Quando o contexto diz “não”: a coragem de continuar esperançando

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Há momentos da história em que a realidade parece conspirar contra a esperança. Há situações em que as circunstâncias parecem dizer-nos, com uma força quase incontornável: “não há saída”. Não há saída para quem sofre com a pobreza, para quem perde o emprego, para quem vê seus direitos ameaçados, para quem enfrenta uma doença, para quem contempla guerras e violências, para quem luta pela justiça e experimenta sucessivas derrotas. Há também momentos em que a própria Igreja, as comunidades e os agentes pastorais podem sentir o peso do cansaço, da incompreensão e da aparente inutilidade de seus esforços.

É precisamente nesses momentos que a esperança deixa de ser uma palavra bonita e se transforma em uma questão existencial: é possível continuar esperando quando tudo parece recomendar o contrário?

A resposta de diferentes tradições filosóficas e cristãs permite afirmar que sim. Mais ainda: há circunstâncias nas quais esperar é um ato de coragem. Esperar não significa fechar os olhos diante da realidade, mas recusar-se a aceitar que aquilo que existe seja a única possibilidade do que pode existir.

1. Esperança não é ingenuidade

Uma primeira distinção é indispensável. Esperança não é otimismo ingênuo. Infere arrojamento. Não é passividade, mas ação. É Esperançar.

O otimista pode imaginar que tudo acabará bem porque acredita que as circunstâncias, de algum modo, conduzirão naturalmente a um resultado favorável. A esperança, porém, nasce muitas vezes justamente quando não existem garantias suficientes. Ela não desconhece a possibilidade da derrota; ela simplesmente se recusa a transformar a derrota presente em uma sentença definitiva.

A filosofia contemporânea da esperança observa que esperar envolve tanto o desejo de um bem quanto a abertura à possibilidade de sua realização. Por isso, esperança e certeza não são sinônimos. A esperança começa precisamente onde não possuímos o controle absoluto sobre o futuro.

Essa compreensão é particularmente importante para os tempos de adversidade. Quem espera não afirma: “sei que tudo dará certo”. Afirma algo mais humilde e, ao mesmo tempo, mais corajoso: “não aceito que o mal tenha a última palavra”.

2. Ernst Bloch (1985-1977) e o futuro que ainda não nasceu

Poucos filósofos modernos pensaram a esperança com tanta intensidade quanto Ernst Bloch. Em O Princípio Esperança, ele desenvolve a ideia de que a existência humana está aberta ao “ainda-não”. O presente não é uma realidade fechada: carrega possibilidades que ainda não se realizaram.

Bloch chama nossa atenção para uma dimensão frequentemente esquecida da existência: o futuro. A filosofia pode ficar excessivamente presa ao que já aconteceu ou ao que existe imediatamente diante de nós. Entretanto, o ser humano também vive orientado para aquilo que ainda não existe.

A esperança, nesse sentido, possui uma dimensão profundamente transformadora. Ela não é simplesmente esperar que alguma coisa aconteça; é reconhecer, no interior da realidade presente, possibilidades que ainda não encontraram sua forma definitiva.

É aqui que a esperança se aproxima da utopia.

Uma comunidade que luta por moradia digna está afirmando que a cidade atual não é a única cidade possível. Uma comunidade que luta contra o racismo afirma que a sociedade atual não é a única sociedade possível. Quem defende a Casa Comum afirma que o modelo econômico dominante não é o único modo possível de organizar a vida. Quem luta pela paz afirma que a violência não constitui o destino inevitável da humanidade.

A esperança, portanto, possui uma dimensão política: ela impede que o presente seja absolutizado.

Mesmo que Bloch não possa ser simplesmente identificado com a esperança cristã — sua interpretação da religião é profundamente distinta da fé cristã —, sua filosofia oferece uma contribuição importante: o futuro não deve ser considerado mera repetição do presente. A realidade permanece aberta à possibilidade.

3. Gabriel Marcel (1989-1973): esperar é resistir ao desespero

Gabriel Marcel conduz a reflexão para outra dimensão.

