“Entre o Resplandecer e a Cruz, entre o Tabor e o Calvário” | Reflexão sobre Mt 17,1-9

Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos!
(Salmo 32/33)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A liturgia do 2º Domingo da Quaresma (Ano A) nos apresenta o Evangelho de  Mt 17,1-9. Trata-se do relado mateano sobre a Transfiguração. À guisa de introdução, faz-se imperativo informar que relato da Transfiguração está presente nos três Evangelhos Sinóticos, a saber: Mateus 17,1-9; Marcos 9,2-8 e Lucas 9,28-36. Vejamos o texto em Mateus:

“Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias”. Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: ‘Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!’ Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse: ‘Levantai-vos, e não tenhais medo’. Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: ‘Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos'” (Mt 17,1-9).

O relato de Marcos é muito semelhante ao mateano. Em Lucas, há alguns elementos novos: enquanto Jesus conversa com Moisés e Elias, os discípulos dormiam. Entretanto, relata em seguida que estes discípulos testemunham Jesus conversando com estes célebres personagens do Primeiro Testamento. Além disso, os dois personagens, na conversa com Jesus, falam de seu êxodo que se consumaria em Jerusalém. Parece, portanto, que em Lucas não importa tanto quem são as duas pessoas que conversam com Jesus. O texto lucano deixa como aspecto fundamental a eminência do Mistério de sua Paixão que está por vir. Em Mateus o acento é colocado sobre a figura de Jesus como o novo Moisés, oferecendo a Nova Lei, sobre o Tabor. Mateus aponta para a ressignificação da Lei, dialogando o Tabor com o Sinai. Em Marcos, podemos pontuar – como sua originalidade e como mensagem principal – a revelação messiânica e divina de Jesus, confirmando aquilo que o autor deste Evangelho já tinha dito no episódio do batismo. Tanto o é que, também na Transfiguração, no relato marcano, aparece uma voz que diz: Este è o meu filho amado; ouvi-o (Mc 9,7), tal qual quando do relato do batismo (cf. Mc 1,11). Em Lucas, a voz que identifica Jesus como Filho do Altíssimo também se manifesta.

Esta é a síntese teológica dos três relatos evangélicos que contam o evento da Transfiguração. É preciso que a tenhamos sempre em perspectiva.

Muito já se questionou sobre a veracidade do relado da Transfiguração. Não temos porque duvidar que o fato realmente tenha acontecido. Podemos, ao bem de uma hermenêutica mais apurada, entender os detalhes como recursos estilísticos para dar maior efeito à catequese destas perícopes bíblicas. Tal artifício pode ter sido usado para reforçar a mensagem teológica que cada evangelho quer transmitir. Não podemos dar uma proposição meramente mitológica ou histórica ao relato da Transfiguração. Não se trata de um conto popular. Há que se crer no episódio como real. Porém, a questão vai além de mito ou realidade.

Ainda vale pontuar que os evangelhos são históricos, enquanto falam de um Jesus histórico, que viveu e cujas ações foram contadas e recontadas, até que os evangelistas transcreveram-nas como legado às Igrejas. Outrossim, vale lembrar que os evangelhos não são apenas história. Vão além disso: há que se considerar a teologia, a catequese, a mistagogia e o testemunho das primeiras comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus. Cada evangelista tem uma mensagem precisa, que é destinada a uma comunidade específica, e tem em mente um público determinado. Muitos detalhes históricos são relegados a segundo plano, pois – em si – os evangelhos não são mera historiografia, ou mesmo relato biográfico ou jornalístico, no sentido atual do conceito.

Ainda vale sublinhar certa particularidade sobre o relato do qual nos dedicamos em refletir hoje: os discípulos que testemunharam a Transfiguração, reconheceram Elias e Moisés. Fato curioso, pois estes personagens do Primeiro Testamento viveram muitos anos antes de Jesus. Daí podemos nos lembrar que tais homens e suas histórias faziam parte do imaginário coletivo dos judeus, dada a importância deles como referência à Israel. Assim, traziam uma íntima relação com estas figuras célebres do Tempo da Promessa, a ponto de identificá-las em colóquio com o Messias. E mais: não devemos nos concentrar nestas questões minoritárias ou curiosas dos relatos bíblicos. Embora seja possível matéria de estudo, não são determinantes para entender a mensagem que o autor sagrado deseja transmitir.

Aqui convido o leitor para ir mais adiante no texto e refletir sobre o diálogo de Jesus e Pedro. Vejamos!

