Por Karina Moreti
O Dia Internacional da Mulher não nasceu de uma celebração, mas de uma memória de lutas. Ele recorda mulheres trabalhadoras que, no início do século XX, levantaram suas vozes contra jornadas desumanas, salários injustos e condições indignas de trabalho. Muitas perderam a própria vida reivindicando aquilo que jamais deveria ser negado: dignidade, respeito e reconhecimento. Por isso, este dia não é apenas comemorativo. É um dia de consciência. É memória das feridas ainda abertas da humanidade.
À luz da fé, essa luta ecoa algo mais antigo. As Sagradas Escrituras revelam que, desde o princípio, Deus nunca desejou relações de dominação, mas de comunhão. Quando criou a humanidade, Deus fez homem e mulher à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,27). Ambos receberam a mesma missão: cuidar da vida e guardar a Criação (cf. Gn 1,28). A desigualdade não nasce do coração de Deus, mas da ruptura provocada pelo pecado.
Eva, a primeira mulher, aparece no início da história não para ser submissa, mas para ser parceira. Criada do lado do homem (cf. Gn 2,21-23), ela expressa a igualdade originária querida por Deus. Mesmo após a queda, quando a dor entra na história humana, Deus não retira dela a promessa. Eva torna-se “mãe de todos os viventes” (Gn 3,20), sinal de que a vida sempre será mais forte que o fracasso.
A história da salvação continua passando pelo corpo e pela coragem das mulheres. Ao conhecermos Sara, a grande matriarca esposa de Abraão, percebemos que ela é marcada pela esterilidade e pela espera. Ela representa todas as mulheres que carregam promessas aparentemente impossíveis. Quando Deus anuncia que dela nascerá um povo (cf. Gn 17,16), revela que a esperança divina floresce justamente onde o mundo declara o fim. Sara gera Isaac (cf. Gn 21,1-3), mostrando que Deus transforma impossibilidades em futuro.
O tempo passa. O povo de Israel vive tempos de medo e opressão. Neste momento Deus levanta Débora (cf. Jz 4,4-5). Profetisa e juíza, ela conduz o povo à libertação. Em uma sociedade estruturada pelo poder masculino, Deus escolhe uma mulher para discernir, governar e conduzir à paz. A Palavra de Deus rompe estruturas quando estas impedem a vida.
Séculos depois, no tempo da ocupação persa, surge Ester. Sem exército, sem poder político próprio, ela arrisca a própria existência para salvar seu povo: “Se for preciso morrer, morrerei” (Est 4,16). Sua coragem revela que Deus age através daqueles que transformam privilégios em serviço e posição em responsabilidade.
Não obstante sinais alvissareiros, as Escrituras também conservam memórias dolorosas. Jezabel (cf. 1Rs 21,25), Dalila (cf. Jz 16,4-21) e Herodíades (cf. Mt 14,1-12) recordam que o poder, quando separado da justiça, torna-se instrumento de destruição. Elas utilizam influência, sedução e proximidade com o poder não para promover a vida, mas para dominar, manipular e obter vantagens pessoais. A Bíblia, porém, não apresenta estas mulheres como exceções femininas, mas como advertência universal: homens e mulheres podem afastar-se do projeto de Deus quando permitem que as tentações do poder, do prestígio e da riqueza, ou a busca por segurança pessoal, se tornem absolutos. Hoje, a história repete seus conflitos. Existem mulheres que, diante das estruturas de poder, acabam aceitando relações de submissão por conveniência social, status, proteção econômica ou reconhecimento público. Quando a dignidade é negociada em troca de privilégios, a liberdade interior é silenciosamente perdida. A submissão que nasce do medo, da ambição ou da dependência jamais corresponde ao projeto de Deus. As Escrituras não louvam a submissão que sustenta injustiças, mas exalta a fidelidade que gera vida. Jezabel, Dalila e Herodíades tornam-se, assim, arquétipos críticos para o presente: lembram que a opressão não se mantém apenas pela força dos dominadores, outrossim quando o poder é legitimado por aqueles que dele se beneficiam.
O Evangelho chama à liberdade. Jesus não formou discípulas submissas ao poder, mas mulheres livres, capazes de permanecer de pé junto à Cruz (cf. Jo 19,25) e de anunciar a ressurreição (cf. Jo 20,18). A verdadeira grandeza feminina não está em ocupar espaços de prestígio a qualquer custo, mas em permanecer fiel à verdade, mesmo quando isso implica perda de privilégios. Por isso, a Palavra de Deus continua sendo convite permanente à conversão: não ao silêncio cúmplice, mas à coragem profética; não à submissão interessada, mas à dignidade que nasce da justiça.
Na aurora de um Novo Tempo, Deus volta-se novamente para uma mulher. Maria de Nazaré representa o ponto de virada da história. Seu “sim” — “Faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1,38) — não é passividade, mas coragem radical. Ela aceita gerar esperança em um mundo marcado pela violência imperial e pela exclusão social. Nela, a humanidade aprende novamente a confiar. Se por uma mulher a vida foi ferida, por uma mulher a Salvação entra no mundo. Jesus, o Filho da Virgem de Nazaré, continua essa restauração. Ele conversa com a mulher samaritana (cf. Jo 4,7-26), acolhe mulheres marginalizadas, permite que discípulas o acompanhem (cf. Lc 8,1-3) e confia às mulheres o primeiro anúncio da ressurreição (cf. Jo 20,17-18). Aquelas que eram considerados testemunhas inválidas pela sociedade, tornam-se anunciadoras do maior acontecimento da fé cristã, a ressurreição. O Evangelho restitui voz a quem foi silenciado. Por isso, quando o texto da Carta aos Gálatas afirma: “Não há mais diferença entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo” (Gl 3,28), ela proclama uma verdade profundamente revolucionária: diante de Deus não existe hierarquia de dignidade.