Para ele, existe uma diferença fundamental entre dizer “espero que determinada coisa aconteça” e simplesmente “eu espero”. A primeira expressão pode estar ligada a uma expectativa concreta. A segunda manifesta uma atitude mais profunda diante da existência.

Marcel entende a esperança como uma maneira de superar ativamente a tentação do desespero. Ela não depende necessariamente da previsão de um resultado específico. Por isso, uma pessoa pode continuar esperando mesmo quando já não consegue imaginar concretamente como sua situação será transformada.

Essa compreensão é preciosa diante do sofrimento.

Às vezes, não sabemos como uma determinada situação será resolvida. Não sabemos quando terminará uma crise, quando virá uma mudança política, quando a justiça será reconhecida, quando uma ferida será curada. Entretanto, podemos continuar dizendo: “ainda não terminou”.

É uma frase simples, mas extraordinariamente poderosa.

Marcel recorda que a esperança está relacionada à confiança, à disponibilidade e à abertura ao outro. Ela não é uma atitude solitária de quem se fecha em si mesmo, mas possui uma dimensão comunitária. A esperança cresce onde existe relação, amor e confiança.

Por isso, uma comunidade que espera não é uma comunidade passiva. É uma comunidade que se sustenta mutuamente para que ninguém seja entregue ao desespero.

4. Immanuel Kant (1724-1804): “Que me é permitido esperar?”

Immanuel Kant colocou a esperança entre as grandes perguntas da razão humana.

Depois de perguntar “Que posso conhecer?” e “Que devo fazer?”, Kant formula uma terceira questão: “Que me é permitido esperar?”

A pergunta é extraordinariamente atual.

Podemos conhecer muitas coisas sobre a realidade, mas nosso conhecimento não esgota o futuro. Podemos saber que determinadas estruturas são injustas, podemos reconhecer os mecanismos que produzem exclusão, podemos perceber a gravidade de uma crise. Mas ainda permanece a pergunta: o que podemos esperar?

Para Kant, a esperança está profundamente relacionada à moralidade. Não se trata simplesmente de desejar felicidade, mas de esperar que a realidade não seja definitivamente incompatível com o bem e com a justiça. A esperança aponta para a possibilidade de um sentido no qual o bem não seja simplesmente condenado à derrota.

Aqui encontramos uma consequência importante: esperança e responsabilidade caminham juntas.

Não podemos usar a esperança como desculpa para a omissão. Esperar um mundo melhor significa trabalhar para que ele se torne possível.

5. Santo Agostinho (354-430): não há amor sem esperança

Na tradição cristã, Santo Agostinho compreendeu a esperança dentro da tríade das virtudes teologais: fé, esperança e caridade.

A esperança não está isolada. Ela nasce da fé e conduz ao amor. A tradição agostiniana chega a estabelecer uma relação profunda entre essas três dimensões: a esperança cristã não pode ser compreendida sem a fé e sem a caridade.

Isso possui enorme significado pastoral.

Uma esperança que não conduz ao amor corre o risco de tornar-se mero desejo individual. Uma fé que não gera esperança pode transformar-se em resignação. E uma caridade sem esperança pode acabar reduzida a uma assistência incapaz de transformar as estruturas que produzem sofrimento.

A esperança cristã, porém, diz:

Deus ainda está agindo.
A história ainda não terminou.
O Reino ainda está vindo.
O amor ainda pode vencer.

É por isso que a esperança cristã não pode ser confundida com conformismo.

6. Anselmo e Tomás: esperar aquilo que é possível

Na tradição medieval, Santo Anselmo de Cantuária (1033-1109) e São Tomás de Aquino (1225-1274) ajudam-nos a perceber que a esperança não é uma fuga da razão.

São Tomás, particularmente, desenvolve uma análise sistemática da esperança. Para ele, o objeto da esperança é um bem futuro, difícil de alcançar, mas possível. Essa definição é fundamental: a esperança não se dirige ao impossível enquanto impossível, mas ao bem que ainda pode ser alcançado.

Isso nos protege de dois extremos.

De um lado, existe o realismo sem esperança, que olha para as dificuldades e conclui: “não há nada a fazer”.

De outro, existe uma espécie de esperança sem realismo, que ignora obstáculos, estruturas e limites concretos.

