A fé cristã diante do desafio contemporâneo da subjetividade | Artigo de Solange Maria do Carmo

Resumo


O mundo atual, tão multirreferencial, não oferece mais ao indivíduo as balizas da vida, os valores a assumir. Essa liberdade abre perspectivas para o indivíduo se construir, obrigando-o a um árduo trabalho de elaboração da própria identidade, numa verdadeira fidelidade a si mesmo. A liberdade se tornou a maior obrigação do contemporâneo, que, como um barco à deriva, precisa descobrir os caminhos de volta para sua própria identidade em meio a um mar aberto de possibilidades. Teria a fé cristã algo a contribuir nesse processo de construção da interioridade? A força da fé cristã poderia ser integradora e geradora de subjetividade? Qual a tarefa das pastorais neste cenário? Elas podem favorecer a afirmação do indivíduo ou elas levam à alienação e à negação de si mesmo? Partindo de estudos de autores como Denis Villepelet e André Fossion, esse artigo quer mostrar como a fé cristã pode contribuir neste processo e como as pastorais têm um longo caminho pela frente.   Palavras-chave: interioridade, subjetividade, identidade, desafio, pós-modernidade.

Introdução

O mundo virou “terra incógnita”, afirma Denis Villepelet, catequeta francês (2005, p. 138). As mudanças são tantas e tão profundas que já não deciframos mais a realidade. A sociedade tornou-se complexa e exige explicações variadas. Não vivemos mais naquela sociedade tradicional, em que os valores e os costumes eram transmitidos de geração em geração, tampouco pertencemos àquela sociedade evolutiva, na qual a razão norteava as escolhas e possibilitava projeções quase certeiras. Atualmente, o mundo se apresenta multirreferencial, sem uma coluna vertebral que garanta sua estabilidade. Mas, apesar de sua instabilidade, ou seja, de seu caráter de crise, a sociedade contemporânea não se desfalece, não se desfaz, não despenca. Sua instabilidade já se tornou o garante de sua normalidade. Como bem lembra Gruen, “é a normalidade da crise, unindo dois conceitos que pareciam contraditórios” (2004, p. 385). Um estado de crise foi configurado e não exige outro estado mais estável e seguro, obrigando os indivíduos a uma constante mudança, à mesma dinamicidade que a própria sociedade experimenta. Esse estado permanente de crise da sociedade não pode amedrontar nem ameaçar o cristão, mas desafiá-lo a viver com esperança, na fidelidade a Jesus Cristo, exercendo seu papel no mundo. Animados pelo Verbo que se fez carne, nós cristãos assumimos nossa história com seus limites e possibilidades. Daí a necessidade das pastorais que se projetam para além do âmbito eclesial: as chamadas pastorais sociais e de fronteira. A partir da fé cristã, lançamos sobre a sociedade atual um olhar misericordioso, empático e benevolente, para ser presença transformadora, como fez e faz o Deus de Jesus Cristo. Sem conhecer essa nova configuração social, seus valores e desafios, não haverá pastoral que seja eficaz.


Uma sociedade com nova gramática existencialSão tantas e tais as mudanças que podemos afirmar que a sociedade se configura a partir de uma nova gramática existencial (Villepelet, 2005, p. 138). Não são mudanças apenas no campo tecnológico, nem no âmbito organizacional, nem apenas mudança de valores que regem os indivíduos e suas escolhas. Trata-se de um novo modo de sentir, de amar, de se posicionar diante das realidades, de perceber a existência. As nossas relações com o mundo das coisas e das pessoas mudaram. É o que chamamos de mudança de época . Uma nova gramática existencial simbólica se implantou; tomou forma um novo código existencial que direciona nossa maneira de pensar, de agir, de amar, de trabalhar, de nos divertir, de formar família, de ter filhos, de fazer projetos, de viver a fé mas também a sexualidade, de criar laços de pertença. Vejamos algumas dessas mudanças.


