Os Sete Caminhos das Comunidades Eclesiais em sua Experiência com o Ressuscitado | Reflexão sobre Jo 20,19-31

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Neste Segundo Domingo da Páscoa, a Liturgia no oferece o Evangelho de Jo 20,19-31. Esta perícope da Comunidade Joanina nos coloca no coração de sua experiência pascal. É imperativo nosso olhar sobre este texto na perspectiva de não apenas o entender, mas deixar que ilumine a vida concreta de nosso povo, especialmente os pobres, a quem amamos preferencialmente em nossas Comunidades Eclesiais de Base, nossas comunidades de vida e missão.

1. Medo, portas fechadas e realidade do povo


O Evangelho começa com os discípulos trancados “por medo”. Essa imagem fala muito às CEBs: comunidades muitas vezes cercadas pelo medo — da violência, da perseguição, da exclusão social, das incertezas da vida. As “portas fechadas” também representam estruturas que impedem a vida: desigualdade, injustiça, sistemas que geram morte.


Contudo, é exatamente nesse espaço de medo que Jesus entra. Ele não espera que a comunidade esteja pronta ou forte — ele vem ao encontro dela como está. Cheia de dor. Marcada pela violência e decepção em ter testemunhado a morte do Messias.

2. “A paz esteja convosco”: dom e compromisso


A saudação de Jesus não é apenas um consolo espiritual. Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, “paz” (shalom) significa vida plena, dignidade, justiça. É um projeto.


Para as CEBs, essa paz é tarefa: construir relações novas, lutar por direitos, promover a vida onde é negada, ameaçada pelos poderes de morte. A paz de Cristo não aliena — ela mobiliza.

3. As marcas da cruz: memória dos crucificados da história


Jesus mostra as mãos e o lado. Ele ressuscita, mas não apaga as marcas da violência. É preciso fazer memória do sofrimento para que não se caia nas armadilhas do poder. Um povo sem memória, é um povo sem história. Olhando o caminho percorrido, tendo vivas as marcas das violências históricas, podemos construir um projeto de mudança e superação, a partir do Evangelho de Jesus.


Isso é profundamente significativo para as comunidades populares: o Cristo ressuscitado se identifica com todos os “crucificados” da história — os pobres, os marginalizados, as vítimas da injustiça.


As Comunidades Eclesiais de Base reconhecem nessas chagas os sinais das dores do povo. A ressurreição não nega o sofrimento, mas o transforma em esperança.

4. “Como o Pai me enviou, eu também vos envio”


A comunidade não é chamada a se fechar, mas a ser enviada em missão. Na identidade das Comunidades Eclesiais de Base, isso é central: cada membro é missionário. Não há separação, não se cultiva privilégios. Todos participam da missão. Somos todos missionários e missionárias do Evangelho da Vida, chamados e chamadas a transformar a realidade a partir dos Valores do Reino.


É uma Igreja em saída, comprometida com a realidade, inserida no meio do povo.

5. O sopro do Espírito: força para a caminhada


Jesus sopra sobre os discípulos. É uma nova Criação.


Para a Leitura Popular da Bíblia, o Espírito é a força que anima a organização popular, a resistência, a solidariedade. É o Espírito que sustenta as pequenas comunidades em sua caminhada, mesmo diante das dificuldades.

6. Tomé: a dúvida como caminho comunitário


Tomé representa aqueles e aquelas que não conseguem acreditar facilmente — e isso também faz parte da vida das comunidades. Nas Comunidades Eclesiais de Base, há espaço para a dúvida, para o questionamento, para o processo. A fé não é imposição, mas construção coletiva. E um detalhe importante: Tomé só faz a experiência de fé quando está novamente com a comunidade. Na comunhão fraterna, as fragilidades se fazem força. A fé nasce e cresce na convivência comunitária.

7. “Felizes os que não viram e creram”


Essa bem-aventurança aponta para as gerações futuras — como as Comunidades Eclesiais de hoje. Crer sem ver não é alienação, mas compromisso com um projeto de vida baseado na esperança. É acreditar que outro mundo é possível, mesmo quando os sinais parecem contrários.

Conclusão


Jo 20,19-31 revela uma comunidade frágil, com medo, cheia de dúvidas — mas visitada por Jesus e transformada em comunidade missionária. Esse texto espelha a caminhada das Comunidades Eclesiais de Base: partem da realidade concreta, fazem experiência mistagógica da Palavra em comunidade, reconhecem Jesus presente no meio do povo, e se colocam em missão para gerar vida.

Assim, a ressurreição não é apenas um fato do passado, mas uma experiência que continua acontecendo hoje, nas pequenas comunidades que resistem, celebram e lutam pela vida.


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