Reconhecer a messianidade de Jesus nos crucificados da história | Reflexão sobre Lc 9,18-24

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Após concluirmos o Ciclo Pascal deste ano de 2025, retornamos ao Ciclo Comum, com sua 2ªparte no Ano Litúrgico. O nome com o qual designamos a maior parte das semanas do Ano Litúrgico pode nos induzir a pensar que se trata de algo corriqueiro, venial, sem importância. Claro que, ao pensar assim o Tempo Comum, estamos errados. Trata-se de um tempo em que nos aprofundamos em nossa vivência cristã, gerando intimidade com as palavras e ações de Jesus. Se o Ciclo do Natal nos aproxima do Mistério da Encarnação e o Ciclo da Páscoa do Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus; o Tempo Comum nos coloca na condição de discípulos e discípulas do Mestre Galileu e, com ele, traçamos um caminho de intimidade com sua pessoa, seus ensinamentos e seu testemunho. O Tempo Comum se faz oportunidade de conhecer a Jesus.

Nesta perspectiva, o Evangelho deste 12º Domingo do Tempo Comum – Lc 9,18-24 – nos coloca diante da pergunta: “quem é Jesus?”. Já nos primeiros momentos da perícope presente na Liturgia deste domingo, somos informados de que Jesus estava em oração, num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele (Lc 9,18). Aqui o evangelho lucano já nos aponta pistas para um eficaz caminho de conhecimento e seguimento do Cristo. Jesus estava em oração e seus discípulos com ele. Nós, comunidades de Jesus deste tempo, precisamos cultivar espírito orante e intimidade comunal com aquele que é nosso mestre e senhor. O conhecimento de Jesus demanda coração dócil e em constante estado de comunhão. O finalzinho do versículo 18 também nos informa que a pergunta parte do próprio Jesus: “Quem diz o povo que eu sou?”. Esta pergunta de Jesus é uma espécie de balanço de toda sua atividade. Grande parte do povo que o acompanhava ainda pensava como antes. Estavam presos à ideia de um Messias guerreiro e triunfalista (cf. Lc 7,16; 9,8). Estes discípulos a quem Jesus interroga, o acompanharam e viram de perto toda sua atividade. Por isso, através de Pedro, confessam que creem que Jesus é o Cristo de Deus, o Messias esperado (cf. Lc 9,20). Após acompanhar toda a obra de Jesus na Galileia, cumprindo o programa anunciado em Lc 4,14-21, podem atestar que aquele a quem seguem é o Messias, o Rei ungido por Deus para trazer o tempo da justiça e da paz, conforme profetizado por Isaías (cf. Is 11,1-9). Todavia, estariam estes discípulos professando a fé no Cristo real, ou em alguma ideia deturpada de sua pessoa?

No caminho do conhecimento de Jesus, tanto os discípulos do primeiro momento, quanto nós que continuamos no caminho de seguimento dele, precisamos entender quem, de fato, era esse messias esperado. Jesus é o Messias que realiza sua missão como o Servo Sofredor presente no livro do Profeta Isaías, do capítulo 52,13 a 53,12. Sua messianidade consiste em se identificar com o povo mais sofrido, sobretudo, os marginalizados. Com isso, Jesus provocou os sistemas injustos e seus mantenedores, ou seja, os anciãos, chefes dos sacerdotes e doutores da Lei. Tal oposição ao sistema opressor de seu tempo vai gerar uma reação que terá como resultado a conspiração por sua morte. Eles o matarão, mas – no terceiro dia – Jesus ressuscitará. Com sua ressurreição, seu projeto terá continuidade por seus discípulos e discípulas. Daquele tempo e do nosso.

Ao confrontarmo-nos com a pergunta de Jesus, dando ciência de conhecer ou não quem ele é de fato, somos provocados não só a entender sua identidade e missão, mas a nossa própria identidade e missão, enquanto discípulos e discípulas. Aprofundando sua catequese formativa na perícope lucana da liturgia deste domingo, Jesus provoca seus discípulos a compreender a essência de sua messianidade. Em outras perícopes dos evangelhos, somos informados de alguns equívocos por parte de seus seguidores. Havia quem entendesse a missão de Jesus tendo como pauta fundamental a derrubada do Império Romano que colonizava e oprimia toda a Palestina naquele tempo. Claro que, identificando-se com o Servo Sofredor descrito por Isaías, Jesus sentia em sua própria carne as dores dos que estavam sob o braço forte da opressão romana (cf. Is 53,4-5). Todavia, sendo Jesus o enviado do Pai, a libertação proposta em seu ministério ia muito além da econômica e política. Sua missão repete todo o programa messiânico proposto por Isaías 61,1-3, acrescida da ressignificação da vida humana para além do tempo e da história. Nunca podemos perder de vista a dimensão soteriológica da messianidade de Jesus. Importa que se construa uma nova sociedade, mais fraterna e humana. Sem marginalização, opressão e exclusão. Onde todos e todas sejam tratados com equidade, no mais pleno cumprimento da justiça. Só assim uma cultura de paz será possível. Outrossim, também importa que não se perca de vista o Sacrifício Pascal de Jesus, o qual transforma toda vida humana, rumo à reconciliação. E, enquanto reconciliados, novo céu e nova terra se abrem diante de nossas perspectivas. O sacrifício soteriológico de Jesus rompe as cadeias de toda opressão humana, nos proporcionando liberdade e vida plenas. É por isso que Jesus abre os olhos de seus discípulos, e os nossos, para que tipo de Messias ele é. Aquele que dará sua própria vida pelos que padecem diante dos muitos sofrimentos daqueles tempos e dos nossos.

