“É hora de assumir. Se eu me calar, quem os defenderá?”
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Há vidas que não terminam quando a morte chega. Há testemunhos que continuam caminhando pelas estradas da história, pelas comunidades, pelas celebrações, pelas lutas do povo e pela memória daqueles que não aceitam que a injustiça seja apresentada como normalidade. A vida e o martírio de Pe. Josimo Morais Tavares pertencem a essa história.
Negro, filho de uma família pobre, nascido em Marabá (PA), em 1953, Josimo viveu desde a infância na região que hoje corresponde ao Tocantins. Desde muito jovem, ingressou no seminário em Tocantinópolis. Formou-se em Letras, Filosofia e Teologia e, como sacerdote, colocou sua formação intelectual e sua fé a serviço dos pobres, especialmente dos lavradores ameaçados pela concentração da terra e pela violência dos grandes proprietários.
Não foi, portanto, um padre que compreendeu o Evangelho como uma experiência exclusivamente privada. Para Josimo, seguir Jesus significava colocar-se ao lado daqueles cuja vida estava sendo ameaçada. Sua fé o conduziu ao encontro dos pequenos agricultores, posseiros e famílias camponesas expulsas ou ameaçadas em seus territórios.
Foi nesse contexto que assumiu a coordenação da Comissão Pastoral da Terra — CPT, na região do Bico do Papagaio, área marcada por conflitos agrários e pela violência contra trabalhadores rurais. Ali, a questão da terra não era uma discussão abstrata. Tratava-se de famílias que tinham sua casa destruída, sua roça tomada, seus filhos ameaçados e sua própria vida colocada em risco.
1. Um padre diante do poder do latifúndio
A atuação de Josimo incomodava porque ele ajudava os pobres a compreenderem que eles tinham direitos.
Ele denunciava a grilagem, a expulsão dos trabalhadores rurais e a violência praticada contra aqueles que resistiam à concentração da terra. Em uma região onde existiam relações estreitas entre poder econômico, poder político e violência privada, defender os camponeses significava enfrentar interesses muito poderosos.
A própria história da região demonstra como a expansão da fronteira agrícola esteve acompanhada de conflitos envolvendo pequenos agricultores, indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais. Documentos históricos registram que religiosos e agentes pastorais que denunciavam o latifúndio e defendiam a reforma agrária eram vistos por setores do poder como uma ameaça.
É importante compreender essa realidade para não reduzir o martírio de Josimo a uma questão meramente pessoal.
Ele não morreu simplesmente porque algumas pessoas não gostavam dele. Morreu porque seu compromisso com os pobres confrontava uma estrutura de poder.
Essa é uma característica fundamental do verdadeiro profetismo bíblico.
O profeta não é aquele que simplesmente prevê acontecimentos futuros. É aquele que, em nome de Deus, consegue enxergar a injustiça do presente e denunciá-la.
Josimo fez exatamente isso.
2. “Se eu me calar, quem os defenderá?”
A violência contra Josimo foi crescendo. Em abril de 1986, seu veículo foi atingido por disparos. As ameaças de morte tornaram-se cada vez mais concretas.
Mesmo diante do perigo, ele não abandonou o povo.
Poucos dias antes de ser assassinado, durante uma assembleia diocesana, pronunciou seu conhecido Testamento Espiritual, no qual reconhecia que sua morte estava sendo preparada e reafirmava sua opção pelos trabalhadores pobres.
Uma de suas afirmações permanece como uma espécie de síntese de sua espiritualidade: “A minha vida nada vale em vista da morte de tantos pais lavradores assassinados, violentados e despejados de suas terras.”
Não se trata de desprezo pela própria vida. É exatamente o contrário.
Josimo compreendeu que uma vida verdadeiramente cristã não pode ser construída sobre a indiferença diante da morte dos outros.
Sua pergunta — “Se eu me calar, quem os defenderá?” — continua profundamente atual.
Quantas vezes somos tentados a permanecer em silêncio diante da fome, do racismo, da violência contra os povos indígenas, da expulsão de comunidades tradicionais, da destruição ambiental, da exploração dos trabalhadores e da concentração cada vez maior da riqueza?
O silêncio diante da injustiça pode parecer prudência. Mas, muitas vezes, é apenas acomodação.
3. O martírio de 10 de maio de 1986
No dia 10 de maio de 1986, aos 33 anos, Pe. Josimo foi assassinado enquanto subia as escadas do prédio onde funcionava o escritório da CPT em Imperatriz, no Maranhão. O pistoleiro efetuou dois disparos. Josimo ainda conseguiu chegar ao hospital, mas morreu pouco depois.
Posteriormente, houve condenações relacionadas à execução e aos mandantes do crime. O processo judicial mostrou que não se tratava de uma violência aleatória, mas de um assassinato relacionado à sua atuação em defesa dos trabalhadores rurais.
