“Três Mitos do Dilúvio” | Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM – Biblista – é um velho conhecido de nosso blog. A quem agradecemos efusivamente sua colaboração. Sua contribuição para o conhecimento da Palavra de Deus muito tem significado para nossas comunidades. É Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze

Nesta publicação compartilhamos artigo, no qual, nosso célebre estudioso da Bíblia Canônica e Textos Apócrifos elucida muitas de nossas dúvidas sobre os relatos acerca do Dilúvio. Não perca essa oportunidade de se aventurar no universo bíblico.

Sem mais, boa Leitura!


Três mitos de dilúvio

Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Quando nos referimos ao termo dilúvio, logo nos vem à memória o relato bíblico de Gn 6, 5-9,17, o qual não pode ser visto como texto ímpar e tampouco compreendido isoladamente. Muitas outras culturas conservaram no imaginário coletivo a ideia de que o mundo fora uma vez recriado por uma divindade. E nisto consistiu a salvação da terra, animais e seres humanos. Não seria isto um modo encontrado para expressar miticamente a resistência aos opressores de várias épocas, bem como o modo ineficaz da relação ser humano com os outros seres criados e as divindades? Por isso, deuses intervêm e tudo destroem para reiniciar um novo tempo.

A Bíblia fala de destruição com água. O atentado sofrido pelos Estados Unidos, a grande potência, no memorável onze de setembro de 2001, não é um “dilúvio” moderno? Quem sempre oprimiu povos inteiros para se manter na soberania mundial se viu golpeado no âmago de seu poder militar e econômico.  

O dilúvio faz parte dos planos de Deus e dos deuses, como momento de purificação. É o que nos mostra os mitos de dilúvio babilônico, israelita e brasileiro indígena maxacali.

Epopeia de Gilgamesh

Gilgamesh, filho de Lugalbanda, foi um rei e herói legendário da Babilônia. Ele reinou na cidade-estado de Uruk por 126 anos, sendo o seu quinto rei. Gilgamesh, tendo vivido entre os anos 2750-2600 a.E.C., ficou conhecido por meio do lendário poema Epopeia de Gilgamesh. O poema faz referência a um dilúvio e o encontro de Gilgamesh com Utnapishtim, o herói imortal do dilúvio. Gilgamesh, rei inteligente, quase divino e grande opressor do seu povo, após ter lutado com um humano criado pelos deuses, Enkidu, e nem um dos dois ter vencido, ambos partem para uma viagem ao encontro do imortal e conhecedor dos segredos da vida eterna, Utnapishtim. Enkidu é morto pelos deuses. Gilgamesh se encontra com Utnapishtim, e este não lhe revela o segredo, mas lhe conta como tudo aconteceu com ele, da seguinte forma: 

Os deuses, instigados por Enlil, decidem em assembleia mandar o dilúvio sobre a terra. Diz o texto[1]: “Naqueles dias a terra fervilhava, os homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem. Este tumulto despertou o grande deus. Enlil ouviu o alvoroço e disse aos deuses reunidos em conselho: ‘O alvoroço dos humanos é intolerável, e o sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.” Os deuses então concordaram em exterminar a raça humana. Mas, Ea, fingindo falar com a parede, revela ao seu protegido, Utnapishtim, o projeto divino e exorta-o a construir um enorme navio para pôr-se a salvo com alguns escolhidos. Ea lhe diz: “põe abaixo tua casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco. Eis as medidas da embarcação que deverás construir: que a boca extrema da nave tenha o mesmo tamanho que seu comprimento, que seu convés seja coberto, tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a semente de todas as criaturas vivas. (…) Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus parentes, os animais do campo – os domesticados e os selvagens – e todos os artesãos”. Utnapishtim construiu, então, o barco e o carregou de ouro e prata. Juntamente com a sua família, o herói leva a bordo operários especializados, animais e feras. “Caiu a noite e o cavaleiro da tempestade mandou a chuva.(…) Por seis dias e seis noites os ventos sopraram; enxurradas, inundações e torrentes assolaram o mundo; a tempestade e o dilúvio explodiam em fúria como dois exércitos em guerra. Eles (humanos) flutuam no oceano como ovas de peixe. Na alvorada do sétimo dia o temporal vindo do sul amainou; os mares se acalmaram, o dilúvio serenou.” O dilúvio ocorreu como se fosse um terrível furacão, sob a intervenção dos deuses das tempestades, enquanto os outros deuses, espavoridos, retiram-se para o céu mais alto, e se agacham como cães chorando. O dilúvio durou sete dias. Utnapishtim abre a janela e chora contemplando a desgraça: toda a humanidade se havia transformado em lama. A nave parou sobre o monte Nisir (na Assíria) e aí permaneceu encalhada durante seis dias. Utnapishtim diz que: “Na alvorada do sétimo dia eu soltei uma pomba e deixei que se fosse. Ela voou para longe; mas, não encontrando lugar para pousar, retornou. Então soltei uma andorinha, que voou para longe; mas, não encontrando lugar para pousar, retornou. Então soltei um corvo. A ave viu que as águas haviam abaixado; ela comeu, voou de um lado para outro, grasnou e não mais voltou para o barco”. E ele continua: “Eu então abri todas as portas e janelas, expondo a nave aos quatro ventos. Preparei um sacrifício e derramei vinho sobre o topo da montanha em oferenda aos deuses”. Em torno ao sacrifício, os deuses se ajuntaram como moscas, pois sentem o perfume do mesmo. Ocorre uma disputa entre os deuses: a deusa Istar não quer que Enlil, principal responsável pelo dilúvio, tome parte do banquete sacrifical, ao passo que Enlil se enche de ira porque alguns homens escaparam do dilúvio, podendo, assim conhecer o segredo dos deuses. Ea, acusado de haver traído o segredo dos deuses, demonstrou a Enlil que sua maneira de agir, provocando o dilúvio, fora despropositada. E a Enlil restou somente a alternativa de fazer Utnapishtim um imortal, de modo que a sua maldição, a de que nenhum mortal sobrevivesse, se tornasse uma realidade. Utnapishtim foi morar, com sua família, longe dos deuses, na embocadura dos rios. Depois desse fato, a mulher de Utnapishtim, tomada de pena por Gilgamesh, lhe revela o segredo da imortalidade, que estava em uma planta sagrada do fundo do mar. Gilgamesh a recolhe, mas antes de tornar-se imortal ao comer o seu fruto, uma serpente marinha lhe rouba o tão almejado objeto. Gilgamesh, melancólico, espera a morte chegar, mas torna-se um herói entre os seus. 

