Frei Jacir de Freitas Faria, OFM [1]
Sexta-feira da Paixão, dia para refletir o sentido da morte. Os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João, todos eles têm como base de suas narrativas sobre Jesus histórico, o relato da Paixão, morte e ressurreição de Jesus. A comunidade Joanina, lá pelo ano 100 E.C., acrescentou elementos simbólicos à narrativa sobre a morte de Jesus.
A morte faz parte do trem de nossa história pessoal, mas como é difícil acolhê-la. São Francisco, no ponto alto de sua espiritualidade, a chama de irmã morte. O que levou São Francisco de Assis (1186-1226 E.C.) a pensar desse modo. Morrer é um esperançar para os que vão e os que ficam. Perguntas, no entanto, permanecem no nosso coração: Por que morrer? Para que morrer? Será que Deus nos abandona na hora morte? Ele abandonou Jesus na agonia da Cruz? Que relação existe entre o pecado e a morte no judaísmo? Como ocorriam as mortes de condenados no tempo de Jesus?
São tantas as perguntas, muitas delas sem resposta, que vou começar pela última. Quatro eram os tipos de morte na Roma antiga contra os assassinos, rebeldes contra o Império, estupradores e crimes contra pais e parentes (parricídio), a saber: a) Ataques, no circo Máximo, de animais ferozes, os quais matavam e comiam os condenados; b) Ser queimado numa fogueira; c) Ser empalado, isto é, o condenado devia sentar-se em uma vara pontiaguda, a qual atravessa suas entranhas até rasgar o ventre; d) Crucifixão, precedida de flagelação até o local da morte.
O historiador romano Suetônio (69 a 144 E.C.) conta que o imperador Nero mandou matar os cristãos por serem de membros de uma maléfica superstição[2]. Já outro historiador, Tácito 56-117 E.C.) deixou escrito o seguinte: “O suplício desses miseráveis foi ainda acompanhado de insultos, porque ou os cobriram com peles de animais ferozes para serem devorados pelos cães, ou foram crucificados, ou os queimavam de noite para servirem como archotes e tochas ao público. Nero ofereceu seus jardins para esse espetáculo.”[3]
Jesus, por ser considerado um rebelde e agitador popular, foi condenado ao suplicio da cruz. Ele terá carregado nas costas a haste horizontal da cruz, que pesava em torno de oito kg até o monte Gólgota. No instante derradeiro de sua morte, Jesus soltou um grande grito de dor: “Elahi, Elahi, lemá, sabachtháni?” que é traduzido, normalmente, por “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Mc 15,34; Mt 27,46).
Jesus gritou em aramaico, língua que deu origem ao hebraico. Lamá em hebraico, língua próxima ao aramaico, é lemá, mas também lamá. Jesus disse lama, seguido de sabachtháni – me abandonaste, que é a junção da partícula interrogativa máh com o complemento le, e significa para quê, podendo também ser traduzido por por quê. Isso pode ocorrer tanto no aramaico quanto no hebraico. O uso do para quê expressa a motivação da morte Jesus. Por isso, que há diferença entre eles. O “porquê” nos remete ao passado, e o “para quê”, ao futuro.
Deus não abandonou Jesus. No seu grito humano de dor ele compreendeu o sentido de sua morte. Para a religião judaica, doenças e deficiências físicas eram consequências de pecado. Ele pôs um fim aos sacrifícios exigidos pelas lideranças no templo de Jerusalém com o objetivo de reparar (perdoar) pecados. Jesus entendeu, naquele momento, que Ele supera a tradição que relacionava pecado com sacrifício. Uma nova etapa da salvação começa com Jesus. Um futuro, um para que de um tempo novo.
Em relação à nossa vida, quando deparamos com morte de alguém que amamos, a tendência é perguntar pelo “porquê” da morte. São perguntas sem respostas. Eu podia ter sido mais cuidadoso com ele ou ela? Eu podia ter perdoado e recebido o perdão? Eu podia, mas não posso mais! Quem muda a pergunta e diz “para que” se lança para o futuro. Não mais justifica a morte, mas dá um novo sentido para ela. Era o seu momento. Jesus, na hora da morte, com o seu grito, entendeu que a sua morte era redentora, salvaria muitos, levaria muitos para a casa do Pai, até ladrões convertidos. Por isso, Jesus morreu entregando o espírito e acreditando que tudo estava consumado. A 1Cor 15,55, refletindo sobre a morte de Jesus, escreveu: “Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?” Aguilhão, uma vara pontiaguda para guiar os bois, significa, nessa passagem, pecado. Jesus vence a morte como consequência do pecado. Ele rompe com a religião judaica. Desse modo, a morte deixa de ser negativa. E foi assim que entendeu São Francisco de Assis (1181-1226 E.C.), na longínqua Idade Média, a morte, quando a chamou de irmã morte. Como criatura de Deus, para São Francisco, a morte faz parte de nosso viver. [4]
No jogo da vida, as cartas mudam de posição. Os mortos, contemplando a Deus, nos veem de outra forma, em outro tempo, em outro modo de amar. Para os mortos, o nosso tempo deixa de existir. Já o tempo dos vivos se resume em viver a dor do luto. Passar pelo luto para romper o tempo da morte é fundamental. Fechar o luto com fé na ressurreição para se abrir ao amor de quem partiu, de modo que o amor dele permaneça unido a nós como teias de fios que se entrelaçam, invisivelmente, na eternidade do tempo; como uma borboleta que sai do casulo/corpo, que nos unia fisicamente, para estar em todos os espaços e tempo, espalhando o amor. O olhar de quem morre atravessa o tempo e o espaço, pois eles pertencem ao tempo de Deus.
A morte! A morte faz parte da finitude de nossa vida. A vida é uma arte, um eterno rodízio do nascer e morrer. Uns vão e outro vêm. E a vida continua o seu curso. A morte, no entanto, é o princípio de sabedoria para quem entendeu o seu sentido. Entenda isso, como São Francisco, e a dor da morte natural vai ser mais amena, vai passar. Receba-a como irmã morte, quando a sua hora chegar. No entanto, na marcha da vida, nunca diga sim à morte que vem das guerras e das injustiças sociais. E serás um bem-aventurado!
[1]Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (PIB). Professor de Exegese Bíblica há três décadas. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Professor de exegese bíblica EaD e no Seminário Sagrado Coração de Jesus. Referência no Brasil na pesquisa da literatura apócrifa do Segundo Testamento. Autor de treze livros e coautor de dezessete. Oferece curso on-line sobre a Bíblia Apócrifa. Disponível em: www.bibliaapocrifa.com Última publicação: Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento. Canal no Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ No Instagram e Tiktok @freijacir
[2] Suetônio, Vida de Nero 6.16.
[3] Tácito, Anais 15.44-2-8.
[4] Para compreender o sentido da morte, permita-me sugerir o meu livro: FARIA, Jacir de Freitas. O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte. Petrópolis: Vozes, 2019.
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Frei Jacir de Freitas Faria: Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de doze livros e coautor de dezesseis. Publicou recentemente Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento sobre a infância de Jesus, Maria, José, Pilatos, apocalipses, cartas, atos etc.
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