“Pequeno apocalipse, preto e pobre” | Por Karina Moreti

Esperançar de uma teóloga das periferias


Às Igrejas que resistem, aos povos de resistência,
trago uma mensagem, da parte do Senhor!

Eu vi o fim da dor. Eu vi a volta do Senhor de nossa história. Seu anjo me veio ao encontro e advertiu: “a fera, mãe de todas as blasfêmias, está aprisionada! Isolada, impedida de bradar seus ultrajes à Vida, planejar suas abominações. Mas atentai! Fique atenta e anuncia ao povo santo do Senhor: este é o começo do Tempo da Justiça. O silenciar das blasfêmias, a queda dos ídolos. Olhem, escutem! Ele está para chegar! A dor dará lugar à alegria. O desespero será derrotado pelo esperançar”.

E fui levada para o alto de um monte. E do alto, o anjo disse: “Olhe e veja! Eu vou te mostrar como Ele vem, como vai voltar! Onde armará sua tenda.” E vi um grande tremor, prédios imensos e cidades ruíam. Shoppings, arranha-céus, foram reduzidos aos escombros. E o anjo disse: “caíram os templos da perdição. Que se alimentam do sangue dos pobres. Onde se seduzia os corações. Onde o deus-dinheiro devorava vidas como o antigo Morduk da Babilônia. Caiu a grande besta, pois nos templos da morte, o Senhor da Vida se recusa a entrar. Já não há fascínio, nem fetiches. Os adoradores desta besta chamada ‘lucro’ andam perdidos, chorosos e não há mais esperança. É tempo de libertação!”

E mais uma vez fui arrebatada. De repente, por um triz, estava diante de uma grande lavoura. Onde muitas plantações deslumbravam os olhos. Mais a diante, havia rebanhos de gado gordo. E o anjo disse: “olhe, mas não se engane. Aqui reina vida que devora vida. A besta do latifúndio também será derrotada. Esta terra está encharcada pelo sangue dos mártires. Pela exploração dos pequeninos. E o Senhor que vem, não quer morar aqui. Na vinha maldita, que se alimenta do sangue do seu povo!” E para minha surpresa, uma névoa negra se abateu sobre as plantações. O que era verde ficou cinza. A vida foi devorada pela morte. O que era latifúndio se tornou deserto. O mesmo aconteceu com os rebanhos. Emagreceram, murcharam, até cair. De repente, a imensidão de pasto se tornou uma planície de ossos, sem qualquer sinal de vida.

E o anjo me disse: “você viu? Onde a humanidade depositou a esperança, reina o desespero. Onde construíram seus impérios de morte, só devastação. Ele vem! Olhe, escute”.

Eis que uma grande luz brilhou. Meus ouvidos foram invadidos por sons confusos. Sabia que se tratava de uma teofania, mas esta era diferente de todas as que eu ouvi falar, ou já li. Não ouvia clarins, nem flautas. Em vez disso, sons de tambor. N’gomas Bantu sustentavam o ritmo, em dueto com atabaques Yorubás. Maracás e tacuapús dos Kaiowás Guarani completavam o ritmo que me aquecia o sangue, agitava o coração. A melodia era composta pelos kem-ka-kas Mundurucus. E era uma música linda! E eis que Ele apareceu, o Senhor da história. E bradou: “venham comigo, ao meu templo, meu lugar sagrado.” Eu não quis dizer nada, porque era de se esperar: o Senhor tinha a aparência dos massacrados, dos espoliados, dos escravizados ao longo da  história. O Filho do Homem voltava. Era negro e não se vestia de mantos púrpuras, mas do Dàndógó dos yorubás. E me levou às periferias, às favelas, e lá disse com um alvo sorriso: “eis o meu templo, eis o meu lugar! Meu Reino é a vida do meu povo”. E eu percebi que o sonho se realizava. O Senhor veio salvar seu povo. Mais do que isso: estava entre eles, estava em casa. Preto, pobre, sorridente, feliz. O Deus da libertação escolheu morar na casa dos escravizados. E a tudo eu vi, ouvi e entendi. O tempo do cativeiro acabou. E me lembrei de uma música que os pretos e pretas me ensinaram: “Estava dormindo o tambor me chamou, acorda meu povo, cativeiro acabou!” Chegou o Reino de Deus!


Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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