Gn 6, 5-9,17

O texto bíblico é longo e muito conhecido. Resumidamente é o seguinte:

Deus decide fazer um dilúvio porque a maldade no mundo era muito grande. Ele escolhe um homem íntegro, chamado Noé, quem constrói uma arca e nela coloca sua família e um casal de cada um dos animais. Uma grande tempestade vem sobre a terra para devastá-la durante quarenta dias, quando, então, cessa o dilúvio. A arca para sobre um monte. Ave, pomba e corvo, certificam-se de que havia terra seca, pois trazem em seus bicos um ramo de árvore. Noé, então, oferece um sacrifício, recebe a promessa divina de que o dilúvio não mais destruiria o mundo. Um arco-íris sela a aliança e dá a certeza de um novo tempo, um mundo que seria recriado a partir da nova postura do ser humano na terra.     

Maxacali

Os maxacalis[2] conservam na oralidade a história de um dilúvio que destruiu a nação indígena por causa da ação indevida de um genro em relação à partilha que Topá, a divindade da tribo, lhes havia ensinado.  A narrativa é a seguinte:

Antigamente os maxacalis conversavam com Topá. E este era seu amigo. Topá visitava as suas aldeias. Ele deu para eles uma linda lontra. Com ela, disse Topá, os maxacalis jamais passarão fome. Vocês farão assim, disse ele:  – “Levem a lontra para o rio, de modo que ela possa pescar peixes para vocês. Ela entrará no rio e de lá vai jogar na margem muitos peixes. Encham  seus “tererês” (sacolas de embira) e as levem para a aldeia, onde os peixes serão repartidos e ninguém passará fome. Tenho somente  uma exigência: os três primeiros peixes que ela jogar na areia serão enormes e vocês os separarão para mim”. E assim os Maxacalis fizeram por muitos anos. Não havia fome em suas aldeias e eles viviam felizes. Um dia, porém, o genro de um dos mais velhos pediu ao sogro a lontra encantada para ir pescar. O sogro lhe contou toda a história e o trato com Topá. E ele se foi para a beira do rio. Tudo ocorreu como fora combinado. A Lontra pulou no rio, mergulhou de novo e jogou na margem três grandes peixes. Os peixes sagrados! Depois continuou a mergulhar e a jogar mais peixes. Ao ver os três peixes grandes, o genro disse: – “Que nada! Vou levar esses três peixes para mim”. E colocou-os no tererê. Ele também encheu as outras sacolas com os peixes pequenos. Terminado o seu trabalho, a lontra subiu no barranco e começou a cheirar os peixes procurando os seus. Não os encontrando, pulou no rio… e desceu rio abaixo. O maxacali, desesperado, começou a gritar: – “Lontra, lontra, Volte!”. A lontra, não mais entendendo a linguagem do maxacali, foi embora para não mais voltar. O maxacali voltou para a aldeia com os peixes. Muito envergonhado, ele contou tudo para o mais velho. A aldeia inteira entrou em profundo estado de medo e tristeza, pois o mais velho disse: – “Você errou. Topá vai nos castigar, um grande castigo cairá sobre nós!”. Anoiteceu! Os maxacalis, preocupados, se recolheram nas suas cabanas. O tempo escureceu! Uma chuva torrencial se abateu sobre a terra. Quando os maxacalis acordaram, as águas tinham apagado as fogueiras e uma enorme escuridão cobria a aldeia. Desesperados, eles viram que a água chegava debaixo das redes. Juntaram seus poucos pertences e suas crianças e correram para o cimo das árvores. Ali, quando a água os alcançava, eles eram derrubados na correnteza. Buscaram, então, a montanha mais alta. E também aí a água os alcançou. E, assim, morrem todos os maxacalis daquele tempo! O genro, no entanto, em meio a grande pavor, encontrou um pedaço de pau oco e entrou nele. Tapou as extremidades com areia e couro de veado e ali ficou por quarenta dias flutuando no grande mar de águas que se formara. Passada a tempestade, as águas baixaram e Topá quis ver como ficou a terra. E ele veio em forma de besouro (mangangá) voando. “Não sobrou nada!”, disse ele ao seu acompanhante. De repente, ouviu-se uma voz: – “Topá! Topá! Tira-me daqui!”