O Encontro: Jesus e a Mulher, Judeus e Samaritanos, Excluídos e nós! | Uma Reflexão sobre Jo 4,5-42

“Senhor, dá-me dessa água”
(Jo 4,15)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Estamos no 3º Domingo da Quaresma. Seguimos nossa jornada Bíblico-litúrgica rumo à Páscoa. É preciso, neste tempo, aprofundar nossa experiência com Jesus para – com ele – ressignificar nossas vidas. Neste domingo, foquemos nossos pensamentos e ações na dinâmica do Encontro com Jesus. Em razão disso, a Liturgia nos coloca junto a Jesus e uma mulher, na partilha e no encontro. Não se trata de uma mulher comum. Trata-se de alguém que foi marcado pela discriminação e exclusão. Não só por questões de gênero. Também carregava sobre suas costas o peso da marginalização social e étnica. Esta mulher era uma Samaritana.

Precisamos voltar ao passado. Ao tempo de Jesus e aos muitos contextos que a este tempo se incrusta. Antes de entrar no texto do encontro de Jesus com a Samaritana, convém fazer breve contextualização da posição das mulheres no tempo de Jesus, bem como da relação dele com elas. Infelizmente, as fontes existentes acerca dessa relação, em grande parte, são escritas por homens; daí a dificuldade de uma percepção da visão feminina. É, no entanto, possível observar Jesus sempre rodeado de mulheres: admiradoras, seguidoras, mantenedoras, enfermas e discípulas. Todavia, é inegável que a situação da mulher no tempo de Jesus era de exclusão social e, muitas vezes, de indigência. A narrativa da Criação conhecida pelos judeus já punha a mulher em condição servil e ainda lhe atribuía a culpa pelo mal ter entrado no mundo, pois se entendia que, sem a desobediência de Eva, o homem não teria pecado. Consequentemente, na cultura judaica, a mulher era vista como um perigo. Além disso, era entendida como propriedade de um homem e sua primordial função era procriar – de preferência, filhos homens.

Na sociedade judaica era imperativo que a mulher conservasse uma posição de subserviência. Para evitar problemas, era conveniente que ficassem em casa, para “não dar o que falar” e, assim, não macular a honra do seu senhor e de sua família. Em casa as mulheres se ocupavam dos afazeres domésticos: moer o trigo, costurar, fazer comida, tecer e fiar e servir a seus homens. Na esfera religiosa, sua participação era limitada, já que era considerada impura por menstruar. Portanto, não podia entrar no Templo, nem ser sacerdotisa. Há de se acrescentar que não deviam, nem podiam se pronunciar publicamente, e os véus que cobriam seus rostos exprimiam o fechamento imposto à própria expressão feminina. Não obstante os muitos opróbrios, pode-se imaginar que, entre as mulheres, também havia uma esperança de libertação com a vinda do Messias.

De repente Jesus – o filho do carpinteiro – começa a se pronunciar na Galileia. Sua mensagem incutia esperança. Um jeito novo de ver a sociedade e a religião. Uma proximidade entre o humano e o sagrado que provocava a todos e todas. O temido Deus Altíssimo se fez reconhecer como Abbá, o amoroso Paizinho do Céu nas palavras do Pregador Galileu. E este pregador dizia ser aquele sobre o qual os profetas anunciaram. Dizia ser a promessa que se cumpria. Portanto, Jesus era o Messias esperado. E muitos acreditaram nele. Entre seus discípulos, haviam mulheres. Pela vida itinerante que levavam, provavelmente deram muito o que falar. Jesus é indiferente ao código de pureza e de discriminação infligido às mulheres. Entendia-as como iguais, portanto, seguidoras no caminho da nova Comunidade.

No cenário do Evangelho de João que estamos a refletir (4,5-42), temos uma mulher e – como adiantado acima – trata-se de uma Samaritana. O povo samaritano separou-se definitivamente da comunidade judaica no final do século V, 445 a.C. Todavia, trazia consigo a sabedoria e referência ancestral do Pentateuco. A população da Samaria era composta de descendentes de israelitas e dos colonos importados pelos assírios. Com essa mescla de nações, podem-se pressupor os diversos cultos existentes na região. O que se conclui também como epígrafe a séria discriminação, dada a abordagem purista-nacionalista que foi imposta pelo judaísmo normativo desde a volta do Exílio da Babilônia. Vejamos isso mais a fundo.

