Deus nos chama a partir da história – Parte 21: Malaquias, quando Deus chama em meio ao cansaço da fé

“Voltai para mim, e eu voltarei para vós.” (Ml 3,7)

Por Karina Moreti

Depois do exílio na Babilônia, o povo de Israel começou lentamente a retornar à sua terra. Jerusalém havia sido destruída, o Templo estava em ruínas e a vida precisava ser reconstruída quase do zero. O retorno significava mais do que ocupar novamente a terra. Significava recuperar a identidade do povo e renovar a aliança com Deus. Infelizmente, a história não voltou a ser como antes. A antiga terra de Judá já não era mais um reino independente. A região agora fazia parte do grande domínio do Império Persa, que administrava suas províncias por meio de governadores locais responsáveis por manter a ordem e garantir a estabilidade da região.

Nesse contexto surge a figura de Neemias, enviado pelo rei persa para reorganizar Jerusalém (445 a.C). Sua missão principal era reconstruir os muros da cidade e fortalecer sua administração, conforme nos informa o livro bíblico que leva seu nome. O próprio relato descreve essa reconstrução como um momento de grande tensão e esforço coletivo (cf. Ne 4,1-17). Anos mais tarde (400 a.C), aparece também a figura de Esdras, sacerdote e escriba encarregado de reorganizar a vida religiosa do povo e reafirmar a centralidade da Lei. No entanto, suas reformas realizadas nesse período trouxeram profundas tensões sociais. Um dos episódios mais dolorosos foi a decisão de separar os israelitas de suas eventuais mulheres estrangeiras. Muitos homens foram obrigados a despedir suas esposas e os filhos nascidos dessas uniões. O próprio texto bíblico registra essa decisão: “Façamos uma aliança com nosso Deus: despediremos todas essas mulheres e os filhos que delas nasceram, de acordo com o conselho de meu Senhor e dos que temem os mandamentos de nosso Deus, e que seja feito conforme a lei.” (Esd 10,3).

Essa medida, pouco ligada ao espírito da tradição de Iahweh, foi aplicada de forma severa e resultou na dissolução de muitas famílias (cf. Esd 10,18-44). Mulheres e crianças ficaram sem proteção. E muitos daqueles que haviam permanecido na terra durante o exílio, passaram a ser tratados como estranhos dentro do próprio povo. Todavia, dentro da própria tradição bíblica encontramos textos que parecem dialogar com essa realidade histórica. Entre eles está a bela narrativa do Livro de Rute. Uma estrangeira. Uma moabita. Aos olhos de uma leitura rigorosa da pureza étnica, ela jamais poderia ocupar lugar de destaque na história de Israel. Contudo, sua fidelidade rompe todas as fronteiras. Quando decide acompanhar sua sogra Noemi, ela faz uma das declarações mais bonitas de toda a Escritura: “Não insistas comigo para que te deixe e me afaste de ti, pois para onde fores, irei também; onde for tua morada, será também a minha; teu povo será meu povo e teu Deus será o meu Deus.” (Rt 1,16). A história conduz a um desfecho surpreendente. Tanto que a comunidade mateana a inclui na genealogia de Jesus de Nazaré (cf. Mt 1,5).

Nesse contexto histórico, marcado por reformas religiosas e reorganização social, surge a voz do profeta Malaquias. Curiosamente, o próprio nome Malaquias, em hebraico, significa “meu mensageiro”, o que leva muitos estudiosos a pensar que talvez não se trate de um nome pessoal, mas de um título que expressa a missão do profeta: ser mensageiro da palavra de Deus. Sua mensagem surge como uma crítica profunda às contradições daquele tempo. Malaquias denuncia sacerdotes que haviam se afastado do verdadeiro espírito da Lei: “Vós, porém, vos afastastes do caminho e a muitos fizestes tropeçar com vosso ensinamento” (Ml 2,8). O profeta também critica a infidelidade nas relações familiares, afirmando: “Iahweh é testemunha entre ti e a mulher de tua juventude, que tu traíste, apesar de ser ela tua companheira, a mulher ligada a ti por um pacto” (Ml 2,14). E aqui estas palavras ganham ainda mais força quando lembramos das separações forçadas de mulheres estrangeiras narradas em Esdras 9–10.

A reconstrução institucional do povo havia acontecido: o Templo fora restaurado, os muros da cidade erguidos e a Lei proclamada. Contudo, a justiça e a fidelidade ainda precisavam ser reconstruídas no coração do povo.

Deus não se deixa enganar por Templos reconstruídos quando a justiça continua em ruínas.

