“O Amor é mais Forte do que a Morte!” | Reflexão sobre Jo 11,1-45

“Eu sou a ressurreição e a vida”
(Jo 11,25)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Estamos no 5º Domingo da Quaresma. A Liturgia nos apresenta um dos textos mais lindos do Evangelho de João. Fala de amor, amizade, morte, luto e ressurreição. Mais do que o impressionante testemunho das comunidades joaninas sobre Jesus ter devolvido a vida a uma pessoa morta e sepultada há quatro dias, é a relação de Jesus com aquela família, o amor fraterno que nutria por Lázaro, a intimidade que mantinha com aqueles discípulos, a derrota da morte pela ação de Jesus, mesmo que Ele estivesse sob ameaça de morte, dadas as muitas conspirações dos poderosos. Seus discípulos nos informam o perigo que Jesus corria: “Mestre, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?” (Jo 11,8).

O Evangelho da Liturgia do 5º Domingo da Quaresma é sobre vida e morte. Amor e compromisso. É sobre discípulos amados, e amor que a tudo vence. Inclusive, a morte.

O cenário é Betânia. O nome desta cidade pode significar Casa dos Pobres ou Casa da Aflição. Betânia está localizada na encosta sudeste do Monte das Oliveiras, e faz divisa com Jerusalém. É a cidade natal de Marta, Maria e Lázaro. O Evangelho nos informa sobre o parentesco destes irmãos e a afinidade afetiva que reinava entre eles e o Mestre Galileu: “Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro” (Jo 11,5). Os sentimentos profundos entre eles se faz revelar. Ao enviar uma mensagem para Jesus sobre Lázaro, as irmãs dizem: “Senhor, aquele que amas está doente” (Jo 11,3).

Os acontecimentos sobre o que se reflete em Jo 11,1-45; estão cronologicamente ligados à viagem de Jesus a Jerusalém, por ocasião da Páscoa. Em Lucas temos uma atenção apurada sobre esta jornada. A partir do capítulo 9 de Lucas, mais precisamente depois do versículo 51, Jesus inicia sua jornada para Jerusalém. Uma longa caminhada da periferia para o centro, da Galileia para a capital do poder religioso e político, a Cidade Santa, Jerusalém. Esta jornada se configura como a parte mais original do Evangelho Lucano, que lhe consagra dez capítulos (9,51 a 19,28). Os sinóticos tratam desta jornada de forma mais sucinta. Marcos ocupa um capítulo de seu Evangelho e Mateus dois. O sentido do relato desta viagem é tratar das implicações da morte de Jesus, como consequência de seu compromisso com as causas dos pequeninos, vítimas da opressão romana e do judaísmo normativo. Esta é a viagem da libertação que tem seu ápice e significado em Mt 27,50; Mc 15,37; Lc 23,46; Jo 19,30. Para seus discípulos, foi oportunidade de uma grande catequese, quando se teve maior intimidade com a pessoa de Jesus e com sua missão. Ao fim desta viagem, haverá o confronto entre Jesus e o poder do Templo. A periferia confronta a cidade, denunciando suas desigualdades e opressões, muitas vezes subsidiadas pela religião oficial, o judaísmo. Ao longo da jornada para Jerusalém, Jesus havia sido interpelado pelos Mestres da Lei e por outros representantes do poder. É por isso que, quando Ele informa que iria até Lázaro e suas irmãs, nas imediações de Jerusalém, os discípulos advertem: “Mestre, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?” (Jo 11,8). E ainda, quando Jesus revela que Lázaro está morto, Tomé diz: “Vamos nós também para morrermos com ele” (Jo 11,16).

Nos versículos 17 a 19 do capítulo 11, o texto joanino nos introduz na mais bela escatologia. A intimidade de Jesus com os irmãos de Betânia, possibilita Marta a lhe dar um puxão de orelha, fazer-lhe uma queixa sincera: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21). Marta dizia isto porque Jesus havia sido avisado da enfermidade de Lázaro (cf. Jo 11,3), mas demorou muito para ir vê-lo. E quando o fez, já se tinham passado quaro dias de seu sepultamento. Jesus, porém, aproveita-se da chamada de atenção que Marta lhe fez, e a ajuda a dar um passo decisivo na fé. Da situação dramática da morte de Lázaro, Ele a fez passar para a fé na ressurreição. Esta perícope do Evangelho de João nos mostra o efeito do amor entre os amigos. Uma amizade que se nutria de amor. Amor mais forte que a morte. Quem fez experiência do amor de Jesus em sua vida, manifesta este amor na convicção de fé na ressurreição.

Significativa e digna de grande destaque em nossa reflexão de hoje é a profissão de fé de Marta. Tal profissão de fé é colocada na boca de Pedro nos outros Evangelhos. Em João, a profissão de fé em Jesus como Messias esperado, vem da boca de uma mulher, amiga de Jesus. É Marta quem declara: “tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (Jo 11,27). Até chegar a esta certeza e professá-la, há todo um caminho dialogal entre Jesus e Marta. Primeiro ela lhe passa uma reprimenda, por sua demora em vir até eles em situação de tamanho sofrimento. Os quatro dias de atraso de Jesus são propositais. Dentro da cultura judaica, este era o tempo em que o espírito deixava definitivamente o corpo. Ressuscitar após quatro dias do sepultamento, faz do gesto de Jesus algo irrefutável. Assim, ninguém duvidaria que ao trazer Lázaro de volta à vida se tratasse de um sinal da presença de Deus. Daí a força das palavras de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (Jo 11,25-26).

E Jesus ressuscita Lázaro. Nele, a todos nós. Das mortes físicas e existenciais.

Em nossas comunidades eclesiais, o texto do Evangelho de João sobre a ressurreição de Lázaro deve ter especial lugar em nossas reflexões. Precisamos nos perguntar quando não caímos na tentação do imediatismo e questionamos o verdadeiro amor de Deus por nós. O sofrimento das irmãs de Betânia, pelo falecimento de seu irmão Lázaro, ofuscou a confiança em Jesus em certo momento. Até mesmo fez Marta questionar os sentimentos e ações d’Ele. Muitas vezes as situações em que vivemos nos oferecem lugar e oportunidade para confessar nossa fé em Cristo, assim como aconteceu com Marta. A verdadeira escatologia consiste em iluminar a realidade com a confiança no Senhor da História. Para tanto, é preciso que façamos uma experiência profunda de Jesus, tal qual fez a família de Betânia. As nuances da narrativa da comunidade joanina nos oferecem pistas de como fazer efetivamente esta experiência de Jesus. O caminho é o amor! E o amor é mais forte do que a morte.


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