A ausência não é abandono: somos morada do Deus que permanece!

Por Karina Moreti

O Evangelho de hoje (Jo 14,15-21) nos conduz para dentro de uma casa. É o coração de uma despedida. Não há multidões. Há uma conversa íntima, à mesa da Páscoa. Jesus prepara os seus para o tempo em que não estará mais visivelmente entre eles. O ambiente é carregado de sentimentos: amor, medo, incerteza. Nesse espaço humano e frágil, Jesus revela algo profundamente consolador.

Ele não começa com exigências duras, mas com um convite que nasce do amor: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14,15). Amar, aqui, não é apenas um sentimento passageiro, mas uma escolha concreta de vida. É deixar que a palavra de Jesus se torne caminho, que seus gestos se tornem referência, que sua forma de amar molde a nossa própria existência. Não se trata de cumprir regras frias, mas de permanecer em uma relação viva.

E então, no meio dessa despedida, surge uma promessa: não estaremos sozinhos. Jesus fala do “Defensor” (14,16), o Espírito da Verdade, aquele que permanecerá conosco. Essa promessa atravessa todas as tradições cristãs, porque fala de algo essencial: Deus não abandona o seu povo. Mesmo quando não vemos, mesmo quando não sentimos, há uma presença que sustenta, orienta e consola. O Espírito não é uma ideia distante, mas a própria vida de Deus habitando em nós, conduzindo-nos por dentro, iluminando nossas escolhas, fortalecendo-nos nas dificuldades.

“Não vos deixarei órfãos” (14,18). Essa palavra toca profundamente o coração humano. Todos nós, em algum momento, experimentamos a sensação de ausência, de vazio, de não saber para onde ir. Os discípulos também sentiram isso. Eles estavam prestes a perder a presença concreta de Jesus, sua voz, seu olhar, sua companhia. Mas Jesus lhes revela que sua presença não termina, apenas se transforma. Ele continua vivo, e essa vida se comunica em nós.

Aqui está um ponto central da nossa fé: Deus não está distante. Ele não habita apenas templos ou lugares sagrados, como muitas vezes se pensava nas tradições do Primeiro Testamento. Agora, Ele faz morada em nós. Cada pessoa se torna espaço de encontro com Deus. Cada coração aberto se torna lugar de sua presença.

Isso nos convida a olhar para dentro, e também para o outro. Porque se Deus habita em nós, Ele também habita no irmão, na irmã. E é nesse reconhecimento que nasce uma vivência verdadeiramente ecumênica: percebemos que, antes de qualquer diferença, somos todos habitados pelo mesmo Espírito. A unidade não começa nas estruturas, mas na presença de Deus que nos une por dentro.

Jesus continua: “Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (14,21). A manifestação de Deus não é algo espetacular ou distante. Ela acontece no cotidiano, na escuta da Palavra, no gesto de amor, na fidelidade silenciosa. Deus se revela a quem decide amar.

Hoje, também nós estamos nesse mesmo lugar dos discípulos: entre a presença e a ausência, entre a dúvida e a fé. Vivemos em um mundo que muitas vezes não vê nem reconhece essa presença. Mas a promessa permanece firme: não estamos sozinhos, não estamos abandonados!

Por isso, a pergunta que este Evangelho nos deixa é simples e profunda: estamos vivendo como quem se sente órfão, perdido e sem direção, ou como quem sabe que é habitado por Deus?

Que possamos, no silêncio do nosso coração, acolher essa presença. E que, sustentados pelo Espírito da Verdade, aprendamos a viver como filhos e filhas, permanecendo no amor que nos foi dado.


Karina Moretié bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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