(Mt 5,17-37)
Por Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Jesus continua no alto da montanha; Ele é o novo Moisés. Tudo o que ele diz aqui nasce das bem-aventuranças. Só entenderá o novo sentido que ele dá à Lei quem já entrou naquela lógica: a dos pobres em espírito, dos mansos, dos famintos de justiça, dos misericordiosos.
Jesus começa com um esclarecimento decisivo: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas”. Ele não é um revolucionário sem raiz; ao contrário, sua abertura só é possível por causa de seu enraizamento profundo. Jesus não rompe com a Lei; Ele a leva à sua verdade mais íntima. A Lei não é descartada, é cumprida em seu Espírito. Cumprir, aqui, não significa obedecer mecanicamente a fórmulas, a regras, a um manual, mas levá-la à plenitude, ao seu sentido radical.
E qual é o sentido da Lei, senão nos colocar em comunhão profunda com o outro, com Deus e com nós mesmos? Seria sua função destravar e desbloquear o que impede a vida? Para isso, é preciso que Jesus discorde sobre os sentidos dados à Lei.
A Lei dos judeus fora reduzida a um código externo, a um sistema de controle, a uma moral para alívio de consciências: um punhado de regras para satisfação pessoal, para dar a impressão de ser bom, para assegurar-se da própria correção. Mas uma lei cumprida assim pode até produzir pessoas corretas; mas ela gera corações justos? Por isso Jesus dirá algo desconcertante: “Se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus”.
Para Jesus, importa uma justiça que saia das exterioridades do fazer para chegar à intenção; do ato para atingir o desejo; da aparência para sangrar no coração. Por isso ele apresenta as chamadas “antíteses”: “Ouvistes o que foi dito… Eu, porém, vos digo”. Ele não está contradizendo Moisés; está radicalizando a Lei, indo à sua raiz.
Não matar não basta, pois, se há ira cultivada, insulto repetido ou rompimento deliberado, a morte já encontrou lugar. Por isso, antes de qualquer culto, Jesus pede reconciliação, pois a relação com Deus passa, necessariamente, pela relação com o irmão.
Também não basta evitar o adultério. Jesus não demoniza o corpo nem o desejo, nem propõe um controle neurótico do olhar ou do pensamento. Ele denuncia a lógica da apropriação, do uso, da posse. O problema não é desejar; é reduzir o outro a uma coisa.
Quando fala do divórcio, Jesus não ignora a dureza da vida nem a complexidade das relações humanas. Ele denuncia uma prática que, naquele contexto, descartava a mulher e jogava-a na sarjeta com um simples documento. Sua palavra é defesa da dignidade, não legalismo. Onde a Lei era usada para legitimar injustiças, Jesus a reconduz ao cuidado com o vulnerável.
E quando Jesus fala dos juramentos, ele toca num ponto central: a fragmentação da verdade. Jurar por Deus, pelo céu ou pela terra era uma maneira de relativizar a própria palavra. Jesus propõe algo revolucionário de tão simples: “Seja o vosso sim, sim; e o vosso não, não”. A proposta é uma vida tão íntegra que não precise de garantias extras. Uma palavra que baste.
O que Jesus está fazendo, afinal? Está dizendo que não deve haver dicotomia ou separação na vida do cristão: um coração para Deus na prática religiosa; outro coração para a vida, para os outros e para as circunstâncias. Tudo passa pelo mesmo centro.
Cumprir a Lei, então, não é cumprir normas; é tornar-se alguém capaz de amar com largueza. É permitir que o Reino dos Céus alcance não apenas o que fazemos, mas aquilo que nos move. Por isso, essa palavra é um chamado à liberdade: a liberdade de uma vida reconciliada com tudo e todos, uma vida honesta.
Nisso Jesus é absolutamente revolucionário diante da Lei. Ele a reconduz do formalismo moral e do moralismo vazio ao seu limite, ao seu ápice; um ponto que, inclusive, a coloca em xeque. Que sentido tem isso que faço? Que faço com isso que faço? O que desejo com isso que faço? Essa é a plenitude da Lei: a sua desnecessidade quando o coração ousou tornar-se o centro da vida.
Colaborou: Fique Firme
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