“A matança dos inocentes” | Por Solange Maria do Carmo

A bíblia é cheia de textos que escorrem sangue. E não estamos falando apenas do Antigo Testamento. Nos escritos neotestamentários, eles também aparecem: lá está Jesus sangrando na cruz ou a cabeça de João Batista na bandeja conforme pedido de Herodíades. E não poderia ficar de fora o intrigante texto da matança dos meninos feita por Herodes, quando se viu enganado pelos magos, conforme relata Mt 2,13-18. Sobre esse último, intriga o fato de Jesus ter escapado. Já Saramago dizia que não podia crer num Deus que avisou o pai José para fugir com o filhinho para o Egito, mas deixou Herodes exterminar a meninada da região. De fato, se levarmos o texto ao pé da letra não é possível crer no Deus de Jesus Cristo: seria um disparate por fé num Deus injusto assim.


Entendamos o texto. Trata-se de um gênero literário chamado midraxe, muito utilizado na cultura hebraica: uma história ou lei era criada para reavivar a força de uma antiga promessa ou profecia ou evento fundante. É o caso da novela de Jonas, que quer rediscutir o amor de Deus por todos – inclusive Nínive, a cidade inimiga – e não só pelo povo de Israel.  


O mesmo se dá neste texto de Mateus. Para esse evangelista, Jesus é o novo Moisés, que dá a nova Lei para o novo Israel, a comunidade cristã. Ele sobe a montanha e prega como Moisés. Ele diz: “Ouviste o que foi dito… eu, porém, vos digo”, dando a nova lei. O novo Moisés está instruindo o novo povo de Deus. 


Logo é preciso fazer tudo, mas tudo mesmo, para que Jesus se assemelhe a esse personagem, inclusive fazê-lo viver a experiência de escapar da matança como Moisés outrora das mãos do faraó. 


É preciso entender que não estamos diante de um relato real, factual, mas de um relato teológico, que precisa ser lido à luz do Êxodo. Qual a diferença? Um relato teológico usa nomes, pessoas e locais conhecidas e até fatos primitivos, para transmitir a mensagem que deseja: a fé em Deus. Não quer contar os fatos tais como foram, como é a tentativa da história hoje.


Que ninguém se espante com isso, afinal a bíblia não é um ditado de Deus, mas uma construção humana, por inspiração ou moção divina, que passa por todas as realidades e vivências do autor e de sua comunidade de destino. Deus não ditou a bíblia, nem uma linha. O povo que vivenciou a experiência com Deus, por meio de um autor, escreveu suas experiências a partir de seu contexto, sua língua, sua realidade e, é claro, dos gêneros literários que conhecia.


Jesus, inclusive, é levado ao Egito para de lá ser retirado, como Moisés. Por que iriam José e Maria para terra da escravidão? Não faz sentido algum. Por que este relato tão fatídico passaria em branco sem registros na história? Por que Deus salvaria um e não todos? Não seria mais fácil mandar um raio sobre a cabeça de Herodes? Ah! Porque não é Deus quem está escrevendo o evangelho, mas Mateus, um rabino que conhece bem a Escritura e os gêneros literários por ela usados. Mateus revisita a matança no Egito por ocasião do nascimento de Moisés para dizer que Jesus é o novo Moisés, o verdadeiro libertador. Qualquer leitor minimamente tarimbado na Escritura sabia bem o que Mateus estava dizendo. Nós é que, por causa do fundamentalismo bíblico, fazemos interpretações equivocadas hoje.

Colaborou: Fique Firme


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