A relação com o tempo“Tudo anda depressa demais”, dizem alguns. “Estou cansado de urgências”, reclamam outros. De fato, são muitas as urgências: pagar as contas – o que implica em horas a fio de trabalho fatigante –, gerir a vida pessoal, tecer relações, divertir-se, atualizar-se… Corremos para lá e para cá sem tempo para recolher as lembranças do passado, para fazer anamnese, ajuntar os retalhos da memória e costurar o tecido de nossa existência. Nossa história pregressa está cheia de rombos, deixando marcas no tempo presente. Na correria, sem o fio condutor da memória, vemo-nos sem recursos para projetar o futuro, antes tão cheio de possibilidades e esperanças. Vivemos num ritmo frenético que nos obriga ao presentismo. Num piscar de olhos, o passado ficou no esquecimento. E o futuro, afirmou a poetisa Wislava Szymborska, esse é tão estranho: “quando pronuncio a palavra futuro, a primeira sílaba já se perde no passado” (2001, p. 107). O tempo! Sempre fugidio, escapulindo das mãos como água e denunciando a fugacidade da vida. Sopro, vento, vaidade… tudo é vaidade, diria o Eclesiastes. Hoje se é jovem, viril, forte… Num cochilo da tarde, tudo se desfaz, e acordamos velhos, pesados e doentes. Importa, pois, viver o presente, pensam os contemporâneos, sorvendo até a última gota de prazer e emoção que ele oferece, pois o amanhã é totalmente incerto e não haverá outra chance. 


A relação com o espaçoNossas cidades ganharam nova configuração. Não habitamos mais em vilas ou cidades isoladas e longínquas umas das outras. Vivemos em espaços ramificados; as cidades se intercomunicam, de tal forma que nem sempre sabemos onde termina uma e começa a outra. Formou-se uma rede de vias (por terra, por água, pelo ar) que ligam os espaços e põem as pessoas em movimento. A mobilidade tornou-se um valor de suprema importância, capaz de agregar multidões. É só alterar a passagem dos ônibus urbanos e a população reage. A ordem é deslocar-se! É preciso permitir o deslocamento na grande aldeia global que se tornou o mundo. As fronteiras – apesar de demarcadas – estão cada vez mais comunicantes e possibilitam entrada e saída não somente de pessoas, mas também de informações, de tecnologia, de produtos diversos, de culturas . E não se trata só de deslocamento geográfico, mas também de deslocamento virtual. Como afirmou María Gabriela Rebok,

O espaço tem se miniaturizado e liquefeito; a globalização não conhece fronteiras. O tempo tem se tornado fagocitante simultaneidade, alimentado pelo fenômeno push, a atualização permanente devido ao smartphone. O longo alento da história é devorado pela velocidade (Rebok, 2014, p. 71).

As redes digitais – como o próprio nome já indica – formam uma teia comunicacional que diminui os espaços e faz tudo ficar mais rápido. O espaço foi virtualizado  e o tempo relativizado.


A relação com os outrosAté pouco tempo atrás, nossos laços sociais eram definidos pelos espaços de convivência nos quais estávamos inseridos: grupos de vizinhos, amigos, parentes, colegas de trabalho ou de escola etc. Os laços de trabalho se afrouxaram; a trama familiar perdeu os nós da obrigação e se reconfigurou. Também os vizinhos não se conhecem mais e mal se cumprimentam no elevador. Muitas pessoas construíram suas vidas fora da terra natal e, nas grandes cidades, todos se tornaram desconhecidos. Até as relações comerciais, que eram geradoras de outras relações, ficaram comprometidas. Já não se vai mais ao mercadinho fazer compras, nem se vai à livraria onde se conhecia o livreiro. Na palma da mão, desabrochou um mundo de possibilidades por meio dos aparelhos celulares, potentes minicomputadores que nos conectam a pessoas de todo o planeta, permitindo desde fazer compras até estabelecer relações amorosas. Cresce vertiginosamente o número de adeptos de sites de relacionamentos, por meio dos quais as pessoas procuram amizade, amor, sexo ou simplesmente companhia. Um admirável mundo novo veio à luz . Ou, parafraseando Saramago, “é mais do que um clique, é talvez um segredo” .


