindo a forma de servo e tornando-se semelhante ao ser humano” (Fl 2,6-7). Também o autor da Carta aos Hebreus, falando sobre Jesus, disse: “De fato, não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois Ele foi tentado em tudo, à nossa semelhança, sem, todavia, pecar” (Hb 4,15). Jesus foi semelhante a nós, teve os mesmos sentimentos humanos que todos temos, mas optou sempre pela misericórdia, pela ternura, pela compaixão.
De acordo, com os Evangelhos, Jesus chorou, se alegrou, sentiu medo, angústia, enfrentou a dor, sentiu compaixão, ficou bravo, teve sono… É fascinante pensar nos sentimentos de Jesus e como nossos sentimentos podem ser iluminados por ele.
Em outra de suas músicas, Padre Zezinho canta assim: “Jesus Cristo me deixou inquieto, nas palavras que ele proferiu, nunca mais eu pude olhar o mundo, sem sentir aquilo que Jesus sentiu”. Assim, motivados pelos sentimentos de Jesus, nós cultivamos no coração o desejo de sermos semelhantes a Ele. Oxalá, possamos ser pelo menos um pouco parecidos com Jesus de Nazaré.
O poeta amazonense, Thiago de Mello, no poema Para os que virão, afirma:
Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser […]
Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.
Acredito que podemos nos apossar das palavras do poeta. Cada um de nós também sabe pouco e é pouco. O que importa é ter capacidade de dar-se inteiramente e fazer o que está ao nosso alcance, isto é, fazer a nossa parte tendo a consciência de que o real está sempre longe do ideal. Em muitas situações, estaremos bem distantes da pessoa que gostaríamos de ser; estaremos aquém do que Jesus nos pede para viver. Contudo, o que importa é arriscar, ainda que fracassemos.
Para sermos bem sucedidos nesta tarefa, é importante que procuremos pessoas que compartilhem desses mesmos ideais e possamos nos dar às mãos rumo a essa meta. Assim, ficará mais fácil conjugar o verbo amar. Juntos somos mais fortes e podemos ir mais longe. De mãos dadas, temos mais condições de perseverar na proposta de Jesus e do seu evangelho.
1 Dilexit nos, n. 33.In: FRANCISCO, Papa. Dilexit nos: sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus Cristo. São Paulo: Paulinas, 2024.
2 ROCCHETTA, Carlo. Teologia da ternura: um “evangelho” a descobrir. Tradução de Walter Lisboa. São Paulo: Paulus, 2002. p. 255.
3 FROMM, Erich. A arte de amar. Tradução de Eduardo Brandão. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2015. p. 6.
4 VAN THUAN, François Xavier Nguyen. Testemunhas da esperança. São Paulo: Cidade Nova, 2022. p. 29.
5 Idem, p. 28-31.
6 Idem. p. 212.
7 JOÃO DA CRUZ, Santo. Obras completas. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2002. Ditos de luz e amor: avisos e sentenças espirituais, n. 58. p. 98.
8 SANTANA, Waldemir. São Charles de Foucauld: um homem que aprendeu a ser feliz. São Paulo: Paulus, 2024.p. 29.
9 IMITAR. In: DICIONÁRIO Priberam da Língua Portuguesa.
10 VASCONCELOS, Eder. Pedagogia da ternura: via para o amor e a beleza. São Paulo: Paulinas, 2022. p. 22.
11 NOTAS sobre “A banda” – Carlos Drummond de Andrade. Publicada no Jornal Correio da Manhã em 14/10/1966. Disponível em: https://cafecompoemas.com/notas-sobre-a-banda-carlos-drummond-de-andrade. Acesso em: 15 nov. 2024.
Colaborou: Fique Firme
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