Por Karina Moreti
O Livro de Ester nos conduz ao período do Império Persa, provavelmente durante o reinado de Assuero (Xerxes I, 486–465 a.C.), governante de um império que se estendia da Índia até a Etiópia (Est 1,1). Trata-se de um tempo posterior ao exílio babilônico. Israel já não é um reino soberano, mas vive em condição de diáspora. Vive sob leis estrangeiras, dependente da benevolência imperial e inserido numa estrutura política centralizada que administrava territórios, povos e culturas.
Parte dos judeus havia retornado a Jerusalém, porém muitos permaneceram dispersos nas províncias persas. Sem autonomia política, tornaram-se minoria vulnerável, tolerada enquanto não representasse ameaça à ordem imperial. A identidade do povo precisava sobreviver em meio à assimilação cultural e à instabilidade jurídica própria do sistema imperial (cf. Est 1,19; 8,8).
A narrativa inicia-se não com Ester, mas com a rainha Vasti. O capítulo um descreve a corte de Assuero em plena ostentação. Um grande banquete é oferecido durante cento e oitenta dias (cf. Est 1,4), seguido de mais sete dias de festa para o povo de Susã (cf. Est 1,5). O cenário é de exibição pública de riqueza, poder e domínio político. O império celebra a si mesmo.
No sétimo dia, “quando o coração do rei estava alegre do vinho” (Est 1,10), Assuero ordena que tragam a rainha Vasti “para mostrar aos povos e aos príncipes a sua beleza” (Est 1,11). A ordem não é apenas protocolar; é simbólica. O corpo da rainha torna-se parte da demonstração de poder do rei. Sua presença serviria como espetáculo diante de homens embriagados pela autoridade e pelo vinho. O rei não esperava que sua rainha ousasse desobedecê-lo. “A rainha Vasti, porém, recusou-se a vir segundo a palavra do rei” (Est 1,12).
Essa recusa constitui o primeiro grande ato feminino do livro. Antes da ameaça de genocídio, há a resistência de uma mulher. Antes da salvação coletiva, há a defesa da própria dignidade. O “não” de Vasti inaugura o movimento histórico que conduzirá, mais adiante, à preservação de todo um povo.
Não é por acaso que o Livro de Ester é construído sobre sucessivas inversões. Aquilo que parecia absoluto revela-se frágil; aquilo que parecia condenado encontra caminho de vida. E essa lógica de reversão não começa com a queda de Hamã, mas com a recusa de Vasti. Ao desafiar a ordem do rei, ela inaugura a primeira fissura no poder imperial. Ester, mais tarde, atravessará essa fissura para transformar ameaça de morte em possibilidade de vida.
Aqui se revela, de forma explícita, o temor estrutural do patriarcado. A preocupação dos conselheiros não é apenas a honra ferida do rei, mas o possível efeito social do gesto feminino. O texto afirma: “A conduta da rainha chegará ao conhecimento de todas as mulheres, de modo que desprezarão seus maridos, quando ouvirem dizer: ‘O rei Assuero ordenou que introduzissem à sua presença a rainha Vasti, porém ela não foi’” (Est 1,17).
Não é um medo conjugal; é um medo sistêmico. Se uma mulher pode recusar-se diante do soberano máximo do império, outras poderão questionar a autoridade dentro de seus próprios lares. A recusa de Vasti ameaça a engrenagem que sustenta a dominação masculina. Por isso, o episódio ultrapassa o âmbito doméstico e torna-se questão política. O império responde com legislação (cf. Est 1,22), reafirmando que “todo homem seja senhor em sua casa”. A autonomia feminina é percebida como risco à ordem social. O que está em jogo não é apenas um gesto isolado, mas o controle simbólico do corpo e da voz das mulheres.
Por sua recusa, Vasti é deposta. Sua saída não representa apenas a substituição de uma rainha; revela uma reorganização do poder. O império reage para preservar sua estabilidade. É nesse cenário que emerge a protagonista do livro: Ester.
Ester era uma jovem órfã, judia, criada por Mardoqueu (cf. Est 2,7). Não ingressa na narrativa por escolha afetiva, mas por engrenagem política. Não se trata de romance, mas de estratégia imperial. Jovens são reunidas e preparadas como parte de um sistema que reforça a autoridade masculina e assegura a continuidade do trono. O corpo feminino torna-se elemento da arquitetura do poder.