A relação com as instituições

Fragilizaram-se as relações sociais, mas não só elas: tornou-se tênue e precária a relação dos indivíduos com as instituições. Multiplicaram-se os organismos institucionais levando à derrocada organizações estáveis e de bases solidificadas, antes hegemônicas. Todas elas, outrora transmissoras das normas e dos costumes, agora são questionadas e suas orientações postas em xeque, pois ficou comprovada sua provisoriedade. Músicas como “Que país é este?” do grupo Legião Urbana, ou “Deturpação Divina”, do irreverente grupo Mukeka di Rato, mostram que instituições como a igrejas históricas, a família, a escola e o estado influenciam cada vez menos seus membros. Os laços de pertença – certeiros e estáveis – passaram a se configurar tomando como base interesses comuns. A pertença foi redimensionada a partir das afinidades; os vínculos institucionais não são mais transmitidos de pai para filho ou por meio da cultura, de uma forma quase “hereditária” como já foi um dia. Na contemporaneidade, muda-se de instituição quando o interesse  muda de foco.


A relação consigo mesmo

A fragilização dos laços de pertença e a possibilidade de comunicação com todas as pessoas e culturas oferecem elementos suficientes para uma vertigem existencial. É fácil ficar tonto e perder-se no emaranhado de possibilidades abertas, afinal não há mais um chão cultural e simbólico capaz de fornecer pistas para encontrar a própria personalidade. A identidade  simbólica dos indivíduos encontra-se ameaçada; não por um modelo cultural que se imponha hegemônico, mas exatamente pelo contrário: pelo excesso de possibilidades. A multirreferencialidade desnorteia, deixa-nos atônito, e faltam balizas que nos guiem na construção de nossa subjetividade. Não existe mais um mínimo múltiplo comum que unifique a equação da existência dos humanos, possibilitando o bem viver. Viver tornou-se um mistério ainda mais insondável que em tempos idos, uma aventura ainda mais perigosa do que sempre fora. Como disse Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso” (2001, p. 41). 


A construção da subjetividade

Uma vez fragilizadas as instituições, perdeu-se o que antes era dado ao indivíduo como matéria prima para a construção da subjetividade. Ser sujeito é uma obra que precisa ser descoberta, precisa ser reinventada… Cada indivíduo é um mundo de possibilidades a serem experimentadas.


Em busca de si mesmo

Não poucos autores têm se empenhado em rotular nossa sociedade de narcísica . Mas o que esse narcisismo indica? Não apontaria para a urgente necessidade de identificação imposta pela nova gramática da existência? Num universo de laços de pertença afrouxados e de relações interpessoais fragilizadas, sobra uma “incerteza identitária”  (Villepelet, 2001, p. 36). Sem a matriz da instituição, que formata o indivíduo, e sem o rosto do outro, que delineia as identidades, resta olhar para a própria imagem à procura de si mesmo. Nessa areia movediça, o que se sente, o que se deseja e o que se experimenta tornam-se as seguranças possíveis e transformam-se em indicativos do caminho a tomar. “Ah, se ao menos eu pudesse sentir! É a proposição do desespero contemporâneo, que advém depois de ter experimentado tudo, em vertigem e convulsão”, afirma José Tolentino Mendonça (2016, p. 15). O compositor Arnaldo Antunes retratou essa primazia das emoções na sociedade atual com sua canção: “Socorro, não estou sentindo nada. Nem medo, nem calor, nem fogo […] Já não sinto amor nem dor, já não sinto nada […] Qualquer coisa que se sinta. Tem tantos sentimentos. Deve ter algum que sirva. Qualquer coisa que se sinta. Tem tantos sentimentos. Deve ter algum que sirva”.  Mas, se por um lado, as próprias emoções e desejos sinalizam o caminho na construção da própria identidade, podem também nos introduzir num labirinto sem o fio de Ariane. Construir a própria identidade é tarefa que se impõe, mas sempre cheia de riscos. E “a busca de identidade não tem nada a ver com a busca tresloucada de si mesmo no próprio reflexo. [Ao contrário], “a figura narcísica da individualização atiçada pelas miragens publicitárias do consumo é a figura decadente e servil desse desafio da identidade” (Villepelet, 2001, p. 36). A identidade não se coaduna com o narcisismo, mas com a tarefa imperiosa de ser si mesmo, com a capacidade de se manter e de perdurar nesse mundo de trocas e intercâmbios.