A esperança madura permanece entre os dois extremos. Ela conhece a dificuldade, mas procura a possibilidade. É justamente por isso que a esperança exige inteligência, discernimento e perseverança.

7. Søren Kierkegaard: quando a possibilidade do bem permanece

Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855) aproxima a esperança do combate contra o desespero. Para ele, esperar significa relacionar-se com a possibilidade do bem. Não se trata simplesmente de prever um acontecimento favorável, mas de manter aberta a possibilidade de que o bem ainda possa acontecer. Essa perspectiva é especialmente importante quando o ser humano se encontra diante de situações nas quais todas as soluções parecem bloqueadas.

O desespero diz:

“Não há mais possibilidade.”

A esperança responde:

“Enquanto houver possibilidade do bem, não entregarei minha vida ao desespero.”

Kierkegaard compreende a esperança cristã em relação à eternidade e à fé. Mas isso não significa fuga do mundo. Pelo contrário: uma pessoa verdadeiramente esperançosa pode continuar amando, servindo e lutando justamente porque não considera a situação presente como definitiva.

8. Jacques Maritain: esperança e dignidade humana

Jacques Maritain (1882-1973) acrescenta outra dimensão indispensável: a relação entre esperança, dignidade e construção histórica.

A pessoa humana não é mero objeto das estruturas sociais. Ela possui inteligência, liberdade, responsabilidade e vocação para o bem comum. Por isso, defender a dignidade humana significa também preservar a possibilidade de futuro.

Quando uma sociedade afirma que determinados seres humanos são descartáveis, pobres demais para participar, idosos demais para viver com dignidade, migrantes demais para serem acolhidos, crianças pobres demais para receber educação ou povos tradicionais inconvenientes demais para terem seus territórios respeitados, está realizando algo mais profundo do que uma injustiça presente: está tentando roubar-lhes o futuro.

A esperança cristã precisa então tornar-se defesa da dignidade.

Esperar é também afirmar:

“Você tem futuro.”

E essa talvez seja uma das mais belas formas de evangelização.

9. Pieter van der Meer de Walcheren: esperança no meio da noite

Pieter van der Meer de Walcheren (1880-1970) nos oferece um testemunho diferente: não apenas uma teoria sobre a esperança, mas uma existência atravessada por crises, sofrimentos e experiências de fé.

Em seu Diário, encontramos páginas nas quais ele descreve momentos de extrema escuridão. Ele chega a falar de noites nas quais parecia não haver luz, alegria, esperança ou futuro. Entretanto, justamente nesse abismo, aparece a experiência de uma presença que ele identifica como Deus.

Sua experiência é particularmente significativa porque não apresenta a fé como uma anestesia diante do sofrimento.

Ao contrário: Van der Meer de Walcheren conhece profundamente a dor. Experimenta perdas familiares devastadoras e, ainda assim, interpreta sua existência a partir de uma confiança radical em Deus. Seu testemunho registra também a preocupação com o sofrimento dos outros e o desejo de que a vida encontre sentido no amor.

Há algo muito forte nisso.

A esperança nem sempre aparece como luz intensa. Às vezes, ela é apenas uma pequena chama que impede a noite de ser absoluta.

10. Quando a realidade diz “não”

É talvez aqui que todas essas perspectivas podem encontrar-se.

A realidade pode dizer: “Não há solução.”

A esperança responde: “Ainda há possibilidade.”

A realidade pode dizer: “Você perdeu.”

A esperança responde: “A história ainda não terminou.”

A realidade pode dizer: “Você está sozinho.”

A esperança responde: “Há uma comunidade que caminha com você.”

A realidade pode dizer: “O mal é mais forte.”

A esperança responde: “O amor ainda pode agir.”

A realidade pode dizer: “Não adianta lutar.”

A esperança responde: “A luta pelo bem já é uma forma de não entregar-se ao mal.”

Essa não é uma resposta superficial. Não significa negar a força do sofrimento. Significa recusar-lhe o estatuto de absoluto.

11. A esperança como virtude pastoral

Para as comunidades cristãs, essa compreensão possui consequências muito concretas.

