“As Águas de Siloé: o cego, a saliva e o pó da terra, o pecado, a libertação!” | Reflexão sobre Jo 9,1-41

“Eu sou a luz do mundo”
(Jo 9,5)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Estamos no 4º Domingo da Quaresma, chamado: Domingo da Alegria. Muito oportunamente a liturgia nos apresenta a perícope de João que relata a cura de um cego de nascença, em Jo 9,1-41. Para bem entender as nuances do texto joanino que a liturgia nos apresenta, precisamos nos lembrar do que vimos anteriormente em nossas reflexões sobre o Judaísmo Normativo e, mais atentamente, sobre os fariseus.

Os fariseus entram para a história do judaísmo na época de Alexandre Janeu (103-76 a.C.). Todavia, podemos dizer que a origem da espiritualidade dos fariseus remonta ao início do movimento dos hasidim (חסידים) que, quando da reconstrução do Templo (516 a.C.) e da cidade de Jerusalém (445 a.C.), na era pós-exílica, acreditavam que além do Templo era necessário reconstruir uma vida espiritual, capaz de animar as pedras que eram erguidas. No século II a.C. este grupo adquire força determinante, em resposta à ocupação helênica (332–164 a.C.), restaurando a dimensão sagrada da religião, buscam o estudo da Lei, e o esmear-se na oração.

Quanto às atitudes políticas dos fariseus, conseguiam manipular o povo e exerciam autoridade sobre ele. Aparentemente se apresentavam como partido das massas populares e contra a aristocracia, o que não se confirmava em suas práticas. O povo, sem alternativa, os respeitavam, pois possuíam peso político sem exercerem o poder. Tinham características de serem nacionalistas e de odiarem os estrangeiros. Na época de Jesus, eram moderados e aceitavam a política da convivência imposta pelos conquistadores romanos. 

Aprofundando a questão, entendendo os fariseus no tempo de Jesus, precisamos nos atentar para o contexto histórico e a forma com a qual os fariseus aparecem nos evangelhos, sobretudo Mateus e Lucas. Mateus apresenta críticas mais severas aos fariseus. Precisamos ter consciência de que Mateus e sua comunidade escreveram seu texto cerca de 50 anos depois da morte de Cristo, por volta do ano 80. Durante esses anos aconteceram mudanças referenciais na vida da Palestina. O Templo de Jerusalém foi destruído e com essa tragédia se perdeu tudo o que era relacionado com a vida dos judeus. O sacrifício, o sacerdócio e a ideia de religião se construíam ao redor do Templo, enquanto afirmação da identidade de Israel. Quando acontece a guerra do ano 70 d.C., muitos dos que estavam ligados ao poder religioso do Templo, foram obrigados a se refugiar na região norte da Galileia, na Síria e na Ásia Menor. Neste contexto de diáspora, não tendo mais o Templo, o Sacerdócio e a Cidade Santa como referenciais da religião judaica, com a intuição do Rabino Yochanan ben Zakai, o povo judeu manteve sua identidade ao redor dos preceitos da Torah. Todavia, a Torah era rodeada por um tipo de “cerca”, que eram as ‘mitzvot’ (613 leis), preceitos práticos, atitudes que precisavam ser observadas 24 horas ao dia, pequenos detalhes que garantiam a santidade do povo. Era isso que identificava, a partir da destruição do Templo, o povo judeu: não mais Jerusalém, o Templo, o sacrifício ou o sacerdócio.