A obrigação de construir-se

Se o que somos não nos é mais dado, resta-nos a obrigação de nos afirmar. Fomos assaltados pela liberdade e tomados pela obrigação de nos construir, de nos tornar atores de nossa própria existência. A procura da identidade, ou seja, o ser sujeito da própria vida não se apresenta como opção, mas como um imperativo; a liberdade tornou-se uma obrigação. Nas sociedades marcadas pelo pluralismo, o indivíduo pode e deve escolher sua identidade, pois essas sociedades plurais não definem mais a identidade do indivíduo como as sociedades anteriores (Luckmann, 1967). Ou o indivíduo se procura e edifica sua própria existência, ou se estilhaça sob a tensão contínua das partes que o reclamam. O contemporâneo vive a fadiga de ser ele mesmo. Sabe, por experiência, que cada personalidade tem seu próprio caminho; cada identidade tem um percurso singular. Desse trabalho sobre si, o indivíduo tira referências para ser e estar no mundo, efetuando sua própria personalização. É preciso “escolher e construir seu quadro de referências para se situar em um universo multirreferencial” (Villepelet, 2002b, p. 10). E isso só pode ser feito “desde dentro”. O pós-moderno se vê “na obrigação de se construir, numa verdadeira fidelidade a si mesmo” (Villepelet, 2009a, p. 64). Uma identidade confiávelConstruir a identidade pessoal  é algo fatigante e penoso. Trata-se de assumir a própria singularidade, delinear a individualidade, encontrar a unidade, demarcar as diferenças, tornar-se sujeito de si.

Tornar-se sujeito é tomar gosto pela vida, com suas possibilidades próprias e seus limites, seus convites e suas agonias; é aprender a suportar sua própria conflitualidade para fazer disso alguma coisa. É aproveitar o que a vida lhe oferece, a despeito de suas fragilidades e de sua inconsistência (Villepelet, 2008b, p. 8).

Essa construção diz respeito a todo o ser do indivíduo e não só à sua afetividade; refere-se à definição de sua vida como pessoa. “Trata-se de ser fiel a si mesmo, à sua própria singularidade, sem alienação, sem culpabilidade, mas também sem ilusão” (Villepelet, 2005, p. 144). O contemporâneo não visa ao heroísmo, como o homem moderno, nem à santidade, como o homem tradicional, mas à autenticidade (Villepelet, 2003a, p. 26-27) . “Trata-se de encontrar para si uma identidade que não seja fútil” (Villepelet, 2005, p. 143). 


A potencialidade da fé cristã

No árduo processo de identificação, a fé cristã tem muito a contribuir. Como afirma André Fossion, “no mundo secularizado de hoje, a fé cristã, radicalmente desnecessária, pode ser experimentada como radicalmente preciosa” (Fossion, 2015, p. 160). Ela dá a conhecer o amor excessivo de Deus e enche a vida de “motivos suplementares de gratidão, de engajamento e de alegria”, transfigurando-a (Fossion, 2015, p. 17). 


Um amor sem medidas

Se tem algo que Jesus nos revelou foi o amor desmedido de Deus. Toda sua vida foi ensinar e mostrar que Deus ama, ainda que dispensemos seu amor. Ele amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho (Jo 3,16) e Jesus amou até a assíntota da vida entregue na cruz (Jo 13,1). Amando assim, chamou a humanidade ao melhor de si; convidou-a ao êxodo do egoísmo para a vida fraterna; mostrou-lhe com sua própria vida que o amor é caminho de humanização. Mesmo quando desprezado, rejeitado e entregue nas mãos dos inimigos, Jesus não usou de violência, não cedeu ao desejo de vingança. Ao contrário, venceu-a amando e perdoando os que o perseguiram e o levaram à morte. No excesso do mal, ficou visível o excesso de amor, de graça, de misericórdia e de ternura. 


