Amar os animais é uma espécie de ensaio geral para nos amarmos uns aos outros
Gente, bicho – Carlos Drummond de Andrade
Quando estou brincando com minha gata, quem sabe se ela se diverte mais brincando comigo do que eu brincando com ela?
Montaigne – Apologia de Raymond Sebond
Por Bruno Pettersen
No início de 2026, boa parte do Brasil ficou chocada com a tortura e o assassinato do cão Orelha em uma praia de Florianópolis. O caso é de particular atenção porque está sendo investigada a possibilidade de que quatro menores de idade tenham conduzido a tortura e a morte do cachorro. Essa situação gerou uma enorme comoção, com manifestações e passeatas em diversas cidades do país contra a violência dirigida aos animais. O que mais impressiona é o nível de violência envolvido nesse caso. Ainda não há indicação definitiva de quem são os culpados, mas, a partir da morte do cão Orelha, eu gostaria de prestar uma homenagem a ele por meio de uma reflexão filosófica, retomando algumas histórias e algumas das hipóteses sobre os animais que aparecem ao longo da história da filosofia.
Meu primeiro contato com o tema dos animais na filosofia ocorreu por meio de David Hume, em sua Investigação acerca do entendimento humano, especialmente na Seção IX, intitulada “Dos Animais”. Nessa seção, Hume apresenta um argumento que foi o primeiro argumento filosófico com o qual tive contato direto sobre esse tema. Não é o primeiro argumento da história da filosofia, nem o mais recente, mas foi o primeiro que me marcou filosoficamente. O que Hume mostra é que a diferença entre os seres humanos e os animais não humanos é uma diferença de grau, e não uma diferença de natureza.
É importante notar que Hume escreve antes da teoria darwinista, que só será publicada mais de um século depois. Por isso, certamente consideramos Hume como um precursor de uma visão naturalista da mente. O que ele apresenta é a ideia de que não há nenhuma diferença qualitativa absoluta entre os seres humanos e os animais. Não há nada no ser humano que, em algum nível, também não esteja presente nos animais. Hume discute inclusive a racionalidade dos animais, afirmando que não devemos dizer que a racionalidade animal é idêntica à humana, mas que ela compartilha muitos dos mesmos princípios. Os animais aprendem com a experiência, formam expectativas e organizam seu comportamento com base em hábitos, exatamente como nós fazemos. Um cachorro, por exemplo, aprende que certos eventos são seguidos de outros e passa a antecipá-los. Esse é exatamente o mesmo princípio que fundamenta o conhecimento empírico humano. A diferença, portanto, não é de natureza, mas apenas de grau.
Embora meu primeiro contato com esse tema tenha ocorrido com Hume, é importante dizer que a presença dos animais na filosofia é muito mais antiga e está presente desde o início da tradição filosófica. Um dos casos mais conhecidos é o de Diógenes de Sínope, o filósofo cínico. A própria palavra “cínico” vem do grego kynikos, que significa “semelhante a um cão”. No caso de Diógenes, essa associação não é negativa. Ao contrário, ele valorizava profundamente o modo de vida dos cães. Para ele, os cães viviam de uma maneira mais próxima da natureza do que os seres humanos. Eles não estavam presos às convenções sociais, não buscavam riqueza, não buscavam reconhecimento social, não estavam submetidos a normas artificiais. Nesse sentido, o cão representava, para Diógenes, um modelo de vida mais livre e mais autêntico do que a vida humana comum.
Outro caso extremamente relevante, ainda na filosofia antiga, é o famoso caso do cão de Crisipo, um filósofo estoico. Esse é um exemplo particularmente interessante porque envolve diretamente a questão da racionalidade animal. A história é a seguinte: um cachorro, ao perseguir uma presa, chega a uma bifurcação com três caminhos possíveis. Ele cheira o primeiro caminho e percebe que a presa não passou por ali. Cheira o segundo caminho e chega à mesma conclusão. Sem cheirar o terceiro caminho, ele imediatamente segue por ele. O que está implícito aqui é uma inferência lógica. O cachorro parece raciocinar da seguinte maneira: se a presa não está no primeiro caminho e não está no segundo, então ela deve estar no terceiro. Portanto, ele segue diretamente por esse caminho. Esse exemplo foi amplamente utilizado pelos filósofos antigos como um caso de racionalidade animal.
Esse exemplo aparece não apenas na tradição estoica, mas também na tradição cética, especialmente em Sexto Empírico. Os céticos utilizam exemplos como esse para mostrar que a diferença entre a razão humana e a razão animal talvez não seja tão radical quanto muitas vezes se supõe. Em vários argumentos céticos, os animais aparecem como um ponto de comparação com os seres humanos, como é o caso de alguns dos chamados “Modos de Enesidemo”. Alguns animais possuem sentidos mais aguçados do que os nossos e percebem aspectos da realidade que nós não percebemos. Isso coloca em questão a ideia de que a percepção humana seria o padrão absoluto da realidade.
Já na modernidade, além de Hume, há um caso extremamente importante em Michel de Montaigne, especialmente em seu ensaio “Apologia de Raymond Sebond”. Montaigne retoma muitos argumentos da tradição cética e utiliza os animais como um meio de questionar a suposta superioridade humana. Ele apresenta vários exemplos de comportamento animal que demonstram inteligência, aprendizado e adaptação. Os animais, nesse contexto, aparecem como um espelho que reflete os limites da própria razão humana. Eles mostram que aquilo que muitas vezes consideramos exclusivamente humano talvez não seja tão exclusivo assim.