Ester é conduzida ao palácio como peça de uma estrutura maior que ela mesma. Sua história começa na vulnerabilidade, não no privilégio. Contudo, carrega uma diferença decisiva: sua identidade judaica permanece oculta (cf. Est 2,10). O silêncio torna-se mecanismo de proteção. Sua sobrevivência depende da discrição. Assim, sua presença no centro do império nasce da vulnerabilidade.
Historicamente, o Império Persa possuía uma administração altamente organizada, estruturada em províncias e regida por leis consideradas irrevogáveis (cf. Est 1,19; 8,8). Uma vez selado com o anel real, o decreto tornava-se expressão incontestável da vontade imperial. O direito transformava-se em instrumento absoluto de poder. É nesse contexto que surge o decreto arquitetado por Hamã, alto oficial do reino. Não se trata apenas de intolerância religiosa, mas de política de extermínio legitimada juridicamente. O texto é brutal em sua clareza: “Destruir, matar e exterminar todos os judeus, jovens e velhos, crianças e mulheres, num só dia” (Est 3,13).
O texto bíblico revela algo socialmente contundente: mulheres e crianças são explicitamente mencionadas. A violência não distingue idade nem condição. O projeto não é repressão parcial; é aniquilação total. O genocídio não é simbólico. É programado. É legalizado. É estatal. Quando a morte recebe selo oficial, a esperança parece silenciar. É precisamente nesse ponto que a narrativa prepara a entrada decisiva de Ester.
Mardoqueu envia a Ester uma palavra que se tornou eixo hermenêutico do livro: “Quem sabe se não foi para um momento como este que chegaste à realeza?” (Est 4,14). Aqui se manifesta uma verdadeira teologia da vocação histórica. Deus chama dentro das estruturas concretas do tempo — não fora delas. Ester compreende o risco. Aproximar-se do rei sem ser chamada significava morte (cf. Est 4,11). Sua resposta é teologicamente decisiva: “Vai, reúne todos os judeus… e jejuai por mim… Se eu tiver que morrer, morrerei” (Est 4,16). O jejum antecede a ação. A espiritualidade precede a estratégia. A decisão feminina não nasce da impulsividade, mas do discernimento comunitário.
A partir desse momento, a narrativa introduz um elemento literário significativo que atravessa todo o livro: os banquetes. Desde o início da história, o poder imperial manifesta-se por meio deles. O grande banquete de Assuero exibe a riqueza, a autoridade e a estabilidade do império diante de seus súditos. Foi nesse ambiente de ostentação que o rei ordenou que Vasti fosse apresentada como parte do espetáculo de poder — e foi também ali que ocorreu a primeira fissura na lógica imperial, quando a rainha se recusou a obedecer.
Mais adiante, quando Ester assume sua missão, os banquetes reaparecem, mas com um significado completamente distinto. Em vez de instrumento de exibição do poder masculino, tornam-se estratégia de intervenção feminina. Ester convida o rei e Hamã para um primeiro banquete e, deliberadamente, adia seu pedido. No segundo banquete, revela o plano de extermínio contra seu povo e provoca a reversão da situação.
O recurso narrativo é notável: aquilo que inicialmente simbolizava a ostentação do império transforma-se, nas mãos de Ester, em instrumento de reversão histórica. O espaço que celebrava o poder imperial torna-se o lugar onde esse mesmo poder é confrontado e redirecionado.
O desfecho da narrativa culmina na reversão do decreto (cf. Est 8,5-8). Embora a lei persa não pudesse ser anulada, um novo decreto concede aos judeus o direito de defesa. A ameaça de aniquilação converte-se em sobrevivência histórica, celebrada na festa do Purim (cf. Est 9,20-28). Sem Ester, não haveria continuidade. Sem continuidade, não haveria memória. Sem memória, a promessa messiânica seria interrompida. A história da salvação, mais uma vez, passa pelo “sim” de uma mulher.
Do ponto de vista teológico, o Livro de Ester apresenta uma particularidade singular: o nome de Deus não aparece explicitamente no texto hebraico. Contudo, a ausência nominal não indica ausência providencial. A tradição judaica sempre leu o livro como expressão da ação divina velada na história. Deus atua na insônia do rei (cf. Est 6,1), na leitura dos registros, na reversão simbólica das honras, no temor que recai sobre os inimigos (cf. Est 8,17). O livro revela, assim, uma teologia da providência silenciosa.