Saber-se amado

Ainda que o reconhecimento explícito de Jesus não seja necessário para que se experimente a vida em plenitude, para que se construa uma vida alegre, autêntica e com sentido, a fé cristã é radicalmente preciosa. Ela não é condição para ser amado por Deus, para ser beneficiado por sua graça, nem para ser associado a seu mistério salvífico, mas ela possibilita assumir esse amor, tomar posse dele, verbalizá-lo, deixá-lo explícito. Saber-se amado por Deus, experimentar seu amor em Jesus Cristo, abrir-se para acolher a oferta generosa do amor divino revelado em Jesus de Nazaré, pode mudar completamente a vida de alguém. A proposta do seguimento de Jesus dá razões suplementares para se viver integrado, feliz e de bem com a vida. A experiência do encontro com Deus em Cristo transfigura a vida. “Ela é como a pérola rara do Evangelho. Pode-se viver sem ela, diz André Fossion, mas uma vez encontrada, torna-se o bem mais precioso” (2015, p. 31). A fé cristã não acrescenta a graça, mas o reconhecimento dela. Não acrescenta o amor, mas fá-lo ser assumido de forma radical. Ela traz motivos suplementares de força, de vontade de viver. Ela é da ordem do “ainda mais”, do “mais razão ainda”, afirma o jesuíta belga (2015, p. 32). Se há motivos para construir uma identidade confiável, uma vida autêntica, “ainda mais” quando nos sabemos amados por Deus em Jesus Cristo. O amor divino nos interpela a uma vida integrada e nos capacita na laboriosa tarefa da construção de nossa subjetividade.


A interiorização da fé

Quando alguém se deixa interpelar pelo amor generoso de Deus revelado em Cristo, desencadeia-se a interiorização da fé. Por interiorização, entende-se a apropriação da fé de modo pessoal. Ela é um processo interior vivido pelo crente que põe à sua disposição suas reservas íntimas de energia, antes dantes desconhecidas. Para Agostinho de Hipona, a experiência do encontro com Deus não se dá em outro lugar a não ser no íntimo do coração: “Entrei no íntimo de meu coração sob a tua guia, e o consegui, porque tu te fizeste meu auxílio. Entrei e, com os olhos da minha alma, acima destes meus olhos e acima de minha inteligência, vi uma luz imutável” (Conf. VII, 10, 16). Ou, nas palavras do catequeta Villepelet, Deus “é intimo ao coração e não se revela ao homem senão nas profundezas de sua interioridade” (Villepelet, 2008b, p. 9).A interiorização da fé cristã potencializa, cria disposição, interpela o indivíduo que crê à autenticidade. A certeza de um amor nunca desmentido, de uma fidelidade sem reservas e de uma esperança que não se acaba são vetores de humanização. A consciência de ser absolutamente amado, diz Gagey, transfigura a vida (1999, p. 11). Assumir pessoalmente o amor de Deus, aceitá-lo como oferta gratuita, gera a obrigação imperiosa de construir para si a própria singularidade. Sem ela, não é possível ser fiel a ele, não é possível aprofundar a relação. Aquele que ama com a máxima verdade interpela o amado a ser verdadeiro no amor, a viver sem máscaras, sem interpretar papéis. O amor de Deus, oferecido como dom, não dispensa o sujeito de afirmar seu “eu” e de ter a si mesmo, ou seja, sua consciência, como instância de decisão. Ao contrário, o amor divino capacita o indivíduo a ser si mesmo, pois lhe ajuda a conhecer suas habilidades e potencializa suas forças para desenvolver suas habilidades. Ao responder com firmeza ao convite de Deus, ao entrar na dinâmica da aliança realizada em Cristo, o crente descobre um tesouro inesgotável. Reservas de amor, de esperança, de coragem e de liberdade são liberadas. O indivíduo que se sabe amado incondicional e pessoalmente, este se afirma como pessoa. Ele “pode amadurecer porque sentiu que existe como pessoa diante de Deus (VILLEPELET, 2007, p. 51). Pouco a pouco, apropria-se da identidade de filho, pois foi adotado em Cristo. O amor desmedido de Deus dá à luz uma criatura, mais livre, mais autêntica, mais inteira. O encontro com Jesus coloca em movimento um processo curativo, que a afeta até o mais profundo de seu ser. Deus cura o ser humano cura do mal humano mais profundo e não somente realiza umas curas ou milagres que acontecem a partir de fora. A interiorização da fé traz à tona a singularidade do sujeito. Acolher a fé cristã possibilita entender a própria vida como dom, porém inacabado. Ajuda a aceitar a vida como graça que se oferece a cada instante e a assumir responsavelmente a tarefa de ir se construindo a si mesmo, em nome do amor que Deus oferta em Cristo. 