No entanto, é fundamental mencionar também o caso de René Descartes, que apresenta uma posição radicalmente diferente. Para Descartes, os animais não possuem consciência e, portanto, não possuem pensamento. Segundo sua teoria dualista, o ser humano é composto de duas substâncias: o corpo, que é material, e a mente, que é uma substância pensante, a res cogitans. Os animais, por sua vez, seriam apenas corpo, apenas res extensa. Isso significa que, para Descartes, os animais não pensam e não possuem consciência. Seu comportamento é apenas o resultado de processos mecânicos, semelhantes ao funcionamento de uma máquina. Mesmo quando um cachorro parece agir de maneira inteligente, isso seria apenas um mecanismo corporal, e não um pensamento verdadeiro.
Essa posição cartesiana estabelece uma separação radical entre seres humanos e animais. Mas é justamente aqui que a posição de Hume se torna ainda mais interessante. Porque, enquanto Descartes afirma que os animais não possuem mente, Hume questiona a própria ideia de uma mente como uma substância separada. Para Hume, não há uma res cogitans nem mesmo nos seres humanos. O que existe são apenas percepções, hábitos e associações. Nesse sentido, a diferença entre humanos e animais se torna ainda menor. A racionalidade humana não é algo completamente diferente da racionalidade animal, mas apenas uma continuação mais complexa dos mesmos processos básicos. Nesse sentido, a diferença entre humanos e animais se torna muito menos radical. O animal deixa de ser compreendido como um instrumento e passa a ser compreendido como um ser que participa, ainda que em grau distinto, dos mesmos processos que constituem a nossa própria vida mental. Isso abre espaço para uma compreensão muito mais positiva dos animais.
Arthur Schopenhauer é outro caso interessante de relação com os animais. Schopenhauer teve vários cachorros ao longo da vida, e eles ocupavam um lugar importante em sua existência cotidiana. Um de seus poodles mais conhecidos chamava-se Atman, um termo central da filosofia indiana, que designa o princípio fundamental da realidade e que teve profunda influência sobre o pensamento de Schopenhauer. Essa escolha não é acidental. Ela reflete a compreensão schopenhaueriana de que há uma continuidade profunda entre todos os seres vivos. Schopenhauer via nos animais, e especialmente nos cães, uma manifestação da mesma realidade fundamental que se expressa nos seres humanos.
Na filosofia contemporânea, essa discussão assume novas formas, mas continua profundamente influente. Um dos casos mais conhecidos é o de Peter Singer, especialmente em seu livro Libertação Animal, publicado em 1975. Nesse livro, Singer apresenta uma defesa filosófica sistemática da ideia de que os animais não devem ser tratados como meros objetos ou instrumentos. Sua posição parte de uma concepção segundo a qual o que importa moralmente não é a espécie à qual um ser pertence, mas sua capacidade de sofrer e de sentir prazer. Nesse sentido, sua posição se aproxima, em vários aspectos, da tradição inaugurada por Hume, ao reconhecer que os animais participam da mesma estrutura fundamental de sensibilidade que caracteriza os seres humanos. A partir disso, Singer desenvolve uma crítica à utilização de animais como recursos, especialmente no contexto da alimentação, e apresenta uma defesa filosófica do vegetarianismo e do veganismo. Trata-se de uma das contribuições mais influentes da ética contemporânea e de um dos pilares do que hoje se chama ética dos direitos dos animais.
Pessoalmente, sou um admirador da filosofia de Hume e acredito que sua posição oferece uma das compreensões mais profundas da relação entre humanos e animais. Para Hume, os sentimentos, ou as paixões, como ele as chama, são o fundamento da vida mental. E talvez seja justamente nesse ponto que a proximidade entre humanos e animais se torna mais evidente. Embora Hume não afirme explicitamente que os animais possuem exatamente o mesmo tipo de vida emocional que nós, sua filosofia abre espaço para reconhecer que eles participam da mesma estrutura afetiva fundamental. Um cachorro sente medo, sente alegria, sente dor, sente apego. E é precisamente essa capacidade de sentir que estabelece uma continuidade entre eles e nós e por isso o caso do cão Orelha é tão doloroso.
Nesse sentido, a crueldade contra um animal não é apenas um ato isolado dirigido a um “ser inferior”, mas a manifestação de uma forma de insensibilidade que revela algo profundo sobre a própria condição humana. Não reconhecer o animal como um ser completo, como um ser capaz de sentir e de sofrer, é resultado de uma visão de mundo que separa artificialmente o humano do restante da natureza. É por essa razão que devemos levar a sério a necessidade de proteger os animais e de repensar nossa relação com eles, inclusive em questões como o consumo de carne e o reconhecimento de seus direitos.
A presença dos animais na história da filosofia não é um detalhe marginal. Ela é parte de um esforço contínuo de compreender o que somos. Ao olhar para os cães e os gatos, os filósofos não estavam apenas tentando compreender os animais, mas também tentando compreender os próprios seres humanos. Nesse sentido, o sofrimento do cão Orelha não é apenas o sofrimento de um animal isolado. É um sofrimento que podemos compreender com clareza, porque ele pertence ao mesmo campo de experiência que o nosso. E é justamente por isso que sua morte nos choca. Ela não revela apenas a vulnerabilidade dos animais, mas também um defeito profundo na própria condição humana.
Bruno Pettersen é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
Colaborou: Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE – Belo Horizonte, MG
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