Desde 722 a.C., os Samaritanos sofriam sob o peso da violência e tirania. A Assíria havia destruído todo o Reino do Norte (Israel) e disseminado na Samaria e redondezas grupos de pessoas estrangeiras para que se impedisse qualquer resistência ao opressor. Depois vieram os babilônicos que só não impuseram mais sofrimentos aos Samaritanos, porque pouco se tinha do brio e da identidade da Israel de antes. Era um coletivo de pessoas derrotadas e marginalizadas. Feridas no direito e na identidade. Relegados à ideia de gente impura, misturada aos pagãos e, como eles, excluídos.

Com o fim do Exílio da Babilônia e o retorno dos judaítas do Reino do Sul, também nos corações do povo do Norte se fez brotar uma esperança. Os Samaritanos, tentando aproximarem-se dos judeus quando da volta do Exílio da Babilônia, foram veementemente rejeitados. Como revanche, tentaram impedir a reconstrução do Templo e dos muros de Jerusalém. Além disso, construíram um Templo próprio em Garazim, minando, de certa forma, a centralidade do Templo de Jerusalém e a exclusividade da cobrança de impostos que ali se realizava. Após a rejeição de Judá, os samaritanos desejam seguir suas próprias vidas. Com isso, afrontam o Templo e seu poder, reinaugurado sob os ideais de Neemias e Esdras. Um pouco antes de Jesus, no fim do século II a.C. (128 ou 111 a.C.) o Tempo de Garazim foi destruído por líderes judeus, agravando ainda mais as desavenças entre os dois povos. Aqui se configura a rixa histórica entre Judeus e Samaritanos. De um lado o sentimento nacionalista e teocrático dos judeus, do outro, a vontade de se reconstruir a história perdida desde a derrota de Israel para a Assíria. Essas tensões cresceram com o passar do tempo, tornando os Samaritanos uma etnia cada vez mais excluída. Ser chamado de samaritano era uma ofensa. Neste contexto, no relato joanino, a Samaritana não tem nome, pois simboliza todo o seu povo. Marginalizado e excluído.

Diante de tanto sofrimento, o texto joanino nos mostra que era preciso a intervenção de Jesus nesta chaga social. A expressão “Jesus tinha que atravessar a Samaria” (Jo 4,4), designa a necessidade do encontro com a Samaritana, já que Jesus poderia ter ido por outro caminho, ou seja, não necessariamente deveria passar por ali. Nota-se, portanto, a intencionalidade de Jesus e a vontade do Pai em resgatar aquele povo. Na sequência da perícope, vê-se Jesus afirmando: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4,34). Portanto, fazia parte do programa messiânico Jesus estar ali. À beira daquele poço Jacó havia encontrado Raquel, a mulher de sua vida; a Samaritana encontra-se com o Senhor, aquele que tem a água viva que jorra para a eternidade. Ela, no entanto, por desconhecer Jesus, não entende o seu ensinamento, pensa que Jesus fala apenas de água, tal qual a que abastece o poço. Daí, quando pede que ele lhe dê dessa água, tem apenas interesse em tornar a vida mais fácil. Quer receber a água que Jesus lhe oferece, por uma razão bem pragmática, para não precisar mais tirar água do poço. Em nossas vidas, muitas vezes somos alcançados por tentação semelhante. De uma espiritualidade que não exige mudança, ratificando escolhas e opções egoístas e descomprometidas. Espiritualidade do conforto e do bem-estar. Sem nos provocar a reconstruir nossas histórias e ressignificar nossas vidas.

