Reflexão para Quinta-feira da 20ª Semana do Tempo Comum (Ez 36,23-28 e Mt 22,1-14)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

Ez 36,23-28 e Mt 22,1-14 apresentam, em linguagens diferentes, uma mesma dinâmica fundamental da ação de Deus: reunir aquilo que foi disperso, restaurar aquilo que foi ferido e abrir um futuro onde a vida possa florescer. O profeta Ezequiel anuncia a restauração de um povo humilhado pelo exílio, enquanto Jesus apresenta o Reino de Deus como um banquete para o qual são chamados inclusive aqueles que permaneciam fora dos espaços de reconhecimento social e religioso.

Uma leitura à luz da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia permite perceber que esses textos não podem ser reduzidos a uma mensagem individualista sobre “salvação da alma”. A salvação bíblica possui dimensão histórica, comunitária, social e política. Deus quer um povo restaurado, uma comunidade reconciliada e uma mesa onde ninguém seja excluído. Por isso, esses textos interpelam diretamente uma Igreja chamada a estar junto dos pobres, marginalizados e descartados.

1. Ezequiel 36,23-28: Deus restaura um povo ferido

O capítulo 36 de Ezequiel situa-se no contexto do exílio babilônico. Jerusalém havia sido destruída, o templo profanado e grande parte da população deportada. Israel experimentava não apenas uma crise política, mas também uma profunda crise de identidade. O exílio colocava em questão a própria relação entre Deus e seu povo.

É nesse cenário que aparece a promessa: “Eu vos tomarei dentre as nações, vos reunirei de todos os países e vos reconduzirei para a vossa terra” (Ez 36,24). A restauração começa com a reunião dos dispersos. Antes de qualquer transformação individual, existe uma reconstrução comunitária. Deus não salva pessoas isoladas de sua história; Deus reconstrói um povo.

O texto apresenta então uma sequência extraordinária de ações divinas: Deus purifica, dá um coração novo, coloca um espírito novo e derrama o seu próprio Espírito. O “coração de pedra” representa uma existência endurecida, incapaz de acolher a vontade de Deus; o “coração de carne” indica sensibilidade, capacidade de escutar, compadecer-se e estabelecer relações novas. A iniciativa pertence a Deus: “Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo” (Ez 36,26).

Essa transformação interior, entretanto, não deve ser interpretada como fuga da realidade. O novo coração é dado para que o povo possa viver novamente em fidelidade à aliança: “farei com que andeis segundo os meus preceitos” (v. 27). A espiritualidade bíblica, portanto, desemboca em uma nova maneira de viver comunitariamente.

A Teologia Latino-Americana ajuda-nos a perceber uma consequência decisiva: não existe verdadeira conversão cristã sem transformação das relações que produzem sofrimento, exclusão e morte. Um coração de carne não pode permanecer indiferente diante da fome, do racismo, da violência, da exploração do trabalho, da situação dos povos indígenas, da população em situação de rua, dos migrantes e de tantas pessoas descartadas pela sociedade.

O Deus de Ezequiel não se conforma com a dispersão de seu povo. Ele reúne, restaura e devolve dignidade. A Igreja, portanto, não pode ser instrumento de dispersão, exclusão ou humilhação. Sua missão consiste em participar do movimento restaurador de Deus.

2. Mateus 22,1-14: o Reino como banquete e a subversão da exclusão

Em Mateus 22, Jesus encontra-se em Jerusalém, no contexto de crescente conflito com as autoridades religiosas. A parábola do banquete nupcial aparece imediatamente depois das parábolas dos dois filhos e dos vinhateiros homicidas. O conjunto denuncia uma liderança religiosa que se apropriou daquilo que pertence a Deus e não produziu os frutos esperados do Reino. Estudos recentes destacam precisamente a dimensão social, cultural e política dessa parábola dentro do Evangelho de Mateus.

O símbolo central é o banquete. Na tradição bíblica, a refeição festiva expressa comunhão, abundância, reconciliação e participação na vida que Deus oferece. O problema apresentado por Jesus não é a falta de comida, mas a recusa dos convidados. Eles recebem o convite, porém preferem seus interesses particulares: campo, negócios e atividades próprias (Mt 22,5). A parábola denuncia, assim, uma sociedade na qual os privilégios e interesses particulares podem tornar-se mais importantes que o projeto de Deus.

A reação dos primeiros convidados é ainda mais grave: alguns maltratam e matam os mensageiros (v. 6). A violência contra os enviados representa a rejeição persistente daqueles que denunciam a infidelidade e convocam à conversão. No contexto do Evangelho, a parábola participa da crítica de Jesus às lideranças que não reconhecem a novidade do Reino.

Mas ocorre uma mudança decisiva: “Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes” (v. 9). A mesa deixa de ser controlada pelos que se consideravam privilegiados. O convite alcança as ruas. “Todos” são reunidos, “maus e bons” (v. 10). O Reino rompe as fronteiras construídas pela sociedade e pela religião.

Aqui encontramos uma poderosa chave de leitura teológica latino-americana. Deus prepara a mesa para aqueles que a sociedade frequentemente mantém fora dela. A Igreja não pode transformar o Evangelho em mecanismo de seleção social, moral ou cultural. A comunidade cristã precisa sair de seus espaços protegidos e ir às “encruzilhadas dos caminhos”, onde estão os pobres, os esquecidos, os trabalhadores precarizados, os migrantes, os moradores das periferias, os povos tradicionais, as pessoas em situação de rua e todos aqueles que não encontram lugar nas mesas dos poderosos.

