Sobre batalhas espirituais

Por Solange Maria do Carmo

Como se não bastasse o tanto de pelejas e lutas reais, tais como garantir o acesso a água, luz, casa, escola, comida, transporte, trabalho, enfim, vida digna para todos, tem gente por aí querendo nos ludibriar com batalhas espirituais. Para isso, usam como ferramenta o texto de Ef 6,12: “Para nós, a luta é não contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as autoridades, contra os dominadores do mundo das trevas, contra os espíritos da maldade nos lugares celestiais”.


O trecho acima citado encontra-se num capítulo em que o autor dá conselhos práticos para aquela época e, ao final, nos convida a ficar firmes no Senhor, na força do seu poder, a nos revestir com a armadura do cristão, a colocar o capacete da salvação etc. (Gl 6,10-20). Trata-se de uma advertência dirigida a um grupo de gentios ou pagãos, da comunidade de Éfeso.


O povo de Éfeso, assim como os colossenses, vivia num mundo imaginário dos deuses pagãos, especialmente de reverência aos astros e a forças ocultas que estariam espalhadas pelos ares, ou seja, nos lugares celestiais. Logo, o autor da carta se vale da linguagem que seu público conhece para se fazer entender. O que o versículo acima devidamente bem compreendido quer dizer é que, para dar conta de viver como autênticos seguidores de Cristo, devemos estar prontos para a batalha da vida, revestidos de seu poder, que é o amor, a principal arma do cristão. A comunidade de Éfeso não deveria se preocupar com a luta que outras comunidades, cheias de cristãos oriundos do judaísmo, se preocupavam. A expressão “a luta não é contra a carne e o sangue” diz respeito aos judeus; eles se gabavam de ter a carne circuncidada e o sangue de Abraão, mas a comunidade de Éfeso não precisa se preocupar com os cristãos judaizantes, pois isso não faz parte de sua realidade. Ela deve se preocupar com a luta cotidiana de viver o amor, de vencer as armadilhas do Diabo, ou seja, de não se deixar enganar por falsos ídolos – essas tais potestades e forças ocultas dos ares – tão conhecidas da comunidade dos efésios. 


Para muitos, é mais fácil inventar batalhas espirituais e empreendê-las – e isso é compreensível – que ter de enfrentar a dureza da vida. Lutar por vida digna é a primeira tarefa do cristão e a política, como já afirmava o papa Pio XI, é a melhor forma de caridade. Ao fazer leis justas e escolher representantes dignos e preocupados com o povo, conseguimos ajudar não uma ou duas pessoas, mas uma infinidade de abandonados e esquecidos da sociedade, um monte de gente subalternizada por uma minoria que se acha dona dos recursos do mundo.


Tem político por aí se valendo da bíblia e uma interpretação completamente equivocada da mesma para se safar de suas perversidades. Que fique bem claro: a luta dos cristãos é pela dignidade do povo, logo não tem nada a ver com batalha espiritual ou briga entre o bem e o mal num mundo imaginário, até porque essa é a base do maniqueísmo e não do cristianismo. Nossa luta é concreta: para isso, nos revestimos do amor do Senhor, que nos empodera, e seguimos em frente. Qualquer tentativa de usar esse versículo bíblico para justificar acidentes naturais, como raios de tempestade, é abuso espiritual e não deve ser tolerada. Querem manipular nossa consciência para dominar nossos corpos, mas já fomos libertos por Cristo e não caímos nessa.

Colaborou: Fique Firme


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