Reflexão para Sexta-feira da 27ª Semana do Tempo Comum

A bênção que liberta e o Reino que enfrenta o mal

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia Eucarística da Sexta-feira da 27ª Semana do Tempo Comum nos coloca diante de duas passagens que, à primeira vista, parecem tratar de assuntos bastante diferentes. Na Carta aos Gálatas, Paulo discute a relação entre fé, Lei e promessa; no Evangelho de Lucas, Jesus enfrenta aqueles que atribuem ao poder do demônio a libertação de uma pessoa possuída. Contudo, os dois textos convergem em uma questão fundamental: onde está a verdadeira ação libertadora de Deus?

Lidos a partir da Teologia Latino-americana e da realidade das Comunidades Eclesiais de Base, esses textos nos recordam que a fé não pode ser reduzida a formalismos religiosos nem a uma espiritualidade desencarnada. A verdadeira fé reconhece a ação de Deus na história e se compromete com a libertação daqueles que sofrem sob diferentes formas de opressão.

1. A fé de Abraão e a bênção destinada a todos

Em Gl 3,7-14, Paulo retoma a figura de Abraão para responder ao conflito existente nas comunidades da Galácia. Alguns cristãos estavam sendo levados a acreditar que, para pertencer plenamente ao povo de Deus, seria necessário assumir determinadas exigências da Lei judaica. Paulo reage afirmando que os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que vivem da fé.

O argumento é profundamente inclusivo: a promessa feita a Abraão — “em ti serão abençoadas todas as nações” — não pode ser transformada em privilégio de um grupo. A bênção de Deus possui uma dimensão universal. Em Cristo, ela alcança também os povos que não pertenciam originalmente ao universo religioso judaico. A promessa culmina no dom do Espírito.

Paulo não está simplesmente desprezando a Lei de Israel. Seu alvo é uma compreensão da Lei como instrumento de superioridade religiosa e como critério para determinar quem pode ou não ser reconhecido como pertencente ao Povo de Deus. A questão central é a gratuidade da salvação.

Isso possui enorme importância para a experiência das Comunidades Eclesiais de Base. Uma comunidade cristã não pode transformar a pertença eclesial em mecanismo de exclusão. Não é a condição social, a origem étnica, a escolaridade, a posição econômica ou a capacidade de cumprir determinados padrões religiosos que determina a dignidade de uma pessoa diante de Deus.

A promessa feita a Abraão aponta para uma Igreja de portas abertas, na qual a bênção recebida se transforma em bênção compartilhada.

A Teologia Latino-americana sempre insistiu que a fé cristã precisa ser lida a partir da realidade concreta. Por isso, a pergunta que nasce de Gálatas hoje é inevitável: quem são aqueles que nossas estruturas sociais, políticas e até religiosas continuam colocando fora da bênção?

São os pobres sem moradia digna? Os trabalhadores submetidos à exploração? Os povos indígenas ameaçados pela invasão de seus territórios? As comunidades quilombolas? As populações periféricas? Os migrantes? As pessoas em situação de rua? As vítimas da violência? As mulheres submetidas a estruturas patriarcais? Os jovens sem perspectivas?

Se em Abraão Deus prometeu bênção para todas as nações, a Igreja não pode ser instrumento de exclusão. Ela é chamada a ser sinal concreto dessa bênção no meio daqueles que a sociedade descarta.

2. Cristo nos liberta da lógica da maldição

Paulo afirma que Cristo nos resgatou da “maldição” e relaciona essa afirmação com a cruz. Não se trata de compreender Deus como alguém que precisava punir Jesus para poder perdoar a humanidade. A perspectiva paulina deve ser lida no contexto da experiência de Cristo que assume sobre si a condição dos condenados e marginalizados.

O crucificado era aquele que o sistema havia colocado fora. Jesus identifica-se radicalmente com os que sofrem a violência e a rejeição. A cruz revela, assim, o rosto de um Deus que não permanece distante do sofrimento humano.

A partir da Teologia Latino-americana, essa afirmação ganha uma força especial: Deus não é indiferente diante da realidade dos crucificados da história.

Os crucificados de ontem continuam encontrando correspondentes nos crucificados de hoje. Existem pessoas que carregam sobre seus corpos as consequências da fome, do racismo, da concentração de renda, da violência, da exploração do trabalho e da destruição ambiental.

Por isso, anunciar que Cristo nos libertou da maldição significa também enfrentar as estruturas que produzem maldições históricas. Não basta dizer aos pobres que Deus os ama. A pastoral cristã precisa contribuir para que esse amor se torne realidade em alimentação, moradia, trabalho digno, saúde, educação, justiça, proteção dos territórios e preservação da Casa Comum.

É nesse ponto que a fé das CEBs encontra uma de suas expressões mais fecundas: a Palavra lida, rezada e celebrada transforma-se em compromisso comunitário.

