O padre, a batina e o jumentinho

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Aconteceu, ou conta-se.

No norte de Minas, nas mais belas paragens das Gerais, o novo pároco, recém ordenado, faz sua primeira reunião com o Conselho Paroquial. Começa sua monição, sempre com seu olhar piedoso:

– “Pois é, meus queridos filhos e filhas. A santidade da Igreja se perdeu. Só a tradição é segura. De hoje em diante, vamos mudar os caminhos desta paróquia. Como vocês podem ver, meus filhos e filhas, sou um padre que ama a Sã Doutrina da Igreja e escolhi fazer do meu ministério a missão de salvar almas. Por isso, vamos promover grandes momentos de fé! Novenas, terços, jejuns e mortificações. Chega de se preocupar com as coisas deste mundo! Com Campanhas da Fraternidade e essas coisas… Missas, só não celebro em latim, porque o bispo não permite. Mas… Quem me dera! Porém, estarei sempre usando minha batina e meu barrete, pois é assim que deve se vestir um padre. E mais: nada de vestes litúrgicas moderninhas! De hoje em diante, só casulas romanas e manípulo, rendas, e todas as riquezas da moda litúrgica do tempo de nossos avós. Canto na missa, só em latim, já que não posso celebrar toda a missa nessa santa língua da tradição católica. Comunhão, somente na boca e ajoelhados. As mulheres devem estar de véu, sempre que entrarem na Igreja. Na catequese, só a bíblia e o catecismo. Nada de materiais vindos da CNBB. Tem cheiro de comunismo os livros que veem de lá. Nossa pregação será sempre nesse foco: Conversão, Penitência e Santidade! Vamos salvar almas!”

Dona Maria José, no desejo de atender seu novo pároco, disse:

– “Padre, para essas mudanças, o que o senhor precisa?”

Ele, já pululando de alegria, responde:

– “Olha, minha gente, precisamos investir um dinheirinho. Comprar todos os paramentos de novo, comprar novos vasos sagrados, com uma estética mais tradicional… Trocar o sino… Essas coisas. E, já que querem ajudar seu pároco na obra de Deus, aceito de presente uma ou duas batinas a cada seis meses. Não querem que seu pastor ande maltrapilho, né? De preferência de lã fria, para que se honre o Mestre por seu servo.”

Ela, já preocupada com as contas desta reforma, cheirando a retrocesso, responde:

– “Vamos pedir a misericórdia de Deus e conseguir tudo que o padre quer…”

Ele ainda insiste:

– “É para santidade da Igreja, minha irmã. Só voltando às tradições teremos caminhos seguros na Igreja.”

Passou-se uma semana. Começaram a chegar as confirmações de pedidos feitos nos ateliês de moda litúrgica. O padre já cantarolava feliz, na expectativa de que chegassem as encomendas. De repente, pegando o telefone para ligar à Dona Maria José, viu que não tinha linha. “Tudo bem”, pensou ele. “Deve ser alguma manutenção da operadora. Vou mandar um ‘zap'”. E viu que também não tinha sinal da wi-fi. Daí percebeu que nem internet, nem telefone funcionavam. Pegou seu barrete e partiu em direção à casa de Dona Maria José, atônito.

Bateu palmas. “Ô de casa! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”. E de dentro respondeu: “Bença, padre. Vamos se achegando”.

– “Dona Maria, ia telefonar para a senhora e o telefone não funcionava. Peguei meu iphone e vi que também não tinha internet. A senhora precisa resolver isso!”

– “Ô padre! São as reformas que o senhor pediu. O padre disse que só a tradição era segura. Que não queria nada de modernismos mundanos na paróquia. Fiz o que o senhor mandou. Desliguei o telefone, a TV a Cabo, a internet. E o senhor pode ficar tranquilo. Conseguimos um bom preço na venda do carro da paróquia. Esse jumentinho que está aí fora será o seu transporte de hoje em diante. O senhor disse que queria uma Igreja como nos tempos de nossos avós. E que, quanto menos modernismos, melhor! Minha família sempre atendeu e cuidou dos padres. Será como o senhor disse. Nada de carro, só montaria animal, nada de internet, de confortos modernos. O senhor quer ser padre “das antigas”. Vamos ajudar no que o senhor precisar. Já pedi para a gráfica imprimir o papel de carta timbrado, e até compramos uma caneta tinteiro para presentear o senhor. Assim, o senhor agora só se comunica como antigamente, por carta. Fica tranquilo, o senhor viverá dentro da tradição, sem modernismos como disse com tanta piedade.”

O padre sentou e chorou. Entendeu o amargor da sua contradição.

Pode ser só um “causo”, mas se essa moda pega…


Um comentário em “O padre, a batina e o jumentinho

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  1. Pertinente aos dias atuais. Alguns eclesios querem mudança ao conservadorismo mas desde que seja para satisfazer suas vontades e/ou interesses pessoais. É rezar o Pai Nosso dizendo “Seja feita a Vossa vontade” desde que esta coincida com a minha rsrsrsrs

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