Os cristãos, nesse período, já haviam começado a criar a própria identidade, mas não eram alheios à vida dos judeus. A destruição do Templo provocou neles um duplo sentimento. Por um lado leram esse fato como uma punição divina contra Israel, que não reconhecera Jesus como Messias. Chegaram inclusive a pensar em uma substituição dos “prediletos” de Deus. Antes Iahweh havia escolhido os hebreus como seu povo, mas por causa da desobediência mudou de ideia e agora o havia abandonado, elegendo a Igreja nascente. Os cristãos colocaram ao centro da própria vida a figura de Jesus, sublinhando o seu ensino como elemento vital da caminhada. Isso é colocado em contraste com a centralidade da Lei vivida pelos judeus daqueles mesmos anos. Com isso, coabitando as duas correntes religiosas em situação de diáspora, acontecem muitos conflitos. Mesmo que, tanto cristãos, quanto judeus estivessem sob a perseguição de Roma após o ano 70 d.C., o judaísmo normativo se posicionava como caçador dos hereges, dos discípulos do profeta galileu. Esta perseguição mais acirrada do judaísmo influencia profundamente a redação dos evangelhos escritos neste contexto. Como agravante, por volta do ano 90 d.C., os judeus se reúnem em Yavneh, e – entre outras coisas – decidem pela excomunhão em definitivo dos discípulos de Jesus do meio da comunidade judaica. Em razão disso, os cristão buscam sua própria identidade enquanto religião, fato que vai influenciar consideravelmente a redação final dos evangelhos tardios, ou seja: Mateus, Lucas e João.

No Evangelho de Lucas, e – de certa forma, também em João – os fariseus recebem a mesma tonalidade crítica de Mateus, acrescentando-se clara denúncia ao que se refere à xenofobia e à ausência total de misericórdia nas palavras e ações dos que se auto definiam “separados”, pois é isto que significa a palavra fariseu. Ao se colocarem enquanto uma classe espiritualmente privilegiada, entendendo-se mais fiéis à Lei do que os demais, atacavam de forma violenta tudo o que acreditavam conter violações da vontade de Deus. Como eram nacionalistas, diante do contexto de ocupação romana e tendo suas origens no mais inflamado sionismo, eram intolerantes a tudo que não fosse genuinamente israelita. Com isso, tinham verdadeira ojeriza a pessoas e costumes estrangeiros. Além disso, fomentavam a necessidade de observância dos mínimos detalhes do que se constava nas escrituras levíticas e deuteronômicas. Geravam exclusões significativas na religião e na sociedade, pois as pessoas mais pobres não tinham condições básicas para observar literalmente os preceitos. Em síntese, primavam por uma religião do aparente, da estética, dos sinais externos, uma vez que efetivamente o judaísmo sofria sob o braço forte romano, sobretudo na situação de diáspora do fim do primeiro século da era cristã. Todavia, como queriam proteger as tradições e sobreviver ao poder invasor, eram inclinados às dinâmicas de manipulação para a manutenção do poder religioso. O que era claramente contradizente com as virtudes que anunciavam. Falavam de pureza, mas eram capazes das mais torpes ações para manter a influência sobre o que restava da antiga Israel eleita. Isso justifica as palavras mais veementes de Mateus e a análise mais profunda e denunciadora de Lucas.

No Evangelho Joanino, as críticas ao farisaísmo podem parecer mais poéticas do que prosaicas. Todavia, não são inexistentes. São menos eclesiológicas que em Mateus, e menos analíticas que em Lucas. Todavia, há – incontestavelmente – um trato teológico. João e sua comunidade atacam os problemas do judaísmo na sua raiz: a teologia.

É neste sentido que devemos ler Jo 9,1-41. O cenário desta perícope é Jerusalém, nas proximidades da piscina de Siloé. A exegese bíblica nos informa que esta área da cidade de Jerusalém era ocupada por muitas pessoas em situação de vulnerabilidade no tempo de Jesus. Por estar perto deste reservatório de água (piscina de Siloé), e situar-se na parte baixa da cidade, era caminho provável e costumeiro daqueles que se dirigiam ao Templo. Nas águas de Siloé se poderia fazer as devidas abluções para se purificar antes de subir ao Templo. Os pobres ali poderiam pedir auxílio, a esmola necessária para a sobrevivência face à marginalização e exclusão em que viviam.