Aprofundemos um pouco mais nossa reflexão sobre Jo 4,5-42. A Samaritana é uma pessoa excluída: primeiramente, por viver em uma sociedade onde a mulher não tinha voz, nem vez; depois, porque pertence a um povo considerado pelos judeus como heterodoxo. Num primeiro momento ela contesta, quase debochando: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou samaritana?” (Jo 4,9). Isso seria culturalmente um escândalo, pois um homem não devia falar em público com nenhuma mulher, neste caso – como agravante – ele era judeu e ela samaritana. Ademais, ela não conhecia Jesus, e a fama dele não tinha chegado às terras da Samaria. Assim, ela o vê com o preconceito que fora construído historicamente. Sua visão está sob o véu do “pré-juízo”, que a faz ter uma compreensão distorcida da realidade.

À Samaritana também é anunciada a Boa Notícia. Todos os povos são alcançados pelo Messias, sua Palavra e Ação. Nele o Pai abraça a todos e todas, por isso Jesus vai tecendo sua catequese, falando de uma água superior àquela que ela veio buscar. Alude ao Espírito, fonte permanente de vida e de vida eterna. Em resposta à alvissareira novidade, a Samaritana clama: “Senhor, dá-me dessa água” (Jo 4,15). Os papéis se invertem. Até então, Jesus estava com sede, mas ouvi-lo suscita na Samaritana uma sede mais profunda. Afinal, também os samaritanos esperavam um Messias, pois eram conhecedores das promessas dos profetas.

O encontro chega ao ápice. O discurso passa do pedido de um mero saciar-se natural para a sede mais profunda, a sede existencial. Idolatria ou vários amores, o que importa nesse encontro é que Jesus a conhece e sabe da causa de sua sede interior. Poderíamos aqui imaginar as ansiedades, as frustrações, os afetos e os desafetos que a Samaritana trazia em seu viver. É tão grande a sede expressa na inquietude dessas palavras, nos olhos, no corpo inteiro, que leva Jesus a se revelar: “Este Messias sou eu, que falo contigo” (Jo 4,25). Ele se revela: estava ali – diante dela – a Água Viva! Jesus faz com que ela se depare com sua verdadeira sede, sede do Deus verdadeiro. Então, ela corre a partilhar com todos a sua experiência, esquecendo-se da sua condição de excluída. “’Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não seria ele o Cristo?’ Eles saíram da cidade e foram ao seu encontro” (Jo 4,29-30). O anúncio que ela faz não é impositivo; põe a questão para que eles possam fazer o caminho que ela acabara de percorrer. Os samaritanos vieram e creram. Chegaram a dizer que creram não por causa da mulher samaritana. Eles encontraram Jesus, porém a experiência dela foi única e inesquecível. Mais que crer, ela se deixou olhar e, no mais profundo desse contato, deixou-se salvar. A Samaritana fez sua Experiência de Jesus.

Em nossas Comunidades Eclesiais Jo 4,5-42 deve tocar de forma especial. Se cada um e cada uma de nós realmente experimentássemos a “doçura” do caminho feito com o Senhor, incendiando-nos de amor, transformaríamos os ambientes em que estamos inseridos. E assim manifestaríamos Cristo aos outros, especialmente pelo testemunho de sua vida resplandecente de fé, esperança e caridade.

A postura de Jesus junto à Samaritana nos aponta a necessidade de nos abrirmos aos outros, levando em conta suas fragilidades, suas histórias, suas feridas abertas. A fé nunca pode ser imposta, pois o próprio Jesus – fonte e cume de nossa fé – se fez dinâmica e encontro. Nossa evangelização, portanto, deve ser cada vez mais um ato de acolhida – sem fronteiras e exclusões – a todos e todas. Ademais, não podemos deixar de sublinhar o caminho antropológico feito por Jesus ao anunciar a Boa Nova à Samaritana. Ele a conheceu enquanto pessoa e enquanto povo. Em nossos dias, muitos são aqueles e aquelas que desejam normatizar a fé e a vida, sem levar em consideração a realidade e a cultura das pessoas a quem se evangeliza. Este erro não foi cometido por Jesus e não podemos cometê-lo, enquanto seguidores e seguidoras dele. Para bem nos iluminar neste caminho, temos as diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, que nos são oferecidas pela CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. No seguimento de Jesus Cristo e em comunhão fraterna com toda a Igreja, nosso sonho é viver e “Evangelizar, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino definitivo”. 


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