Deus nos chama a partir da história – Parte XVII: a voz profética de uma mulher interfere no destino de uma nação

Por Karina Moreti

Interessante como ainda existem pregadores que vivem a nos convidar a uma vida espiritual, esquecendo das mazelas que todos nós passamos. É necessário lembrar que Deus sempre chama a partir da história concreta, marcada por conflitos, desigualdades e disputas de poder. Não em uma batalha espiritual. Até porque Ele não precisa do ser humano para ajudá-lo nesta empreitada. Deus nos dá oportunidade para melhorar a vida em que estamos inseridos. Na vida dos que nos cercam e a dos que nos foram confiados. A revelação não acontece fora do tempo, mas no interior dele. Por isso, quando olhamos atentamente para a história bíblica, percebemos que o agir de Deus frequentemente passa por pessoas que a própria história tenta apagar. Entre elas, estão as mulheres.

Vamos à nossa história de hoje. Judá vivia um período de profunda crise espiritual e social. A monarquia desejada pelo povo, não obstante o alerta do profeta Samuel (cf. 1Sm 8), havia se transformado em um sistema de dominação. Desde Salomão, o poder real se consolidara às custas da exploração do próprio povo, especialmente por meio do sistema de corveia, que submetia homens e suas famílias ao trabalho forçado para a construção do Templo e das estruturas do Estado (cf. 1Rs 5,13–18). O lugar que deveria simbolizar a presença libertadora de Iahweh foi erguido sobre o sofrimento dos pequenos. Além disso, Judá assimilou valores e práticas religiosas de divindades como Baal e símbolos associados a Rah (divindade egípcia), deuses ligados ao poder, à fertilidade controlada e à legitimação da desigualdade. A idolatria não era apenas um desvio cultual, era muito mais que isso, era um projeto político que colocava os mais vulneráveis em situação de cativeiro.

É neste cenário de esquecimento da Aliança que o Livro da Lei é encontrado no Templo (cf. 2Rs 22,8). O achado não revela apenas a negligência religiosa, mas denuncia uma ruptura profunda entre o povo, suas lideranças e a memória viva da fé. A Torá estava trancada no Templo. Não orientava mais a vida; permanecia guardada, silenciada, desvinculada da prática da Justiça. Ao ouvir a leitura do livro, o rei Josias rasga suas vestes, sinal de reconhecimento do pecado coletivo e do abandono da Aliança (cf. 2Rs 22,11). Contudo, o dado mais significativo desse episódio não é apenas o achado do livro, mas a quem se recorre para interpretá-lo. O rei Josias envia seus oficiais, não aos sacerdotes responsáveis pelo culto, nem aos escribas guardiões da tradição, nem mesmo a Jeremias — profeta contemporâneo, cuja atuação já era conhecida em Judá (cf. Jr 1,1–3). A palavra decisiva vem de Hulda (cf. 2Rs 22,14).

Hulda não era apenas uma mulher qualquer; era mulher, profetiza, reconhecida como legítima intérprete da vontade de Deus. O texto destaca que ela vivia em Jerusalém, na “cidade nova” – não junto à comunidade judaica tradicional (cf. 2Rs 22,14), região associada às camadas mais pobres da cidade. Sua localização geográfica revela também sua localização social: Hulda habita às margens, longe do Templo e do Palácio, fora dos centros institucionais de poder religioso e político.

Os detalhes textuais desta escolha não é casual. Ao confiar a interpretação da Lei a uma mulher que vive nas periferias da cidade, Deus rompe com a lógica patriarcal e centralizadora. A profecia não emerge do centro, mas da margem; não do poder, mas da fidelidade. Hulda lê o texto sagrado à luz da história concreta do povo e anuncia juízo e esperança, responsabilizando reis e nação pelo abandono da Aliança (cf. 2Rs 22,15–17), mas também reconhecendo a sensibilidade de Josias diante da Palavra (cf. 2Rs 22,18–20). Assim, Hulda encarna uma teologia que nasce das periferias existenciais. Quando a Lei é esquecida dentro do Templo, é a voz de uma mulher marginalizada que devolve sentido à Aliança. Deus escolhe falar a partir de quem foi historicamente silenciada, afirmando que a autoridade profética não depende de gênero, posição social ou reconhecimento institucional; mas da escuta atenta à justiça e à história. Em Hulda, Deus chama a partir das margens para recentrar a fé no compromisso com a vida.

Hulda legitima o livro como vontade de Deus. Sua palavra confirma o juízo, revela o cuidado divino ao reconhecer o coração sensível de Josias. Diferente de uma leitura opressora da Lei, Hulda a testemunha como expressão do cuidado de Deus com a vida. Sua profecia dialoga profundamente com a teologia do Deuteronômio, que apresenta a Lei como Dom e não como instrumento de opressão e morte: “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).

Enquanto Jeremias chora, denuncia e anuncia a ruptura da Aliança, Hulda fala a partir do cuidado. Jeremias é o profeta das lágrimas, aquele que sente no corpo o colapso da história. Sua vocação nasce marcada pela dor e pela resistência: “Quem dera minha cabeça fosse um manancial de água, e meu olho, uma fonte de lágrimas, para prantear, dia e noite, os mortos da filha de meu povo” (Jr 8,23). Jeremias anuncia a infidelidade estrutural de Judá, denuncia o culto vazio e a falsa segurança religiosa: “Não se iludam com palavras mentirosas, dizendo: ‘Este é o Templo de Iahweh, Templo de Iahweh, Templo de Iahweh!’” (Jr 7,4). Ele vê a ruína que se aproxima e a proclama com fidelidade, mesmo sendo rejeitado (cf. Jr 20,1–2; 26,8).

