Uma voz que a morte não silenciou

Por Karina Moreti

Em um mundo marcado pela desigualdade, pela violência e pelo silêncio daqueles que deveriam proteger, a vida de Dom Óscar Romero continua a falar. Muitos ainda vivem com medo, fome e perseguição, e têm suas vozes caladas. O santo de El Salvador nos lembra que a fé não pode se contentar com palavras: ela deve se tornar ação! Ele nos chama a ter coragem quando todos têm medo, a buscar justiça quando o poder oprime, a defender a dignidade humana quando ela é negada. Sua vida nos pergunta, com urgência e ternura: como somos presença de Deus entre os esquecidos? Desde sua canonização pelo Papa Francisco, em 2018, celebramos no dia 24 de março seu martírio e sua santidade, lembrando que proteger os pobres e denunciar a injustiça é um chamado que não envelhece.

Óscar Arnulfo Romero y Galdámez nasceu em 1917, em Ciudad Barrios, El Salvador. Cresceu em família simples e cedo sentiu o chamado de Deus. Tornou-se padre e percorreu paróquias, mergulhando na vida do povo. Visitava aldeias, ouvia histórias de fome, medo e violência, consolava viúvas, amparava órfãos e acalmava crianças assustadas. Cada gesto era oração viva, presença de Deus entre os esquecidos.

Na década de 1970, El Salvador se afundava em desigualdade e violência. A maior parte das terras e da riqueza estava concentrada nas mãos de poucos, enquanto camponeses e trabalhadores rurais viviam na extrema pobreza. Tentativas de protesto eram duramente reprimidas. Surgiram grupos armados de resistência, e o governo, junto de milícias, atacava indiscriminadamente civis. Assassinatos, desaparecimentos e massacres se tornaram rotina. Padres, freiras e líderes comunitários eram perseguidos, ameaçados ou mortos. O medo dominava cidades e campos, e o povo mais simples carregava o peso da injustiça e da impunidade.

Dom Óscar Romero caminhava entre essas sombras, não como espectador, mas como pastor. Suas mãos consolavam, sua voz denunciava, sua fé encorajava. Ele se tornou presença de esperança em meio ao medo, lembrando que a vida e a dignidade dos pobres são tesouro de Deus.

Em 1977, Romero foi nomeado arcebispo de San Salvador. Encontrou uma sociedade dilacerada pela violência, pelo medo e pela injustiça. Mas ele não se calou. Tornou-se voz de quem não tinha voz, pastor que denunciava a opressão e defendia a dignidade humana. Em suas homilias transmitidas pelo rádio, Romero falava para o povo e falava pelo povo. Denunciava massacres, desaparecimentos e perseguições, lembrando que cada vida perdida é preciosa aos olhos de Deus. Seguia a Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Cada palavra sua era oração e coragem, e cada denúncia, um ato de amor pastoral.

Visitava aldeias ameaçadas, casas de famílias aterrorizadas, campos onde o medo se tornava cotidiano. Amparava trabalhadores perseguidos, consolava viúvas, abraçava órfãos. Cada gesto reforçava sua convicção: amar os pobres não era apenas dever, era caminho de santidade. Ele lembrava o bom samaritano: cuidar dos feridos, mesmo que custe caro (cf. Lc 10,25-37). E assim, apesar das ameaças, Romero permanecia firme, encarnando o Evangelho no meio da violência.

Sua presença transformava o medo em esperança, e a violência em chamado à justiça. O santo de El Salvador mostrava que seguir Cristo exige coragem, fidelidade e proximidade com os que sofrem. Cada gesto seu era semente que germinaria mesmo após sua morte, lembrando que o martírio é luz que faz nascer vocações e fortalece a fé.

Em 24 de março de 1980, enquanto celebrava missa, uma bala tirou sua vida. Contudo, não pôde apagar sua missão. O martírio não é apenas morte injusta, mas participação no próprio mistério da cruz, onde Deus se revela solidário com os que sofrem. Naquele instante, sua entrega tornou-se semente viva de fé e esperança, que germinaria por toda a Igreja. Sua morte não silenciou os pobres; deu voz a quem antes estava calado. Inspirou padres, religiosas, leigos e leigas a permanecer firmes na defesa dos oprimidos, a proteger a dignidade humana e a testemunhar a justiça de Deus mesmo diante do medo.

Santo Óscar Romero se entregou como Cristo ensinou: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). Cada gesto, cada homilia, cada visita pastoral tornou-se agora parte de um legado que ultrapassa fronteiras e gerações. Ele mostrou que a santidade se constrói na fidelidade radical a Deus e no amor concreto pelo próximo.

O sangue do santo de El Salvador regou o chão da Igreja, e dele nasceram coragem, esperança e vocações. Cada lágrima acolhida, cada vida defendida, cada injustiça denunciada ecoa ainda hoje seu chamado: ser presença de Deus onde há dor, ser voz dos que não podem falar, ser luz em meio à escuridão. Desde sua canonização celebramos não apenas sua memória, mas o compromisso de continuar sua missão, lembrando que a fé verdadeira se doa, se arrisca e transforma o mundo.

Dom Óscar Romero foi canonizado em 2018, reconhecido como santo. Não por ideologia ou política, mas por amor concreto, defesa da vida e compromisso com os pobres. Sua santidade se revela na coragem de permanecer fiel a Deus, próximo dos necessitados, e de transformar a dor em esperança. A guerra em El Salvador continuou por mais uma década, até 1992, mas o martírio de Romero tornou-se semente de resistência e luz no meio das trevas. Sua vida e seu exemplo mostraram que a fé verdadeira não se limita a palavras: ela é ação, coragem e proximidade com os que sofrem.

Cada 24 de março nos lembra que a santidade se constrói na entrega total: na fé que se doa, na vida que se sacrifica e na luta por um mundo mais justo. Ele nos chama hoje, assim como nos chamou em vida, a seguir Jesus com coragem, compromisso e amor concreto: “Quem perder a vida por minha causa, encontrá-la-á” (Mt 16,25).

O santo de El Salvador nos deixa uma palavra que não morre: viver a fé junto aos pobres, falar a verdade diante da injustiça e, em cada gesto, ser presença viva de Deus para aqueles que mais precisam. Seu martírio é luz que continua a iluminar os passos da Igreja e a inspirar gerações, lembrando-nos que a verdadeira santidade floresce onde há coragem, compaixão e fidelidade — e que cada um de nós é chamado a ser luz no mundo, como ele foi.

Senhor Deus da vida,
que em Óscar Romero revelaste teu amor pelos pobres e oprimidos,
cura o nosso coração de toda indiferença.

Arranca de nós o medo que nos faz calar
e fortalece em nós a coragem de amar.

Ensina-nos a ver o rosto de Cristo
nos que sofrem, nos esquecidos, nos feridos da história.

Que nossa fé não seja apenas palavra,
mas gesto concreto, presença viva,
voz que defende, mão que acolhe,
vida que se doa.

Cura, Senhor, as feridas do mundo
e faz de nós instrumentos da tua paz,
para que, mesmo em meio à dor,
a esperança nunca se cale.

Amém.


Karina Moretié bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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