A Igreja das Comunidades Eclesiais de Base, a CPT e os movimentos populares passaram a recordar Josimo como Mártir da Caminhada.
E essa expressão é muito significativa.
Ele não é mártir porque procurou a morte.
É mártir porque não abandonou o caminho do Evangelho quando esse caminho passou a exigir coragem diante dos poderosos.
4. O Evangelho diante da concentração da terra
A opção de Josimo pelos pobres não nasceu de uma ideologia estranha ao cristianismo. Nasceu da própria tradição bíblica.
A Bíblia apresenta repetidamente Deus como aquele que escuta o clamor dos pobres, dos escravizados, das viúvas, dos órfãos, dos estrangeiros e dos trabalhadores explorados.
Os profetas denunciaram reis e poderosos que acumulavam terras e casas enquanto o povo perdia seus meios de sobrevivência.
Isaías, por exemplo, denuncia: “Ai dos que juntam casa a casa e acrescentam campo a campo, até que não haja mais lugar e sejam os únicos moradores da terra!” (Is 5,8).
Essa palavra parece ter sido escrita para muitos dos conflitos que atravessaram a história latino-americana.
O problema não está simplesmente na propriedade. O problema aparece quando a propriedade deixa de cumprir uma função social e passa a ser instrumento de dominação, expulsão e morte.
Foi nesse ponto que Josimo se colocou.
Ele não estava simplesmente defendendo uma determinada política econômica. Estava defendendo pessoas concretas.
Famílias.
Crianças.
Mulheres.
Lavradores.
Gente que precisava da terra para viver.
5. A extrema-direita e a tentação de transformar o pobre em inimigo
É justamente aqui que a memória de Josimo precisa dialogar com o nosso tempo.
O crescimento da extrema-direita em diferentes sociedades não deve ser analisado apenas como uma disputa eleitoral entre partidos. Existe algo mais profundo em jogo: qual projeto de sociedade queremos construir?
Uma das características recorrentes dos discursos extremistas é a transformação do outro em ameaça.
O pobre pode ser apresentado como preguiçoso.
O trabalhador sem terra pode ser apresentado como invasor.
O indígena pode ser apresentado como obstáculo ao desenvolvimento.
O quilombola pode ser apresentado como ameaça à propriedade.
O migrante pode ser apresentado como inimigo.
O defensor dos direitos humanos pode ser apresentado como alguém que protege criminosos.
O movimento social pode ser tratado como inimigo da ordem.
E, quando essa lógica se instala, torna-se muito mais fácil justificar a violência contra aqueles que reivindicam direitos.
A democracia pressupõe pluralidade política. O perigo começa quando uma corrente política abandona o respeito à dignidade humana, à democracia, às instituições, aos direitos fundamentais e à própria verdade, passando a considerar legítima a eliminação simbólica ou física daqueles que pensa serem seus inimigos.
É nesse ponto que a memória de Josimo se torna profética.
6. Quando o discurso contra os pobres prepara o terreno para a violência
O assassinato de Josimo nos ensina que a violência não começa necessariamente com o tiro.
Antes do tiro pode existir a desumanização.
Antes da pistola pode existir o discurso.
Antes da expulsão pode existir a mentira.
Antes da perseguição pode existir a construção de um inimigo.
Por isso, uma sociedade precisa prestar atenção quando determinados grupos começam a ser sistematicamente apresentados como pessoas que não merecem direitos, proteção ou respeito.
A história latino-americana conhece muito bem esse caminho.
Em diferentes períodos, camponeses, indígenas, sindicalistas, agentes pastorais, defensores dos direitos humanos e lideranças populares foram apresentados como perigosos simplesmente porque questionavam estruturas injustas.
A própria documentação histórica sobre Josimo registra que as atividades de denúncia do latifúndio e defesa da reforma agrária eram tratadas por setores ligados ao poder como ameaça.
Por isso, recordar Josimo hoje não significa simplesmente olhar para 1986.
Significa perguntar:
Que discursos estamos permitindo que cresçam novamente?
Quem está sendo transformado em inimigo?
Quem está sendo silenciado?
Quem está sendo expulso de seu território?
Quem está sendo considerado descartável?
7. A política não pode ser separada da defesa da vida
As eleições de 2026 exigem, portanto, discernimento cristão.
A comunidade cristã não deveria escolher seus candidatos apenas por discursos religiosos, símbolos religiosos, citações bíblicas ou declarações de defesa da família.
É preciso perguntar:
Que projeto de sociedade esse candidato defende?
Como trata os pobres?
Como compreende os direitos dos trabalhadores?
Que posição assume diante dos povos indígenas?
Como encara a questão agrária?