Hulda, por sua vez, fala a partir de outro lugar. Não da praça, nem do Templo, mas da casa, na periferia da cidade. Quando é consultada, sua palavra também reconhece a ruptura da Aliança: “Assim diz Iahweh, Deus de Israel: ‘Vou fazer cair uma desgraça sobre este lugar e sobre seus habitantes.” (2Rs 22,16).

Não há contradição entre Jeremias e Hulda. Há complementaridade. Jeremias anuncia os males que virão; Hulda os confirma. Jeremias proclama o juízo como advertência; Hulda o interpreta à luz da história concreta. Ambos falam do mesmo Deus, da mesma Aliança ferida, da mesma infidelidade coletiva. Mas Hulda acrescenta algo essencial: o cuidado. Sua profecia não se encerra no juízo. Ela reconhece o gesto de escuta e conversão: “Porquanto teu coração se comoveu e te humilhaste diante do Senhor” (2Rs 22,19). E anuncia que a misericórdia ainda encontra espaço na história: “Por isso eu o reunirei a seus antepassados. Você vai ser enterrado em paz na sua sepultura” (2Rs 22,20).

Jeremias também anuncia o resgate, ainda que entre lágrimas. Ele proclama que Deus não rompe definitivamente a Aliança: “Conheço meus projetos sobre vocês: são projetos de felicidade e não de sofrimento, para dar-lhes um futuro e uma esperança.” (Jr 29,11). E fala de uma nova possibilidade de fidelidade: “Colocarei minha lei em seu peito e a escreverei em seu coração; eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. ” (Jr 31,33).

Ambos anunciam o resgate. Ambos são intérpretes da história. Ambos são necessários. Contudo, a memória oficial escolheu preservar apenas um deles de forma extensa. Jeremias tem um livro. Hulda aparece uma única vez. A diferença não está na autoridade da Palavra, mas na forma como a tradição decidiu lembrar — ou esquecer.

O silenciamento de Hulda não é teológico. É histórico! Sua voz foi suficiente para reformar uma nação, mas não para ocupar páginas. Ainda assim, o texto bíblico a mantém como sinal de que Deus fala através das mulheres, das margens e do cuidado. Mesmo quando a história reduz sua presença, Deus não reduz sua autoridade. Hulda aparece uma vez, mas sua palavra sustenta toda uma reforma. Jeremias chora longamente; Hulda fala brevemente. Ambos revelam que Deus continua chamando seu povo à fidelidade a partir da história. Esse apagamento não é acidental. Ele revela o funcionamento do patriarcado bíblico e da tradição que se construiu a partir dele. A profecia feminina é aceita quando necessária, mas não é preservada como memória estruturante. Hulda é indispensável para que a reforma sacerdotal aconteça, mas não permanece no centro da narrativa.

Se lembrarmos de nosso último texto [1], veremos a mesma situação com a menina sem nome de 2Reis 5. Escravizada, estrangeira e socialmente invisível, ela inaugura o caminho da cura de Naamã. Sem sua palavra, não há encontro com Eliseu, não há mergulho no Jordão, não há restauração. Ainda assim, ela desaparece do texto assim que cumpre sua função. Não sabemos seu nome, seu destino ou sua história.

A Bíblia revela, assim, um padrão: as mulheres são necessárias para que a história da salvação avance, mas, muitas vezes, são silenciadas. Elas inauguram processos de vida, mas não recebem espaço na memória oficial. O patriarcado não impede que falem; ele permite, mas que falem somente o suficiente para que a história siga sem elas.

Enquanto o Templo representa o sacerdócio e a institucionalização da fé, a profecia — especialmente quando exercida por mulheres — rompe essas estruturas. É profundamente revelador que a tradição sacerdotal tenha precisado da palavra de uma mulher para ser legitimada. Deus não se limita às instituições. Quando estas falham, Ele chama a partir das margens.

Hulda e a menina sem nome revelam um Deus que escolhe a vida, que cuida, que escuta os pequenos e que confia às mulheres a mediação da salvação. O silêncio posterior dessas personagens não indica ausência divina, mas denuncia uma tradição que escolheu quem seria lembrado e quem seria esquecido.

Ler essas mulheres juntas é um ato teológico e profético. É recuperar vozes apagadas e reconhecer que Deus continua chamando a partir da história — inclusive a partir das histórias que tentaram nos ensinar a não escutar. Deus nos chama pela palavra das mulheres.


Deus da vida,
que falas a partir das margens e confias tua palavra aos pequenos,
ensina-nos a escutar as vozes que a história tentou calar.
Dá-nos um coração sensível como o de Josias,
ouvidos atentos como os de Hulda,
e coragem para reconhecer a verdade
mesmo quando ela vem de quem o mundo insiste em silenciar.
Liberta-nos de uma fé que oprime
e conduz-nos à Lei que gera vida.
Que escolhamos a fidelidade,
que escolhamos a justiça,
que escolhamos a vida.
Amém.


[1] https://eclesialidade.org/2026/02/08/deus-nos-chama-a-partir-da-historia-parte-xvi-mesmo-no-cativeiro-deus-grita-e-cura/


Karina Moretié bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