Entretanto, a parábola apresenta uma segunda questão: o homem que está no banquete sem a veste nupcial (vv. 11-13). Essa passagem, considerada uma das partes mais difíceis do texto, impede uma interpretação segundo a qual bastaria estar fisicamente dentro da comunidade. A pertença ao Reino exige uma existência transformada. A “veste nupcial” pode ser compreendida simbolicamente como a coerência entre acolher o convite de Deus e assumir uma vida compatível com o Reino. A pesquisa exegética reconhece a tensão existente nessa conclusão da parábola e sua relação com a ética comunitária do Evangelho de Mateus.

Assim, Jesus não está simplesmente substituindo “uns escolhidos” por “outros escolhidos”. Ele está anunciando uma comunidade na qual a graça é oferecida a todos, mas na qual todos são chamados à conversão e à prática da justiça.

3. Do coração novo à mesa aberta: uma leitura sociotransformadora

Ez 36 e Mt 22 convergem numa perspectiva profundamente transformadora. Ezequiel fala de um coração novo; Mateus apresenta uma mesa nova. O primeiro aponta para a transformação interior e comunitária; o segundo revela a transformação das relações sociais. Ambos desafiam uma religião que preserve estruturas de exclusão.

Na perspectiva da Teologia Latino-Americana, a pergunta fundamental não é apenas: “O que este texto diz sobre minha vida pessoal?”. É também: “Que realidade Deus quer transformar por meio deste texto e que lugar ocupamos nessa transformação?”

O coração de pedra está presente quando uma sociedade se acostuma com a pobreza. Está presente quando a morte dos pobres deixa de provocar indignação. Está presente quando a Igreja se preocupa mais com sua aparência, seus privilégios e suas estruturas internas do que com aqueles que estão fora de suas portas.

Por outro lado, o coração de carne aparece quando a comunidade cristã aprende a escutar o clamor dos vulneráveis. Ele se manifesta quando a Igreja defende a dignidade humana, acolhe migrantes, protege crianças e idosos, enfrenta o racismo, acompanha os trabalhadores explorados, defende os povos indígenas e assume a defesa da Casa Comum.

O banquete de Mateus também questiona uma Igreja que celebra a Eucaristia, mas não reconhece aqueles que continuam excluídos da mesa da vida. A mesa eucarística precisa tornar-se sinal de uma sociedade em que pão, terra, trabalho, moradia, saúde, educação, segurança e dignidade sejam direitos de todos.

4. Ação pastoral: transformar a Igreja em espaço de acolhida e compromisso

Uma pastoral inspirada por esses textos deve assumir pelo menos quatro compromissos.

Primeiro, promover uma Igreja de escuta. O “coração de carne” começa quando aprendemos a ouvir o grito daqueles que sofrem. A Leitura Popular da Bíblia precisa partir da vida concreta das comunidades, permitindo que os pobres sejam não apenas destinatários da pastoral, mas sujeitos de interpretação, evangelização e transformação social.

Segundo, fortalecer uma Igreja das periferias. O convite para o banquete acontece nas “encruzilhadas dos caminhos”. Isso exige presença missionária onde a vida é ameaçada: periferias urbanas, comunidades rurais, territórios indígenas, prisões, hospitais, abrigos, fronteiras e espaços de exclusão.

Terceiro, transformar estruturas que produzem exclusão. A conversão cristã não pode restringir-se ao âmbito privado. A Igreja deve colaborar na construção de políticas públicas, na defesa dos direitos humanos, na promoção da justiça socioambiental e na proteção dos grupos vulneráveis.

Quarto, fazer da própria comunidade cristã uma antecipação do Reino. Nossas paróquias, comunidades e organismos pastorais devem ser lugares onde ninguém seja humilhado por sua condição social, origem, pobreza ou vulnerabilidade. A mesa cristã deve ser sinal concreto de fraternidade.

Conclusão

Ez 36,23-28 e Mt 22,1-14 apresentam-nos um Deus que não se conforma com a dispersão, a dureza de coração e a exclusão. Ele promete reunir os dispersos, purificar o povo, dar-lhe um coração novo e oferecer um novo horizonte de vida. Em Jesus, essa promessa assume a imagem de um banquete aberto nas encruzilhadas, para onde são chamados aqueles que estavam fora.

A mensagem é profundamente atual: o Evangelho não pode ser reduzido à conservação de formas religiosas; ele é convocação à transformação da vida. O coração novo de Ezequiel e a mesa aberta de Mateus encontram sua realização quando a comunidade cristã se torna presença misericordiosa no meio dos pobres e excluídos.

A Igreja latino-americana é chamada, portanto, a deixar-se evangelizar pelos pobres, a sair de seus lugares de segurança e a ocupar as “encruzilhadas” onde a humanidade ferida espera por justiça. A verdadeira veste nupcial é uma existência revestida de misericórdia, justiça, solidariedade e compromisso com a vida.

No coração do Evangelho permanece a pergunta: quem ainda está fora da mesa? E, diante dessa pergunta, a resposta cristã não pode ser apenas discursiva. É preciso levantar-se, sair ao encontro dos excluídos e preparar, com eles, uma mesa onde todos possam viver com dignidade.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