A Santidade da Quaresma

“Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor, purificai-me! Lavai-me todo inteiro do pecado, e apagai completamente a minha culpa!” (Salmo 50/51)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Na Quarta-Feira de Cinzas, 18 de fevereiro, adentramos no Ciclo da Páscoa do Ano Litúrgico de 2026. Ciclo que se inicia com a Quaresma, tempo de nos prepararmos para viver os Mistérios Pascais. Jesus, Filho Unigênito do Pai, se dá em Comida e Bebida na Eucaristia e se faz salvação para cada um e cada uma de nós por seu Sacrifício de Cruz (cf. 1Pd 2,24). Em Jesus somos resgatados à plenitude da vida, eleitos nele como filhos e filhas de seu Pai. Pelo Mistério Pascal, transcendemos da condição de criaturas para pertencer à família de Jesus (cf. Gl 3,26-28). Por sua Paixão, Morte e Ressurreição, tornamo-nos herdeiros da Vida Eterna. Esta é nossa fé, pela qual vivemos e anunciamos para que todos e todas tenham vida, e vida plena e eterna (cf. Jo 11,25-26; Jo 10,10).

Bendita seja cada Quarta-feira de Cinzas! Para bem viver este dia, a Liturgia nos apresenta o Evangelho de Mateus 6,1-6.16-18. Ainda no cenário do Sermão da Montanha, Jesus exorta a seus discípulos – e a nós por eles -, a bem viver nossas vidas segundo a fé e em coerência com o amor de Deus que nos foi dedicado. A Quaresma e seus ritos penitenciais não consistem em algo que devemos fazer para obter o apreço de Deus. Ao contrário, é em razão do amor que Deus nos dedica desde o início dos tempos, que devemos aproveitar da Quaresma para aprimorar nossa intimidade com ele. O amor demonstrado em palavras e ações, enquanto seguidor e seguidora de Jesus, deve ser proporcional ao amor por Deus oferecido, em seu Filho (cf. Lc 7,47). A Santidade da Quaresma está em retribuir de forma gratuita e feliz todo o Mistério Salvífico que iremos celebrar na Páscoa!

Pensando em tudo isso, as exortações de Jesus sobre a fé e a vivência exterior do que cremos, se fazem profundamente oportunas neste tempo. A esmola em segredo (Mt 6,2-4), a oração como verdadeira intimidade com Deus e não como espetáculo (Mt 6,5-6), a discrição nos sacrifícios espirituais (Mt 6,16-18); apontam para o verdadeiro sentido de nossa vida enquanto religiosos e religiosas. Mais do que um espetáculo estético de fé, precisamos ter interiorizado o compromisso ético a partir daquilo que professamos enquanto discípulas e discípulos de Jesus. A esmola, a oração e o jejum não podem ser insígnias marqueteiras de nossa vida espiritual. A Igreja está cheia de autorreferencialidade. E saturada disso! Escandalizam aos Céus pessoas que, por suas aparentes virtudes e devoções, apontam para si mesmas e não para o Cristo. É preciso que aprofundemos a exortação de Jesus no Evangelho da Liturgia desta Quarta-feira de Cinzas. Faz-se imperativo que renunciemos à tentação de uma fé-espetáculo e nos convertamos a uma fé-compromisso.

Oportunamente, a cada ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nos oferece um norte para bem viver o tempo quaresmal e com isso, nossas vidas – enquanto seguidores e seguidoras de Jesus. Como tema deste ano temos a questão da moradia e suas fragilidades. Nesta Quarta-feira de Cinzas, em sua sede, em Brasília (DF), às 10h, a CNBB realiza a cerimônia oficial de abertura da Campanha da Fraternidade 2026, que neste ano propõe à Igreja e à sociedade a reflexão sobre a moradia como condição essencial para a dignidade humana. Com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a Campanha quer iluminar, à luz do Evangelho, a realidade de milhões de brasileiros que ainda não têm acesso a uma moradia adequada. A escolha do tema acolhe sugestão da Pastoral da Moradia e Favelas e reforça o compromisso histórico da Igreja com a defesa dos direitos sociais e da justiça.

A Campanha da Fraternidade 2026 chama atenção para dados alarmantes da realidade habitacional brasileira: 6,2 milhões de famílias não têm moradia adequada e cerca de 328 mil pessoas vivem em situação de rua. Para a Campanha, a casa é a porta de entrada para todos os demais direitos. Sem moradia, faltam segurança, saúde, educação e dignidade. Inspirada na Encarnação de Cristo – “Ele veio morar entre nós” -, a proposta convida à conversão pessoal e social.

Voltando à introdução de nossa reflexão, precisamos aprofundar a dimensão mistagógica da Quaresma. Ao contrário do que muitos insistem em dizer, as Campanhas da Fraternidade são muito oportunas para a espiritualidade quaresmal. Não se trata de uma iniciativa meramente social, ou de viés político-partidário. É conversão! É vivência mistagógica da fé! Somos constantemente confrontados pelas tentações que podem prejudicar a dignidade humana e, com isso, atingir diretamente ao sonho de Deus para nossas vidas. Uma leitura atenta da Bíblia nos mostra que desde o princípio Deus tem se revelado a partir da história humana. É inegável que ele se revela em situações, nas quais, a vida humana é colocada em cheque e sua dignidade é ameaçada. As Campanhas da Fraternidade existem como resultado de fidelidade Bíblica. Da mesma forma que Deus agiu ao longo da história como libertador, consolador e inspiração para a resistência dos pequeninos em situação de opressão; hoje – enquanto Igreja -, temos sua ação e presença entre nós, enquanto libertador, ressignificando nossas vidas. As Campanhas da Fraternidade são gestos concretos que devemos ter enquanto comunidade de fé, promovendo um mundo mais humano e justo para todos e todas. Pensar a oração, o jejum e a esmola de forma descontextualizada da realidade em que vivemos, é primar por uma fé-estética, sem quaisquer implicações éticas. Com isso, não cremos verdadeiramente no Evangelho da Vida. Em verdade, vivemos a encenar uma fé-espetáculo, margeando à hipocrisia. É convertendo-nos ao Direito e à Justiça, praticando a solidariedade, a partilha, em constante espírito de profecia; que consiste a santidade da Quaresma!


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