A força humanizante da fé

O encontro com Jesus Cristo é algo transformador. Não se contempla tanto amor e tanta ternura, sem se deixar impactar por eles. A experiência do amor é sempre reconstrutora, reintegradora… O amor cura as feridas, refaz as forças, reagrupa os cacos da existência. Um olhar de ternura devolve a esperança, elimina o desespero, faz acreditar numa vida com sentido. Por isso, não é possível beber na fonte do Ressuscitado sem se deixar revigorar pela água viva do seu amor. Villepelet e Lacroix insistem: “O amor incomensurável de Deus pode tornar-se Palavra-energia para viver” (LACROIX; VILLEPELET, 2008, p. 31). Monserrat propõe anunciar a mensagem de Jesus frente à inquietude existencial como força para superar a angústia do sofrimento (2014, 607-611) e afirma que o mistério de Cristo é o ponto de partida da dignidade humana.O que a experiência cristã tem mostrado é que cada pessoa, interpelada por Deus, pode acolher sua palavra no profundo de si mesmo como uma palavra que faz viver. Deus dirige, graças ao seu amor infinito, uma palavra vivificadora àquele que o acolhe. Impelida pela Palavra de Deus, a pessoa se reconhece na sua particularidade e se reinterpreta; reelabora suas angústias e redescobre força para viver. Do confronto com o Ressuscitado, inicia-se uma atividade construtora e desconstrutora. Deus revela seu amor em Jesus Cristo; esse amor desconserta, desinstala e provoca um deslocamento em quem o aceita. “O evangelho libera uma experiência humanizante que integra o indivíduo nas tensões que ele deve assumir para viver” (VILLEPELET, 2008a, p. 394). Na acolhida do evangelho de Jesus, tem início um novo modo de se perceber no mundo, de relacionar com as coisas e as pessoas; brota um novo modo de sentir a vida, de compreender os dramas da existência, de saborear o instante, de reler o passado, de projetar o futuro… Normalmente, dizemos que a pessoa passa a possuir uma espiritualidade: uma força interior  capaz de redimensionar sua vida.O amor de Deus revelado em seu Filho mostra-se como grande aliado na construção do sujeito . A experiência de Deus possibilita ao cristão transitar no ambiente da espiritualidade sem receios. “A fé cristã é uma experiência humanizante : torna possível uma dinâmica de crescimento espiritual que mediatiza o tornar-se sujeito” (VILLEPELET, 2008b, p. 8). Ou ainda: “Longe de desapossar o sujeito de sua busca de liberdade e do longo trabalho que lhe incumbe, a adesão a Cristo representa uma verdadeira segurança, porque a fé é uma experiência humanizante […] que mediatiza o amadurecimento do sujeito” (VILLEPELET, 2007, p. 49).A fé cristã afirma que Deus fala a linguagem humana e se dirige a cada um em primeira pessoa. Esse diálogo na primeira pessoa é promotor de subjetividade.

Nascendo como sujeito, desenvolvendo sua base pessoal, experimentando-se ele mesmo como ator de sua própria vida, incluindo aí seus próprios impedimentos, reconhecendo seus recursos e seus pontos vulneráveis, o indivíduo sai da sujeição e aumenta seu próprio crédito de confiança e sua capacidade de abertura à alteridade: ele desenvolve sua aptidão de confiar (VILLEPELET, 1998, p. 116).

A experiência cristã de Deus coloca em suspenso uma vida fragmentada e sem referências, ao mesmo tempo em que incentiva e proporciona a construção de uma vida nova. As pastorais das igrejas cristãs deveriam ter como prioridade a transmissão dessa experiência humanizadora, especialmente no que diz respeito aos grupos mais vulnerabilizados e subalternizados. O cuidado com essas pessoas deixando-as ser o que são, sem violência simbólica, sem sectarismo, sem proselitismo, entrando num espaço dialogal de troca respeitosa, é o segredo da pastoral hoje.


Considerações finais

Certamente a compreensão da fé cristã como força humanizante não é algo novo na teologia. Desde as origens da Igreja, a acolhida do evangelho se mostrou como dynamis, capaz de mudar os caminhos e reintegrar as vidas. Ao longo da história, registramos testemunhos fortes de homens e de mulheres que se redescobriram e reinventaram sua história a partir do encontro com o Ressuscitado. Além dos discípulos e discípulas dos Evangelhos, lembramos Agostinho de Hipona, Francisco de Assis, Inácio de Loyola, Teresa de Ávila, Edith Stein e tantos homens e tantas mulheres que se reinventaram a partir da fé.O que se apresenta novo, certamente, é a urgência do investimento de recursos nesse processo. A sociedade contemporânea, diversificada e multirreferencial, deslocou as referências de fora para dentro do indivíduo, obrigando-o ao árduo trabalho da construção de uma identidade confiável. Ou o indivíduo constrói para si uma interioridade ou fica desbussolado, à deriva, sempre ao sabor das intempéries da vida. A construção da subjetividade, entendida como um desafio da pós-modernidade, não intimida a fé cristã. Ao contrário, incita-a a mostrar toda sua força na ação pastoral. 