Que compromisso possui com a democracia?
Como enfrenta o racismo?
Qual sua posição diante da destruição ambiental?
Defende políticas públicas que garantam saúde, educação, moradia, alimentação e trabalho digno?
Respeita aqueles que pensam diferente?
Rejeita a violência política?
Não basta falar de Deus.
É necessário perguntar que Deus está sendo anunciado e que humanidade está sendo construída em seu nome.
O Deus do Evangelho não pode ser utilizado para legitimar a exclusão.
8. Josimo e as Comunidades Eclesiais de Base
Para as Comunidades Eclesiais de Base, a memória de Josimo possui uma força especial.
As CEBs não podem ser comunidades fechadas sobre si mesmas, preocupadas apenas com a vida interna da Igreja. A espiritualidade cristã conduz à realidade.
A Palavra conduz à vida.
A Eucaristia conduz à partilha.
A oração conduz ao compromisso.
A fé conduz à justiça.
E a comunidade cristã precisa aprender a discernir os sinais dos tempos.
Josimo nos ensina que uma Igreja próxima dos pobres necessariamente será uma Igreja que escuta seus clamores.
Uma Igreja que caminha com os povos do campo.
Que acompanha os trabalhadores.
Que defende os territórios indígenas e quilombolas.
Que cuida da Casa Comum.
Que denuncia a exploração.
Que não se deixa intimidar pelos poderes econômicos.
Que não transforma o Evangelho em instrumento de legitimação dos privilégios.
Essa é uma Igreja verdadeiramente missionária e profética.
9. O sangue do mártir continua perguntando
Quarenta anos depois de seu assassinato, a memória de Josimo continua viva. Em 2026, a CPT e as comunidades da região voltaram a celebrar sua caminhada e seu testemunho, reafirmando que sua vida continua sendo referência para as lutas por terra, água, moradia e igualdade.
Talvez seja essa a verdadeira ressurreição dos mártires.
Não simplesmente lembrar seus nomes.
Mas continuar aquilo pelo qual entregaram a vida.
Josimo morreu defendendo lavradores ameaçados pelo latifúndio. Hoje, seus companheiros de caminhada encontram-se diante de novos desafios: concentração fundiária, violência no campo, destruição ambiental, avanço de grandes projetos sobre territórios tradicionais, precarização do trabalho, fome, desigualdade e discursos políticos que procuram colocar os pobres uns contra os outros.
Por isso, o seu testemunho não pertence ao passado.
Ele interpela o presente.
Quando a extrema-direita cresce alimentando o medo, o ódio, a intolerância e a desumanização do outro, o cristão precisa recuperar a memória dos mártires e perguntar de que lado está o Evangelho.
Não se trata de substituir o Evangelho por uma ideologia.
Trata-se de não permitir que uma ideologia substitua o Evangelho.
Josimo não morreu por um partido.
Não morreu por uma eleição.
Não morreu por uma ideologia.
Morreu porque decidiu colocar sua vida a serviço dos pobres e porque, naquele contexto, defender os pobres significava enfrentar aqueles que lucravam com sua exploração.
10. “Feliz é o povo que não esquece seus mártires”
A frase que marcou a memória das romarias de Padre Josimo permanece como uma convocação: “Feliz é o povo que não esquece seus mártires.”
Esquecer Josimo seria esquecer que a terra pode se transformar em instrumento de opressão.
Seria esquecer que a riqueza pode construir muros entre seres humanos.
Seria esquecer que a fé pode ser domesticada pelos poderosos.
Seria esquecer que o silêncio diante da injustiça também possui consequências.
Mas recordar Josimo significa escolher a vida.
Significa reconhecer que nenhum projeto econômico pode estar acima da dignidade humana.
Significa afirmar que a democracia precisa ser defendida contra toda forma de autoritarismo.
Significa rejeitar o racismo, o ódio e a violência.
Significa defender os pobres sem transformar os pobres em objeto de caridade, mas reconhecendo-os como sujeitos de direitos e protagonistas de sua própria história.
Significa compreender que a terra, a água, a floresta e os territórios dos povos não podem ser tratados simplesmente como mercadorias.
E significa, sobretudo, recuperar uma pergunta que continua ecoando desde aquela caminhada interrompida em 10 de maio de 1986:
Se nós nos calarmos, quem defenderá os pobres?
A resposta cristã não pode ser o silêncio.
A resposta precisa ser a caminhada.
Como Josimo, é necessário caminhar com os pobres, ouvir seu clamor, denunciar aquilo que produz morte e anunciar, através da prática, que outro mundo é possível.
Porque o Evangelho continua sendo incompatível com a indiferença.
E porque a memória dos mártires continua nos ensinando que a vida entregue por amor aos pobres não é uma vida perdida: é uma semente lançada no chão da história.
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