Sob o olhar da teologia feminina, Ester rompe leituras reducionistas que a apresentam como figura passiva. Sua aparente submissão ao sistema imperial é, na verdade, estratégia de sobrevivência e intervenção política. Ela utiliza os códigos do poder para desmontar o próprio poder. Não confronta de fora; age por dentro. Em uma sociedade patriarcal, onde o acesso ao rei era restrito e controlado, o corpo feminino — frequentemente instrumentalizado — torna-se, paradoxalmente, espaço de mediação salvífica. Ester transforma um lugar de objetificação em lugar de libertação coletiva. Isso não romantiza a opressão, mas revela a capacidade feminina de ressignificar espaços hostis.
Esse dado é teologicamente decisivo: a salvação não é construída apenas por reis, sacerdotes ou profetas homens. A economia divina inclui, convoca e depende da ação feminina. Ester se insere na longa tradição bíblica das mulheres que impediram a morte coletiva: as parteiras do Egito (Ex 1,15–21), Débora (Jz 4–5), Rute (Rt 4), Judite (Jt 13). Em contextos de ameaça estrutural, são mulheres que preservam a vida do povo.
Ainda hoje o texto nos interpela. Povos continuam ameaçados. Mulheres continuam inseridas em estruturas de poder ambíguas. A pergunta de Mardoqueu ecoa através dos séculos: “Quem sabe se não foi justamente para um tempo como este que chegaste à realeza?” (Est 4,14).
E, ao final da narrativa, torna-se possível perceber algo ainda mais profundo: a libertação do povo não começa apenas quando Ester entra na sala do trono. Ela começa antes. Começa quando outra mulher decide não se curvar.
Vasti abre a história com um gesto de recusa. Diante da ordem que a reduziria a espetáculo do poder masculino, ela se levanta em silêncio e diz não. Sua desobediência expõe o medo do patriarcado e provoca uma reorganização da corte.
Ester, por sua vez, entra na mesma estrutura e a transforma por dentro. Onde Vasti rompeu pela recusa, Ester intervém pela estratégia. Onde uma desestabilizou o sistema, a outra o atravessou para salvar o povo.
Dentro da nossa série, Ester confirma um princípio fundamental: Deus nos chama a partir da história concreta — com suas violências estruturais, seus impérios absolutistas e seus riscos reais. Deus não chama em abstrato. Não chama fora da política nem fora das tensões sociais. Deus chama dentro delas. O livro de Ester é prova palpável. Não há milagres visíveis. Não há mar aberto. Não há fogo do céu. Há decretos. Há selos reais. Há intrigas de corte. Há ameaça de genocídio. Deus age no silêncio da história. Quando a aniquilação parecia juridicamente inevitável, quando o decreto já havia sido selado (cf. Est 3,12-13), uma mulher entrou na sala do trono sem garantia de vida (cf. Est 4,16; 5,1). E ali, no espaço máximo do poder imperial, a vulnerabilidade feminina tornou-se instrumento de reversão histórica. A morte foi suspensa, o decreto foi contrabalançado e o povo foi preservado (cf. Est 8–9). Aquilo que parecia uma sentença irreversível tornou-se ocasião de libertação histórica. No entanto, essa libertação não começa apenas no momento em que Ester entra na sala do trono; ela começa antes, quando Vasti se recusa a ser reduzida a objeto de exibição. A resistência de Vasti inaugura uma fissura no poder absoluto. A intervenção de Ester amplia essa fissura até transformá-la em caminho de salvação.
A história começa com um gesto de recusa e culmina na preservação de um povo inteiro. Entre esses dois momentos erguem-se duas mulheres que ousaram agir dentro de um império que parecia absoluto. Vasti rompe o silêncio ao recusar legitimar um poder que pretendia transformar seu corpo em espetáculo. Ester, por sua vez, atravessa as engrenagens do mesmo sistema e, com prudência e coragem, transforma o espaço da dominação em caminho de libertação. Uma abre a fissura; a outra atravessa essa fissura para salvar seu povo. Assim, o Livro de Ester revela que a história não é movida apenas por decretos, tronos e impérios, mas também pela coragem silenciosa de quem se recusa a aceitar a morte como destino. E, no coração dessa narrativa, torna-se visível uma verdade teológica decisiva: quando o poder ameaça definir sozinho o destino da vida, Deus suscita vozes que interrompem a morte — e, neste livro, essas vozes têm rosto de mulher.
Senhor Deus da vida,
que ages silenciosamente na história,
dá-nos a coragem de Vasti para defender a dignidade
e a sabedoria de Ester para agir com prudência e fé.
Que também nós saibamos responder ao teu chamado
no tempo em que vivemos.
Amém.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
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