Reflexão para o 21º Domingo do Tempo Comum – Ano A – (Is 22,19-23, Rm 11,33-36 e Mt 16,13-20)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Estamos no XXI Domingo do Tempo Comum. Os textos apresentados pela Liturgia (Is 22,19-23, Rm 11,33-36 e Mt 16,13-20) convergem em torno de uma questão fundamental para a fé bíblica: como compreender a autoridade diante de Deus e do povo? A partir da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia, esses textos revelam que toda autoridade verdadeira procede de Deus, mas não existe para alimentar privilégios pessoais. Ela é confiada como serviço, responsabilidade e cuidado, especialmente em favor daqueles que vivem em situações de vulnerabilidade. A Palavra de Deus, portanto, questiona toda forma de poder que se fecha sobre si mesma e convoca a Igreja a uma prática pastoral comprometida com os pobres, marginalizados e excluídos.

1. Is 22,19-23: a chave não é privilégio, mas responsabilidade

Isaías 22 está inserido no chamado “Oráculo do Vale da Visão” e apresenta uma situação de crise política em Jerusalém. O profeta denuncia Sebna, funcionário de alto escalão, cuja conduta parece marcada pela busca de prestígio pessoal. Em seu lugar, Deus chama Eliacim, filho de Helcias, e lhe confia uma missão: “Porei sobre seus ombros a chave da casa de Davi” (Is 22,22). O contexto histórico remete às tensões vividas por Judá diante do poder assírio, no período do rei Ezequias.

A imagem da chave é extremamente significativa. Ela simboliza autoridade sobre a casa real. Não se trata, porém, de uma autorização para exercer poder arbitrariamente. Eliacim recebe a função como alguém que deverá cuidar da comunidade e administrar aquilo que pertence à casa de Davi. A própria linguagem do texto – “ele será como um pai para os habitantes de Jerusalém” – associa autoridade e cuidado.

A Leitura Popular da Bíblia pergunta: quem possui hoje as chaves que abrem e fecham as portas da sociedade e da Igreja? Quem decide quem entra e quem fica de fora? Quem tem acesso à terra, à moradia, à saúde, à educação, ao trabalho digno, à justiça e à participação política?

Essa pergunta possui enorme força sociotransformadora. Uma Igreja que se compreende a partir dos pobres não pode utilizar suas “chaves” para excluir. Ao contrário, deve abrir portas. A autoridade eclesial somente é evangélica quando se transforma em serviço à vida.

Na perspectiva latino-americana, portanto, Is 22 denuncia a tentação de transformar uma responsabilidade pública em instrumento de autopromoção. A verdadeira autoridade não se mede pelo tamanho do poder que concentra, mas pela capacidade de proteger, incluir e servir. A Igreja é chamada a ser uma comunidade de portas abertas, especialmente para aqueles que a sociedade mantém do lado de fora.

2. Rm 11,33-36: diante do mistério de Deus, toda pretensão de poder se desfaz

Depois de refletir longamente sobre a relação entre Israel e os povos, Paulo irrompe numa profunda doxologia: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus!” (Rm 11,33). Os versículos 34 e 35 retomam referências do Antigo Testamento, especialmente Is 40,13 e Jó 41,11, para afirmar a absoluta gratuidade e soberania de Deus.

O texto não é uma fuga da realidade. Pelo contrário: ele nasce depois de Paulo enfrentar uma questão histórica e comunitária extremamente complexa — a relação entre judeus e gentios no projeto da salvação. O apóstolo conclui que ninguém pode apropriar-se de Deus, como se possuísse a verdade definitiva sobre seus caminhos. Deus não é propriedade de nenhum grupo.

Essa dimensão é particularmente importante para a Teologia Latino-Americana. Se “tudo é dele, por ele e para ele” (Rm 11,36), então ninguém pode reivindicar Deus para legitimar seus interesses particulares. Deus não pertence aos poderosos, aos partidos, às elites, às instituições ou mesmo às nossas certezas religiosas.

A afirmação paulina constitui uma crítica profunda à arrogância humana. O mesmo Deus que age na história é maior que nossas estruturas e projetos. Por isso, a Igreja precisa cultivar uma espiritualidade de humildade, discernimento e escuta.

A Leitura Popular da Bíblia nos ensina a colocar o texto em diálogo com a vida concreta. E a vida dos pobres revela que muitas vezes os seres humanos transformam seus interesses econômicos e políticos em suposta “vontade de Deus”. Rm 11,33-36 impede essa manipulação. Diante do mistério divino, nenhuma autoridade pode dizer: “Deus está do meu lado porque eu estou no poder.”

A verdadeira doxologia conduz à conversão. Se tudo procede de Deus, passa por Deus e encontra nele sua finalidade, então os bens da criação não podem ser apropriados por poucos. A fé conduz à partilha, à solidariedade e ao cuidado da Casa Comum. Louvar a Deus exige reconhecer sua presença na vida dos pequenos e defender a dignidade daqueles cuja existência é ameaçada.