A proposta de Pedro é uma tentativa de prolongar o momento. Podemos entender que o apóstolo quisesse se adiantar, passando à gloria, sem antes experimentar o sofrimento e a morte que o Mestre experimentaria. Esta é muitas vezes a tentação de nossas comunidades. Viver uma religião triunfalista, onde se apega ao belo e se repele o sofrimento. Cristãos e cristãs que querem uma teologia desligada da realidade, cujo objetivo é exaltar a majestade, sem entender que o Rei dos Reis, escolheu estar entre os pobres, partilhar de seus sofrimentos e ressignificar suas vidas. A experiência resplandecente da Transfiguração não pode desligar-se da Paixão e Morte, do sacrifício de Cruz. Da mesma forma, a vivência do discipulado de Jesus não pode centralizar-se na busca pela glória celeste, por espiritualidades angélicas, liturgias suntuosas; sem antes perceber e participar dos desafios da vida no cotidiano. O Tabor não pode divorciar-se do Calvário. A fé não pode alienar-se da vida.

O ponto mais difícil de compreender e aceitar na Boa Notícia do Evangelho é que o triunfo acontece através do aparente fracasso. Em Jesus, a Vida triunfa através da aparente vitória da Morte. A ressignificação da vida humana por Jesus, é antecedida pelo escândalo da Cruz. Nós gostamos de coisas claras e lógicas. E ficamos atrapalhados com tudo que se nos revela o Mistério Pascal. É que a lógica de Deus é diferente da nossa. Ele vê em plenitude, nós enxergamos por fragmentos. Resta-nos – portanto – crer, reconhecendo nosso limitado discernimento.

Jesus é o Messias esperado, mas um Messias que vai realizar a vontade do Pai através do aparente fracasso e derrota. Será julgado, condenado e morto (cf. Mt 16,21). No relato da Transfiguração, os discípulos de Jesus – e nós com eles – somos chamados a entender tudo que se realizará. É pelo Mistério Pascal que a messianidade de Jesus atinge sua plenitude. Em Jesus a criação de Deus chega à sua realização final. Ele é o modelo da humanidade realizada.

É interessante perceber que o relato mateano sobre a Transfiguração dialoga como antônimo de um texto anterior. No domingo passado vimos que Jesus foi tentado no deserto (cf. Mt 4,1-11). Em Mt 4,8-10 Jesus foi levado para um lugar alto e recusa a proposta do Diabo na última tentação: dominar o mundo através da riqueza e do poder. Em Mt 17,1-9 ele está mais uma vez em um lugar alto, um monte, acompanhado de seus discípulos mais próximos. É a revelação do destino final de todos nós, se nos comprometermos com o projeto de Deus, profundamente desejado desde o Primeiro Testamento, e finalmente revelado e realizado em Jesus e através dele. Ao testemunhar a Transfiguração, os discípulos têm um antegozo do que está por vir, quando a Justiça se fizer em plenitude e o Reino de Deus se tornar realidade plena. Isso pode gerar deslumbre, fazer-nos confundir e até fraquejar, como vimos quando Pedro desejou ficar na glória, sem antes experimentar a Cruz. Ao presenciar a Transfiguração, cada discípulo e discípula de Jesus deve se comprometer com a realização do Projeto do Reino de Deus, anunciando o Evangelho da Vida e enfrentando todos os poderes de morte. A Transfiguração traz em si uma realidade inalienável: não há glória possível sem antes se passar pela Cruz (cf. Lc 24,26). Não podemos viver plenamente a Boa Notícia do Evangelho, sem antes construir o Reino de Deus aqui e agora. E esta construção se dá às custas de sangue e lágrimas.

Mais do que questionar se o relato da Transfiguração é um fato, devemos entender que os narrativas nos evangelhos sobre o evento inserem este relato em dois tópicos fundamentais à teologia: o Sacrifício Soteriológico de Jesus e o discipulado da Igreja. O caminho catequético prepara os discípulos como escolhidos e enviados (ἀποστόλοι) para formar novos discípulos e discípulas. Sua Paixão, Morte e Ressurreição, ressignificam a vida humana, como novo êxodo para a Libertação definitiva. Jesus, transfigurado diante dos discípulos, é uma degustação do que está por vir: o Reino de Deus. Considerando isso, Mt 17,1-9 transcende o conceito de história ou legenda. É mistagogia!

Neste sentido, quando lemos os relatos sobre a vida de Jesus nos evangelhos, não podemos absolutamente nos fixar somente nas questões históricas. Faz-se necessário transcender aos fatos e desvelar a mensagem escondida em cada narrativa. Fazer uma experiência mistagógica do texto bíblico, da Palavra Revelada! É na observação de pequenos detalhes de uma receita que um alimento se faz delicioso ao paladar.


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