A história bíblica revela um movimento contínuo: Deus chama mulheres quando a vida está ameaçada. Deus levanta mulheres quando o povo perde o rumo. Deus confia às mulheres o anúncio da esperança. Celebrar o Dia Internacional da Mulher, portanto, é também realizar um exame de consciência social e eclesial. Ainda hoje, muitas mulheres enfrentam violência, invisibilidade, sobrecarga e exclusão. Ainda hoje, suas vozes são interrompidas, seus dons subestimados e suas lideranças questionadas. O Deus bíblico, porém, continua chamando. Ele chama mulheres nas famílias, nas comunidades, nas periferias, nas universidades, nas Igrejas e nos espaços de decisão. Ele chama mulheres profetas da vida, guardiãs da esperança e construtoras da justiça. Onde uma mulher defende a vida, Deus está agindo. Onde uma mulher educa para a paz, o Reino cresce. Onde uma mulher resiste à injustiça, a história da salvação continua. A Palavra de Deus exige mais do que admiração pelas mulheres bíblicas; exige conversão das estruturas que ainda produzem exclusão. A fé cristã não permite neutralidade diante da injustiça. Seguir Jesus implica defender a vida onde ela é ameaçada e promover relações baseadas na reciprocidade, no respeito e na corresponsabilidade. Por isso, a promoção da mulher não é uma pauta externa à missão da Igreja, mas parte integrante do anúncio do Reino de Deus. Uma sociedade que marginaliza mulheres empobrece moralmente; uma Igreja que não escuta suas mulheres limita a própria ação do Espírito Santo, que sopra onde quer (cf. Jo 3,8).
O Deus da história continua levantando mulheres profetas — muitas vezes nas periferias existenciais — para recordar à humanidade que autoridade verdadeira é serviço, poder verdadeiro é cuidado e grandeza verdadeira é gerar vida. O compromisso cristão, portanto, não se encerra na celebração deste dia. Ele se prolonga em atitudes concretas: na defesa da dignidade feminina, na promoção da igualdade de oportunidades, na valorização dos dons das mulheres e na construção de comunidades onde homens e mulheres caminhem juntos como cooperadores da Graça.
Por meio de sua Doutrina Social, a Igreja Católica afirma que a dignidade da mulher não é gesto de cortesia social, mas exigência de fé. Toda forma de violência, exclusão, exploração econômica ou silenciamento feminino constitui uma ferida aberta no próprio Corpo de Cristo, pois atinge diretamente a dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus (cf. Gn 1,27). A DSI esclarece ainda que não pode haver verdadeira justiça social enquanto mulheres continuem sofrendo desigualdade salarial, violência doméstica, tráfico humano, invisibilidade política e sobrecarga silenciosa nos espaços familiares e comunitários. Onde a dignidade feminina é negada, o projeto de Deus para a humanidade permanece incompleto.
É preciso que o Dia Internacional da Mulher desperte não apenas homenagens, mas decisões. Não apenas discursos, mas transformação. Não apenas reconhecimento, mas justiça. Trata-se de imperativo, pois toda vez que uma mulher se levanta para defender a vida, ecoa novamente na história a voz do Deus libertador que declara: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo” (cf. Ex 3,7). E onde a dignidade é restaurada, ali o Reino de Deus já começa a florescer.
Neste Dia Internacional da Mulher, a comunidade cristã não apenas presta homenagem às mulheres; ela reconhece nelas sinais vivos da ação de Deus na história. Que a memória das mulheres bíblicas fortaleça as mulheres de hoje. Que nenhuma vocação feminina seja silenciada. E que, como Maria, cada mulher possa viver sua missão com coragem profética, dizendo diariamente: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”(Lc 1,38).
Que o Deus da Vida,
que criou a mulher e o homem à sua imagem e semelhança,
abençoe todas as mulheres que sustentam o mundo com sua coragem silenciosa e sua esperança perseverante.
Que o Deus de Sara fortaleça aquelas que esperam contra toda esperança.
Que o Deus de Débora levante mulheres sábias em tempos de confusão.
Que o Deus de Ester conceda coragem às que arriscam a própria segurança para defender a vida.
Que o Deus de Maria fecunde o coração das mulheres com fé, ternura e resistência.
Que sejam abençoadas as mulheres que cuidam,
as que educam,
as que trabalham,
as que lutam,
as que choram em silêncio
e também aquelas que ainda buscam reencontrar sua própria dignidade.
Que nenhuma mulher se sinta invisível.
Que nenhuma voz feminina seja silenciada.
Que nenhuma forma de violência encontre espaço onde o Evangelho é vivido.
E que o Espírito Santo desperte na Igreja e na sociedade homens e mulheres capazes de caminhar juntos, reconhecendo-se mutuamente como irmãos e irmãs, cooperadores da criação e servidores do Reino.
Ide, mulheres da esperança.
Ide, mulheres da fé.
Ide, mulheres da profecia.
E que vossas vidas anunciem, todos os dias,
que Deus continua fazendo novas todas as coisas.
Em nome do Deus que chama, acompanha e envia.
Amém.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
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