O judaísmo normativo, através da teologia da retribuição, transferia para a pessoa em situação de sofrimento a culpa da desgraça em que vivia. E isto João nos informa com apurada análise teológica. A pergunta feita pelos discípulos a Jesus não nos deixa dúvida da intenção de se desconstruir esse equívoco na teologia judaica: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” (Jo 9,2). A resposta de Jesus não só contesta a teologia da retribuição, como também dá um aspecto soteriológico e um certo esperançar: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele” (Jo 9,3). Aqui podemos também desconstruir alguns equívocos acerca das ações de Jesus. Seus milagres, sinais conforme a teologia joanina, não são exibições de poder. Não se trata de um messianismo fantástico. O poder de Jesus diante dos sofrimentos humanos, tornando possível revertê-los, liga-se intimamente à misericórdia. Jesus não queria provar sua messianidade ou divina filiação, por exibições de poder. Sua intenção, ao curar doentes ou expulsar demônios, era mostrar que seu Pai não é um castigador terrível, e sim, um Pai Misericordioso. Por isso, curar as feridas humanas era um imperativo, já antes anunciado pelos profetas (cf. Is 53,4-5; 61,1-3; Jr 30,17).  Para bem testificar a urgência da misericórdia, o Evangelho de João acrescenta: “É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo” (Jo 9,4-5). Jesus é a luz que nos possibilita enxergar. O cego estava privado de ver, e a cegueira é a incapacidade dos olhos de perceber a luz. Possibilitar a visão ao cego, é abri-lo à realidade existente. Fazê-lo partícipe da beleza, e – teologicamente – abrir-se à Verdade. Curar a cegueira é mais do que curandeirismo. É devolver a dignidade, a capacidade de pensar e agir com clareza, de participar do Novo Povo de Deus e das implicações que a isso se converge. Ao cego se deu a reintegração na sociedade e na religião, pois – conforme o judaísmo normativo e sua teologia da retribuição – a cegueira era um sinal de pecado e, por isso, motivo de exclusão. Ademais, o Evangelho também nos informa a fratura social em que vivia o cego. Vejamos o que diziam dele: “Os vizinhos e os que costumavam ver o cego – pois ele era mendigo – diziam: ‘Não é aquele que ficava pedindo esmola?’” (Jo 9,8). Jesus não só possibilita a visão, ele restaura a dignidade social e religiosa de um homem que vivia marginalizado e excluído. Reconstrói a vida daquele que vivia à margem. Devolve sua humanidade.

Falando em humanidade, o texto joanino nos dá pistas para aprofundarmos a compreensão desta transformação de trevas em luz, de sofrimento em alegria, de cativeiro existencial em libertação. Há toda uma simbologia na forma de Jesus curar essa pessoa em situação de sofrimento. Ele não estala os dedos e o cego fica curado. Nem mesmo diz palavras de efeito para ressaltar, com exibicionismo, seu poder. Ou ainda fala da grandeza do Céu, do Trono de Deus e de seus anjos. Não! Jesus não exalta a realidade celeste em preterimento à realidade humana. Ao contrário, quando cura este cego, adentra profundamente na condição humana, demonstrando a preciosidade da vida de cada pessoa por Deus, seu Pai, criada. “Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego” (Jo 9,6). Podemos perceber a cura – em seu gesto e forma – como uma íntima ligação com a criação da humanidade. Em Gn 2,7 podemos ver, na narrativa da Criação, que Deus plasmou o homem do barro da terra. Jesus cura o cego fabricando barro cuspindo no chão, fazendo barro com sua saliva. Estes detalhes do texto podem nos apontar que, ao curar o cego, Jesus restaura a intimidade de Deus com a humanidade. O Pai de Jesus não é um Deus impiedoso, que fica à espreita, esperando o menor sinal de pecado para castigar implacavelmente, como afirmava a teologia da retribuição. Ao contrário, Jesus demonstra por seu gesto a restauração da intimidade de Deus com seus filhos e filhas. Há algo mais íntimo de um ser humano do que seus fluídos corporais? A cura do cego se deu pela intimidade de Deus e sua misericórdia. Foi curado pelo barro que se formou do pó da terra, símbolo claro da condição humana (cf. Gn 3,19), e da saliva de Jesus, o beijo misericordioso de Deus.