É exatamente nesse cenário que a voz profética se levanta para recordar que Deus não se deixa enganar por estruturas religiosas quando a vida do povo continua marcada pela injustiça. Porque, na tradição dos profetas, toda religião que esquece os pobres corre o risco de se transformar apenas em aparência de fé. Assim, dentro da própria Bíblia encontramos uma tensão entre projetos diferentes de sociedade e de fé. Enquanto alguns defendiam uma identidade fechada e excludente, outros recordavam que a fidelidade a Deus se manifesta na justiça, na solidariedade e na acolhida da vida. O Templo já havia sido reconstruído. O culto estava novamente em funcionamento. Mas algo essencial parecia ter se perdido. A fé começava a se tornar rotina. O culto corria o risco de transformar-se apenas em obrigação. Os próprios sacerdotes realizavam o serviço de Deus com descuido. Por isso o profeta denuncia: “O filho honra seu pai e o servo respeita seu patrão. Se eu sou pai, onde está a honra que me é devida? Se sou o patrão, onde está o respeito para comigo?” (Ml 1,6).

O problema não estava apenas nos ritos. O problema estava no coração. Animais defeituosos eram oferecidos no altar. Aquilo que ninguém queria mais era entregue a Deus. Por isso Malaquias declara: ““É que ofereceis em meu altar comida contaminada”. Mas dizeis: “Em que te profanamos?” Quando dizeis: “A mesa de Iahweh é sem importância”. “E quando ofereceis um animal cego em sacrifício, não é um mal? Quando ofereceis um animal aleijado ou doente, não é um mal?”” (Ml 1,7-8).

Contudo, a crítica do profeta não se limita ao culto. Ela alcança também a vida social. A injustiça contra os mais fracos, a exploração dos trabalhadores e a opressão dos vulneráveis tornavam-se parte da vida cotidiana. Por isso Iahweh anuncia por meio do profeta: “Eu me aproximarei de vós para o juízo e serei uma testemunha pronta contra os feiticeiros, os adúlteros, os perjuros, contra quem defrauda o operário de seu salário, contra quem oprime a viúva e o órfão, e faz injustiça ao estrangeiro.” (Ml 3,5).

Diante dessa realidade, a mensagem de Malaquias se resume em um chamado simples e profundo: “Voltai para mim, e eu voltarei para vós” (Ml 3,7). Mesmo quando a fé se enfraquece, mesmo quando a religião corre o risco de se tornar apenas costume, Deus continua chamando seu povo a retornar ao caminho da aliança. Porque o chamado de Deus nunca desaparece da história. Ele continua ecoando, às vezes com voz forte, às vezes quase em silêncio, convidando homens e mulheres a reconstruírem a justiça, a verdade e a fidelidade.

O livro do profeta Malaquias termina olhando para o futuro. Mesmo diante de uma fé cansada e de uma sociedade marcada por contradições, Deus continua prometendo agir na história. O profeta anuncia que, antes do grande dia do Senhor, Deus enviará novamente o profeta Elias, aquele que “converterá o coração dos pais para os filhos, e o coração dos filhos para os pais” (Ml 3,23-24).

Essa promessa permanecerá viva na esperança do povo de Israel durante séculos.

Séculos mais tarde, a tradição reconhecerá nessa promessa a missão de João Batista, que surge no deserto chamando o povo à conversão e preparando os caminhos do Senhor.

Assim, a voz de Malaquias permanece atravessando os séculos: quando os corações se endurecem e a fé se cansa, Deus continua enviando mensageiros para recordar que a história ainda pode ser reconciliada. Ele fala a um povo que havia reconstruído o Templo, reorganizado suas estruturas religiosas e retomado suas práticas de culto, mas que corria o risco de perder aquilo que é mais essencial: um coração fiel a Deus e comprometido com a justiça. Por isso sua voz atravessa os séculos recordando que a verdadeira aliança não se sustenta apenas em ritos ou instituições, mas na fidelidade concreta à vida, na justiça para com os mais fracos e na verdade das relações humanas. Quando a fé se torna rotina e a religião perde sua alma, Deus continua chamando seu povo a voltar para Ele.

Senhor nosso Deus,
Tu que nunca deixas de falar ao teu povo na história,
abre nossos ouvidos para escutar a tua voz.

Quando nossa fé se torna rotina
e nossa religião perde a sua alma,
faz-nos voltar para Ti de todo o coração.

Ensina-nos a reconstruir não apenas templos e estruturas,
mas a justiça, a verdade e a fidelidade em nossa vida.

Que saibamos reconhecer teu rosto
nos pobres, nos pequenos e nos esquecidos,
e que nossa fé se manifeste sempre no amor.

Amém.


Karina Moretié bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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