Referências

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Notas


1  A maioria dos autores prefere hoje falar em mudança de época que em época de mudança (cf. AMADO, 2008; AMADO, 2010). A CNBB trabalha com o conceito mudança de época, que já aparece nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB (DGAE 2008-2010; 2011-2015).


2 Causa estranheza num mundo que pede mobilidade e movimento, a decisão do atual presidente dos USA, Donald Trump, de construir muralhas, demarcar com cercas as fronteiras, expulsar estrangeiros ilegais do país. Reações surgem de toda parte do mundo. Protestos, manifestações, declarações diversas tentam mostrar a insensatez de tal coisa. Mas, para um país que se entende um império, ainda resta a ilusão de viver em autarquia, sem precisar de mais ninguém, sem construir relações de troca, de ajuda, de intercâmbio.


3 Nem por isso ele é menos autêntico, alienado, falso ou aparente. O espaço virtual é uma extensão de nosso espaço vital cotidiano e exige de nós responsabilidade e compromisso com a verdade (SPADORO, 2014, p. 23).


4  Expressão do escritor inglês Aldous Huxley e título de sua obra, publicada em 1932.


5 Na íntegra: “É mais que um rio, é talvez um segredo” (SARAMAGO, 1985, p. 26).


6  A palavra interesse aqui não tem conotação moral. Não se trata de acusar a contemporaneidade, apenas de perceber suas mudanças. O termo interesse se refere ao que desperta desejo, pois tem relevância, importância ou utilidade para o indivíduo.


7  Charles Taylor dedica sua obra Les sources du moi a investigar a identidade do indivíduo moderno (1998).


8  Como é o caso do americano Cristopher Lash, autor de diversas obras, inclusive algumas publicadas em português: “A Cultura do Narcisismo”, “O Mínimo Eu” e “Refúgio num Mundo sem Coração”.


9  Diante da “incerteza identitária”, não raras vezes, jovens se enveredam por ideologias radicais. As instituições fechadas e avessas ao exercício da liberdade, que impõem regras e demarcam a vivência da fé de forma muito rigorosa (inclusive dentro do cristianismo), parecem-lhes barcos salva-vidas. Não sabem que justamente ali mora o perigo; é barco pirata, sempre pronto para saquear, roubar e matar o que sobrou do naufrágio. Aos olhos dos desavisados, a pseudo-segurança de um grupo radical apresenta-se como a salvação do não-sentido, da desorientação existencial. Mas, certamente, o caminho seguro é bem outro. Nota nossa!


10  Para Luckmann, nas sociedades marcadas pelo pluralismo, o indivíduo pode e deve escolher sua identidade, pois essas sociedades plurais não definem mais a identidade do indivíduo como as sociedades anteriores (LUCKMANN, 1967).


11  Apesar de haver diferenças notáveis entre o olhar de Gonzaléz Faus e o do catequeta Denis Villepelet sobre a pós-modernidade, ambos concordam com a busca de autenticidade do homem pós-moderno. Afirma o teólogo espanhol: “A pós-modernidade clama: ‘Quem me vende um pouco de autenticidade?’” (1996, p. 75).


12  José Tolentino Mendonça identifica a espiritualidade com a vida interior, quando diz que não há melhor sinônimo para espiritualidade que a palavra interioridade (2016, p. 9).13  O jesuíta Uríbarri fala de Deus como aliado do bem-estar psicossocial (URÍBARRI, 2003, p. 57).14  A fé cristã como fator de humanização é tese compartilhada por outros autores. Os bispos de Quebec, por exemplo, afirmam que a fé cristã é caminho de humanização integral (doc. 2004).

Colaborou: www.fiquefirme.com.br


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