Uma comunidade de fé não deveria ser lugar onde as pessoas aprendem apenas a suportar a realidade. Deve ser também lugar onde descobrem que a realidade pode ser transformada.

É necessário acompanhar quem perdeu a esperança; ouvir quem está cansado; estar próximo das famílias que enfrentam a pobreza; defender os trabalhadores; acolher migrantes; caminhar com os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais; cuidar das vítimas da violência; proteger a Casa Comum; defender crianças, jovens, mulheres e idosos; fortalecer aqueles que lutam por moradia, terra, trabalho, saúde e dignidade.

Isso significa que a esperança possui mãos.

Ela visita.
Ela escuta.
Ela organiza.
Ela denuncia.
Ela consola.
Ela celebra.
Ela luta.
Ela persevera.

Uma pastoral que anuncia esperança, mas permanece indiferente ao sofrimento concreto das pessoas, corre o risco de transformar a esperança em discurso religioso vazio.

A verdadeira esperança coloca os pés no chão.

12. A coragem de esperar

Talvez a grande pergunta de nosso tempo não seja simplesmente “temos motivos para esperar?”

Talvez seja: “Estamos dispostos a tornar-nos sinais de esperança?”

Porque, muitas vezes, o ser humano recupera a esperança não porque recebeu uma explicação para seu sofrimento, mas porque encontrou alguém que decidiu permanecer ao seu lado.

É possível que não tenhamos condições de mudar imediatamente uma estrutura inteira. Mas podemos impedir que alguém caminhe sozinho.

Talvez não consigamos acabar imediatamente com a pobreza. Mas podemos lutar por políticas públicas e práticas comunitárias que devolvam dignidade a quem sofre.

Talvez não consigamos interromper todas as guerras. Mas podemos educar para a paz, acolher vítimas, denunciar a violência e recusar a cultura da morte.

Talvez não consigamos resolver todos os conflitos da Igreja. Mas podemos continuar servindo ao Evangelho. É assim que a esperança se torna coragem.

Coragem não é ausência de medo. É não permitir que o medo decida tudo.

E esperança não é ausência de sofrimento. É não permitir que o sofrimento determine sozinho o significado da existência.

Conclusão: o “ainda não” de Deus

A tradição filosófica e cristã, de Agostinho a Tomás, de Kant a Kierkegaard, de Marcel a Bloch, de Maritain a Van der Meer de Walcheren, oferece caminhos diferentes, mas pode ajudar-nos a perceber uma verdade fundamental: o ser humano não está condenado a viver prisioneiro do presente.

Bloch nos recorda o futuro e o possível.

Marcel nos ensina a resistir ao desespero.

Kant pergunta pelo horizonte da esperança.

Agostinho vincula esperança, fé e amor.

Anselmo nos recorda a profundidade da confiança.

Tomás nos ensina que a esperança se dirige ao bem futuro e possível.

Kierkegaard nos convida a permanecer abertos à possibilidade do bem.

Maritain nos ajuda a relacionar esperança, liberdade, dignidade e bem comum.

E Pieter van der Meer de Walcheren testemunha que até mesmo na noite mais profunda pode permanecer uma presença que não nos abandona.

Para nós, cristãos, tudo isso encontra sua plenitude no mistério pascal. A cruz parecia dizer “não”. O túmulo parecia dizer “acabou”. A morte parecia ter pronunciado sua palavra definitiva.

Mas Deus pronunciou outra palavra: A vida venceu!

É por isso que a esperança cristã não é uma ilusão. Ela nasce da Páscoa.

E quando os tempos forem difíceis, quando as estruturas parecerem intransponíveis, quando nossas forças diminuírem e quando o próprio contexto histórico parecer gritar que não existe futuro, talvez seja necessário repetir, com serenidade e coragem:

Ainda não acabou.

Ainda há caminho.

Ainda há possibilidade.

Ainda há amor.

Ainda há compromisso.

Ainda há pessoas dispostas a caminhar.

Ainda há Deus.

E, enquanto houver possibilidade de amar e de lutar pelo bem, há razões para esperar.

Porque a esperança não é a certeza de que venceremos imediatamente.

É a decisão de não deixar de caminhar, mesmo quando o caminho parece dizer “não”.


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