Feito o devido esclarecimento do que de fato consistia sua messianidade, o chamado a ser continuadores de sua missão acontece (cf. Lc 9, 23a-24). Nisso consiste o discipulado: fazer uma experiência de Jesus e ser continuador e continuadora de sua missão. As condições para seguir Jesus são três: renunciar a si mesmo, isto é, deixar os próprios interesses postos de lado para colocar o projeto de Jesus em primeiro lugar. Tomar a cada dia sua cruz, ou seja, enfrentar continuamente oposição, perseguição e marginalização. Comprometer-se integralmente com o Reino, isto é, seguir a Jesus enquanto continuidade de sua palavra e ação, por toda a vida e até às ultimas consequências. Assim, o discípulo se torna digno de Jesus, e ganhará a verdadeira vida, que consiste em participar de todo caminho de Jesus, até à glória. E aqui consiste o maior desafio para o discipulado: entender o que é o projeto e a glória de Jesus e os projetos e glórias propostos pelo mundo. Aqui vale revisitar Lc 4,1-13, onde nos são apresentadas as tentações de Jesus e nossas.

No caminho de seguimento de Jesus, muitas vezes nos perdemos diante das seduções por riqueza, fama e poder. A perícope lucana sobre as tentações de Jesus (Lc 4,1-13) se casa profundamente com a que estamos a refletir hoje (Lc 9,18-24). Como proposto acima, Jesus queria aprofundar sua catequese com os discípulos, para que eles entendessem no que de fato consistia sua messianidade. Também ficou posto que havia quem entendesse Jesus, enquanto um messias que triunfaria pela violência. Todavia, ele se revela à imagem do Servo Sofredor de Isaías. Aquele que irá sofrer pelos que ama. E agora nos cabe uma atualização do texto de Lucas para as nossas próprias vidas. Que Jesus nós anunciamos?

Em nossas comunidades, não são raras as vezes em que nos vemos diante de confrontos entre o Jesus que queremos e aquele que ele mesmo se revela. Há quem ainda hoje deseje um Messias triunfalista, que aponte para poder e glória, aos moldes dos projetos do mundo. E que se entenda aqui a palavra mundo como projeto anti-reino de Deus. Não são raras as vezes em que vemos pessoas impondo uma imagem de Jesus totalmente dissonante com aquela que nos foi apresentada pelo Evangelho. O Servo Sofredor de Isaías que nos foi proposto como referência da identidade de Jesus por Lucas, é esquecido por pregadores que insistem em apresentá-lo de forma triunfalista, castigador e subterfúgio para uma busca cega por riqueza, fama e poder. E quem insiste em seguir o Jesus dos evangelhos, é considerado digno de perseguição destes cristãos do pseudo cristo rei – triunfal, castigador e violento – por eles inventado. Nestes casos, vale voltar à provocação de Jesus na perícope do Evangelho que estamos a refletir. Responder à pergunta “quem é Jesus?”. Fazendo uma imersão em seu mistério, palavra e ação; entenderemos que nossa condição de seguidor e seguidora dele nos provoca a constante renúncia, amor e serviço aos vulneráveis. Ao exemplo dele mesmo, o Bom Pastor, Messias dos Pobres.

Que possamos neste 12º Domingo do Tempo Comum, redescobrir Jesus, Messias dos Pobres, e reavivar em nós seu chamando. Faz-se imperativo que sejamos Igreja Missionária e Samaritana, amando sempre, perdoando sempre e nos colocando – sempre – na condição de servos dos pequeninos. É preciso reconhecer Jesus nos crucificados da história.

Neste caminhar é seguro dizer que conhecemos a Jesus e, de fato, somos discípulos e discípulas dele.


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