A cura do cego de nascença desaliena toda a humanidade, aproximando-a de Deus que quer vida digna para todos e todas. Em razão da cegueira, o personagem da perícope do Evangelho de João que estamos a refletir, estava sujeito às mais duras penas da marginalização e exclusão. Como dito acima, Jesus – ao possibilitar a visão do cego – restaura toda dignidade daquele homem. Ainda mais, agindo nele, restaura nossa intimidade com Deus por sua infinita misericórdia. O cego da perícope de João pode significar todos nós.

A partir de Jo 9,10 temos uma série de debates que podem nos provocar reflexões oportunas. Primeiramente, vemos a tentativa de se desacreditar o cego de nascença (Jo 9,8-9.18). Um sinal maravilhoso como o que aconteceu, que desconstruía a teologia da retribuição e, com isso, ameaçava o poder dos fariseus; não seria tolerado. Por isso, também os fariseus entraram na discussão e atacaram a Jesus, usando da questão do sábado (Jo 9,16), afirmando que Jesus não poderia ter curado alguém sendo um pecador (Jo 9,24), e ainda marcaram seu território ao dizer que eles, os fariseus, eram os legítimos conhecedores de Moisés, portanto, dignos religiosos. Jesus, ao contrário, era um desconhecido, desqualificado, sem mérito algum (Jo 9,28). E o debate segue arduamente. Do versículo 28 ao 34 vemos os fariseus tentando desqualificar Jesus e seu feito e o cego dizendo ser este homem especial, já que lhe devolvera a dignidade, pela visão. Interessante que o cego tem argumentos profundamente oportunos, diria até mesmo proféticos, pelos quais desconstruía a teologia e arrogância dos fariseus, denunciado a hipocrisia religiosa impetrada por eles. Em resultado, o homem curado da cegueira foi excluído da comunidade pelos fariseus. Quando não se tem argumentos, a força e o totalitarismo são os recursos dos poderosos e sua perfídia.

Nos versículos 35 ao 41 temos um belo desfecho. O que foi cego por toda uma vida, ao ver a luz, também reconhece aquele que é Luz. Diante disso, o inevitável acontece. Os pobres, os pequeninos e marginalizados, estão em vanguarda ao reconhecer Jesus como salvador: “Eu creio, Senhor!” (Jo 9,38). Na oportunidade, Jesus assenta os fundamentos de sua catequese de forma límpida e edificante: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem, vejam, e os que veem se tornem cegos” (Jo 9,39). Há muito de cegueira naqueles que se acham verdadeiros representantes de Deus. A arrogância religiosa e os sonhos de poder tornam cegos a muitos que poderiam ver. Estão perdidos em suas obscuridades. E, na escuridão, querem negar a luz dos outros ou luz que outros podem perceber. São cegos que querem guiar a quem acreditam estar cegos (cf. Mt 15,14).

Ao refletir sobre Jo 9,1-41  somos convidados a perscrutar nossas próprias vidas e ao que nos cerca. Quais são as muitas formas de cegueira que podemos perceber em nossas comunidades eclesiais e na sociedade? Quando nossos irmãos e irmãs, quem sabe nós mesmos, não agimos pela cegueira dos fariseus, acreditando que somos mais puros e merecedores de crédito do que aqueles que nos cercam? Quando é que ficamos cegos diante da dignidade humana, negando a presença real de Deus em cada sinal de vida que se revela aos nossos olhos? Nesta perícope que refletimos hoje, quais são os personagens que refletem nossa própria vida?

Por fim, precisamos nos perguntar de que lado estamos: de Jesus ou dos fariseus? Da misericórdia sem fronteiras, ou da religião que exclui, marginaliza e explora? Vale a pena decidir, enquanto há tempo!


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