3. Mt 16,13-20: “Tu és o Cristo” e uma Igreja construída para servir

O Evangelho situa Jesus na região de Cesareia de Filipe, importante cidade pagã ao norte da Galileia. É nesse ambiente marcado pelo poder político e por cultos religiosos diversos que Jesus pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” e, depois, “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,13.15).

Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Jesus então lhe atribui o nome de Pedro e fala das “chaves do Reino dos Céus” (Mt 16,19). A linguagem das chaves remete diretamente a Is 22,22, estabelecendo uma ponte teológica entre os dois textos.

Essa conexão é decisiva. A chave confiada a Pedro não deve ser interpretada como autorização para domínio ou privilégio. Ela representa uma responsabilidade ministerial em favor da comunidade. O poder de “ligar e desligar” está associado ao discernimento, à orientação e à construção de uma comunidade capaz de testemunhar o Reino.

Há, porém, uma questão fundamental: que Reino é esse? O Evangelho de Mateus não permite separá-lo da prática de Jesus em favor dos pobres, enfermos, pecadores, mulheres, crianças, estrangeiros e pessoas socialmente excluídas. O Cristo confessado por Pedro é aquele que, imediatamente depois, anunciará seu caminho de sofrimento, rejeição e entrega (Mt 16,21). Portanto, reconhecer Jesus como Messias significa aceitar seu caminho, e não apropriar-se de seu nome para conquistar poder.

A Teologia Latino-Americana insiste precisamente nessa dimensão. A pergunta “quem é Jesus?” não pode ser respondida apenas com uma fórmula doutrinal. Ela precisa ser respondida a partir do modo como Jesus se relaciona com os últimos. Confessar Jesus como Cristo implica assumir sua causa e continuar sua missão.

Pedro recebe as chaves, mas as recebe dentro de uma comunidade que deverá seguir o Mestre servidor. Assim, autoridade e serviço tornam-se inseparáveis. Uma Igreja que reivindica as chaves do Reino, mas fecha suas portas aos pobres, migrantes, indígenas, negros, mulheres, pessoas vulnerabilizadas e tantos outros grupos excluídos, contradiz o próprio sentido do ministério recebido.

4. Uma Igreja que abre portas e coloca-se a serviço da vida

A relação entre os três textos produz uma síntese pastoral muito fecunda. Isaías apresenta a chave como responsabilidade; Mateus retoma a imagem para falar da missão de Pedro e da comunidade de Jesus; Paulo recorda que, acima de toda autoridade humana, existe o mistério de Deus, diante do qual desaparece toda pretensão de domínio.

A Leitura Popular da Bíblia nos permite formular uma pergunta concreta: que portas nossas comunidades estão abrindo e quais ainda estão mantendo fechadas?

Uma Igreja comprometida com o Evangelho precisa abrir portas para quem não tem voz; defender os territórios ameaçados dos povos indígenas e comunidades tradicionais; acolher migrantes e refugiados; enfrentar o racismo, a violência contra as mulheres e a exclusão social; defender trabalhadores submetidos à exploração; cuidar da Casa Comum; e fazer dos pobres não apenas destinatários de assistência, mas sujeitos da evangelização e da transformação social.

Nesse sentido, a autoridade pastoral deve ser compreendida como diaconia. O bispo, o presbítero, o diácono, as lideranças leigas e todos os ministros da comunidade recebem “chaves” para servir, não para dominar. A autoridade cristã perde sua legitimidade quando se converte em privilégio, autorreferencialidade ou mecanismo de controle.

Os três textos nos convidam, finalmente, a superar uma religião centrada no poder e assumir uma Igreja centrada no serviço. As chaves do Reino não foram entregues para fechar o céu aos pequenos, mas para abrir caminhos de vida.

A grandeza da Igreja não está em possuir poder, riquezas ou influência social, mas em tornar visível o rosto de Jesus entre os que sofrem. Como recorda a tradição da Teologia Latino-Americana, a fidelidade a Cristo passa necessariamente pela opção pelos pobres e pela defesa da vida ameaçada.

Assim, Is 22,19-23, Rm 11,33-36 e Mt 16,13-20 nos conduzem a uma mesma profissão de fé: Deus é a origem e o destino de tudo; Cristo é aquele que revela o rosto misericordioso do Pai; e a Igreja recebe autoridade para servir, abrir portas e cuidar da vida. Quando a autoridade se coloca a serviço dos últimos, a comunidade se torna sinal do Reino. Quando se fecha sobre si mesma, deixa de ser instrumento do Evangelho.

Por isso, a pergunta de Jesus permanece atual: “E vós, quem dizeis que eu sou?” A resposta mais autêntica não será apenas aquela pronunciada pelos lábios, mas aquela testemunhada por uma Igreja que, com as chaves nas mãos, escolhe abrir as portas para os pobres, os excluídos e todos aqueles que o mundo insiste em deixar do lado de fora.


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