Por Karina Moreti
As redes sociais estão cada vez mais ocupadas por vozes que querem ser ouvidas — e, muitas vezes, monetizadas. Já não se trata apenas de comunicação, mas de disputa por atenção. Nesse cenário, muitos se julgam autorizados a falar sobre tudo, inclusive sobre aquilo que desconhecem. E o fazem com convicção: falam alto, julgam rápido, condenam sem estudar — e, não raramente, sem compreender.
Não é difícil encontrar quem transforme opiniões em doutrina e vídeos em púlpito. Assim, nasce um fenômeno preocupante: um “magistério paralelo”, onde não há instituição ministerial e envio, não há comunhão, não há responsabilidade — apenas o eco de si mesmo. Ali, o achismo ocupa o lugar da verdade.
Todavia, a fé da Igreja não é fruto de opinião. Ela não nasce do improviso, nem se sustenta no aplauso. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica: “O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus… foi confiado somente ao Magistério vivo da Igreja”¹. E o Código de Direito Canônico reafirma: “Compete à Igreja, à qual Cristo Senhor confiou o depósito da fé, anunciar o Evangelho a todos os povos”². Ainda assim, em meio a esse ruído, repete-se com impressionante facilidade a acusação: “a Teologia da Libertação é heresia”. Palavra pesada. Julgamento sério. Infelizmente, na maioria das vezes, vazio de conteúdo.
Essa afirmação, repetida sem responsabilidade histórica ou teológica, ignora a dor que deu origem à Teologia da Libertação. Ignora povos inteiros marcados pela fome, pela exclusão e pela violência. Ignora o grito que sobe da terra — e que Deus escuta.
A Teologia da Libertação nasce exatamente aí: não de uma ideologia, mas de um clamor. É uma tentativa de levar a sério um Deus que declara: “Eu vi a miséria do meu povo… ouvi o seu clamor” (Ex 3,7). É o esforço de viver um Evangelho que não se contenta em ser anunciado, mas exige ser encarnado: “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Seu desenvolvimento ganha força a partir do Concílio Vaticano II, que afirma: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje… são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”³. E também da Conferência de Medellín, onde a Igreja latino-americana assume, de modo profético, a opção pelos pobres.
As Sagradas Escrituras testemunham essa verdade. “Ele faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa” (Dt 10,18). Os profetas denunciam sistemas que esmagam os pobres: “Fostes vós que devorastes a vinha, e o espólio do pobre está em vossas casas. Por que esmagais meu povo e pisais o rosto dos pobres?” (Is 3,14-15). E Jesus inaugura sua missão proclamando: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres” (Lc 4,18).
Quando se fala de contrapontos do Magistério à Teologia da Libertação, há que se pensar que a Igreja Mãe e Mestra. Não é uma juíza implacável, que tem como impulso primeiro condenar ao anátema. Caso essa fosse uma efígie possível de ser atribuída a ela, destoaria do próprio Deus, que abraça a todos e todas, como Pai acolhedor (cf. Lc 15,11-32). Quando o Dicastério para a Doutrina da Fé apontou possíveis equívocos, o fez para que se aprimorasse o caminho percorrido até aquele momento. Não se proclamou a extinção da Teologia da Libertação. O que aconteceu foi um convite a se retornar à sua Raiz Fontal: a Palavra de Deus. Com o devido aprofundamento Bíblico, esta teologia se sustentava com pilares inabaláveis: a Justiça e a Misericórdia! Tanto o Primeiro, quando o Segundo Testamento estão cheios destas verdades. Nosso Deus é um Pai que nos cuida, privilegiando a Vida, opondo-se a toda forma de ameaça que possa por a humanidade, e a dignidade que lhe é conferida, em risco. Iahweh é um Deus Libertador!
Ao passarmos da Antiga para a Nova Aliança, do Primeiro para o Segundo Testamento, Jesus confirma que seu Pai é amoroso e cuidador de seus filhos e filhas. A Igreja insiste nesta dimensão de amor e cuidado. Conclamando-nos a defender a vida digna para todos humanos e humanas, assim como, o bem da Casa Comum. Durante o pontificado de São João Paulo II, a Igreja exerceu seu discernimento. Orientou os teólogos a pensar e viver uma teologia comprometida com os vulneráveis, sem perder a transcendência. Quando o Dicastério para a Doutrina da Fé alertou: “A libertação é, antes de mais nada, libertação do pecado”⁴, aponta não à uma teologia moral – cheirando a moralismo – mas abre nossas mentes para entender que grande parte das exclusões que vivemos em uma sociedade injusta, descendem de pecado estrutural. Faz-nos um convite de compreender os males que afetam a humanidade não somente pelo olhar do século, mas com olhos fixos na transcendência. Era um chamado à fidelidade, não uma condenação do compromisso com os pobres. São João Paulo II reafirma com força: “A opção preferencial pelos pobres… não é exclusiva nem excludente, mas sim uma forma especial de primazia no exercício da caridade cristã”⁵. Mais tarde, nosso saudoso Papa Francisco nos exorta sobre a centralidade do pobre no Evangelho. Se assim o é na Palavra Revelada, igualmente deve o ser na Ação Evangelizadora. E não nos esqueçamos: São João Paulo II, ao dirigir-se aos bispos do Brasil, reconhece explicitamente: “uma teologia da libertação é não só oportuna, mas útil e necessária”⁶, ao mesmo tempo em que adverte para a necessidade de que essa reflexão permaneça enraizada na fé da Igreja, que se sustenta imensuravelmente na Palavra de Deus.
Gradativamente, amadurecendo ao longo dos tempos, a Igreja vem se descobrindo como anunciadora do Evangelho da Vida. Por isso, o Papa Francisco denunciou com clareza profética: “Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade’. Essa economia mata”⁶.
Após sua morte, em 2025, a Igreja foi conduzida a um novo momento de sua história com a eleição de Papa Leão XIV. Em continuidade com essa Tradição, o novo pontífice reconhece a riqueza da reflexão latino-americana ao afirmar que há “muitos estilos dentro dessa grande escola da Teologia da Libertação”⁷, destacando que ela nasce da capacidade de “ver as coisas através dos olhos dos pobres”. Reconhece que a Teologia da Libertação é uma grande escola.
Assim, longe de ser uma ameaça à fé, essa tradição teológica latino-americana, quando vivida em comunhão com a Igreja, torna-se espaço de discernimento e fidelidade ao Evangelho encarnado na história.
A verdadeira Teologia da Libertação não nasce do conflito, mas da encarnação. Ela não substitui a fé — ela a leva às últimas consequências. Recorda que não basta professar: é preciso viver. “Filhinhos, não amemos só com palavras, mas por atos e de verdade” (1Jo 3,18).
Chamar essa teologia de “heresia”, de forma leviana, é mais do que um erro: é uma injustiça. É desconhecer a história. É ignorar o Evangelho. É, talvez, silenciar o clamor dos pobres que Deus jamais ignora.
Porque, no fim, a pergunta permanece — e não poderá ser evitada: “Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9).
Notas
- CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 85.
- CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO, cân. 747 §1.
- CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes, n. 1.
- CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação, 1984.
- JOÃO PAULO II. Sollicitudo Rei Socialis, n. 42.
- JOÃO PAULO II. Carta aos bispos do Brasil, 1986.
- FRANCISCO. Evangelii Gaudium, n. 53.
- LEÃO XIV. Entrevista concedida a Elise Ann Allen. Crux, 2025.
Deixe um comentário