. Topá circulou o pau de onde saía a voz. Mandou seu acompanhante ir buscar um machadinho para cortar. Era inacreditável alguém ter escapado. Quando chegou o machadinho, Topá marcou o lugar para cortar! – “Aí não!”, disse a voz, “aí é minha perna. Como vou andar?” E assim sucessivamente, a voz gritava: – “A cabeça, como vou pensar? Os braços, como vou flechar?” Até que o maxacali disse: “Aí pode cortar”. Topá tinha marcado por cima da sua cabeça, no lugar da pele do veado. Topá retirou-o de dentro do pau. Fez uma fogueira e foi aquecendo-o, girando seu corpo em torno das labaredas, como quem assa carne. Que coisa horrível! O homem estava branco, magro e todo cagado. Fedia de longe. Depois que ele foi se recuperando, Topá alimentou-o com mel, amendoim, bananas, carne e frutas. E lhe disse: – “Agora que você está bom, vou levá-lo comigo, para o meu lugar (Hamnoy), pois você está só”. Mas o maxacali não quis ir, retrucando: – “Eu não sou deus! Meu lugar é aqui!” Disse Topá: – “Então, eu vou lhe ensinar a fazer uma armadilha para pegar uma mulher, pois você não suportará ficar só”. E Topá ensinou-lhe a fazer um mundéu (armadilha). E depois disso se foi. O maxacali seguia o conselho de Topá ao pé da letra. Armava sempre o mundéu na direção ensinada por Topá. Caíram ali vários bichos da floresta. Mas com nenhum o casamento dava certo. Até que caiu nele uma guariba. E ele se casou com ela. Quando nasceu o filho era uma guaribinha. E, como das outras vezes, ele a mandou embora, pois nascera bicho e não filho de gente. O maxacali, de tão só, se desesperava. Uma noite, ele armou mais uma vez o mundéu na direção ensinada por Topá. E ouviu vozes. – “Opa! Esta voz é voz de gente. Não é de bicho!”, exclamou. Rapidamente, ele seguiu mata adentro em direção à voz. Ele, então, viu uma pequena cabana e, lá dentro, uma veadinha, uma mulher encantada. Ele chegou e bateu palma. Ela saiu à porta. Ele, respeitoso, ficou a distância com seu arco e flechas. E lhe perguntou: – “Bom dia! O marido da senhora está em casa?” – “Não! Ele está trabalhando na roça”, respondeu a veada encantada. – “Vou até lá!”, disse ele, pois pensou que não ficaria bem ele ali sozinho com a mulher do outro. Chegando na (ok) roça, ele espiou e viu um forte e grande veadão, todo suado, capinando a roça. O maxacali pensou:  ‘vou matá-lo’. Atirou suas flechas e zás! Flechou o homem e o matou. Jogou seu corpo no mato e retornou à casa da mulher. – “Encontrou o meu marido?” Disse a mulher. – “Não, não o vi”, respondeu o maxacali. E a mulher respondeu: – “Então,  vamos esperá-lo”. E ele se sentou do lado de fora da casa. Muito tempo se passou. O maxacali, então, se casou com a veadinha encantada. O casal queria ter filhos. Primeiro, eles tiveram relação no casco da veadinha. O filho gerou na batata da perna. Por isso, os humanos têm batatas nas pernas. Depois, gerou na coxa. Não deu certo. Topá veio então para ensinar-lhes como fazer filhos. Trouxe sua machadinha e abriu uma pequena fenda na mulher, entre as suas pernas e lhe disse: – “É por aqui”. E assim eles deram origem ao tikmãa (humanos) de hoje, os quais vivem na beira do umburuna (rio).

Qual é a relação existente entre esses três mitos? Gênesis é original? Qual é o objetivo de cada um deles? Estamos prestes a um novo dilúvio? É o que veremos no próximo artigo.


Notas

[1] Tradução de SANDARS, N. K. A epopeia de Gilgamesh. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

[2] A nação Maxacali é um povo sofrido que viu suas terras serem roubadas pelos brancos. Os Maxacalis vivem atualmente no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. 


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Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze.

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