3. “É pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios”

No Evangelho de Lc 11,15-26, Jesus realiza uma ação libertadora. Entretanto, alguns de seus adversários recusam reconhecer a origem dessa libertação e acusam Jesus de agir pelo poder de Belzebu. O conflito não é simplesmente sobre a existência de demônios. É sobre quem tem autoridade para libertar e como interpretar a ação de Deus.

Jesus responde mostrando a incoerência da acusação: um reino dividido contra si mesmo não pode permanecer. E então pronuncia uma frase decisiva: “Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus” (Lc 11,20).

O Reino manifesta-se onde o mal perde espaço.

A expressão “dedo de Deus” recorda a linguagem bíblica utilizada para falar da ação poderosa de Deus na libertação de seu povo. Em Lucas, portanto, a expulsão do mal não deve ser vista como espetáculo religioso. É um sinal de que Deus está intervindo em favor da vida.

Aqui encontramos uma chave fundamental para a pastoral das CEBs: discernir os sinais da presença de Deus na realidade concreta.

Jesus não utiliza sua autoridade para dominar os pobres ou para aumentar seu próprio prestígio. Sua autoridade manifesta-se na libertação. O Reino acontece quando pessoas escravizadas recuperam sua dignidade.

4. Os “demônios” de ontem e de hoje

A linguagem sobre demônios precisa ser compreendida dentro do universo cultural e religioso do Evangelho. Ao mesmo tempo, ela permite uma leitura pastoral muito atual.

Há forças que desumanizam. Há sistemas que aprisionam. Há estruturas que roubam a esperança.

Quando uma pessoa não consegue sair da pobreza porque está presa a mecanismos permanentes de exploração; quando uma comunidade indígena perde seu território para interesses econômicos; quando uma mulher sofre violência; quando uma criança passa fome; quando trabalhadores são submetidos a condições degradantes; quando a população negra é vítima sistemática da violência; quando a destruição da natureza ameaça comunidades inteiras, estamos diante de realidades que precisam ser enfrentadas pela ação libertadora do Evangelho.

Não devemos transformar todo problema social em “demônio” no sentido literal. Tampouco podemos reduzir o mal à dimensão individual, como se toda situação de sofrimento fosse consequência de uma suposta falta de fé pessoal.

A perspectiva bíblica permite perceber também as dimensões sociais do mal.

Por isso, a ação evangelizadora das CEBs precisa unir oração e transformação da realidade. Oração sem compromisso pode tornar-se alienação; compromisso sem espiritualidade pode perder sua fonte e sua esperança.

5. Uma casa vazia pode voltar a ser ocupada

Na parte final do Evangelho, Jesus fala do espírito impuro que sai de uma pessoa, mas retorna encontrando a “casa varrida e arrumada”. Então traz consigo outros espíritos, e a situação daquela pessoa torna-se pior.

A imagem é muito significativa. Não basta expulsar o mal; é necessário preencher a vida com uma nova realidade.

Para as CEBs, isso significa que a libertação não pode limitar-se a retirar uma pessoa de determinada situação. É preciso construir condições para uma vida nova.

Não basta combater a fome sem lutar por políticas que garantam segurança alimentar. Não basta acolher uma pessoa em situação de rua sem enfrentar as causas da exclusão habitacional. Não basta denunciar o racismo sem construir relações efetivamente antirracistas. Não basta falar da Casa Comum sem questionar práticas econômicas que destroem os territórios e ameaçam a vida.

A casa precisa ser novamente habitada pela dignidade, pela fraternidade, pela justiça, pela solidariedade e pela esperança.

6. Uma Igreja que não dispersa, mas reúne

Jesus declara: “Quem não está comigo está contra mim; e quem não recolhe comigo, dispersa” (Lc 11,23).

Na perspectiva da missão, essa palavra não significa construir uma Igreja sectária, fechada sobre si mesma, que classifica as pessoas entre “bons” e “maus”. Pelo contrário: significa assumir posição diante da vida.

Quem está com Jesus precisa estar do lado da vida.

As Comunidades Eclesiais de Base são chamadas justamente a reunir aquilo que uma sociedade fragmentada dispersa: pessoas pobres, trabalhadores, jovens, mulheres, idosos, povos tradicionais, comunidades periféricas, agentes pastorais e todos aqueles que desejam construir relações mais justas.

A Eucaristia celebrada neste dia deve conduzir a comunidade para além do templo. O pão partilhado no altar precisa despertar o compromisso com o pão que falta na mesa dos pobres. A Palavra proclamada precisa tornar-se palavra praticada. A comunhão celebrada precisa transformar-se em solidariedade concreta.

7. Fé que se torna ação libertadora

Gl 3,7-14 e Lc 11,15-26 convergem, portanto, em uma mesma direção. Paulo anuncia uma bênção que não exclui ninguém; Jesus revela um Reino que derrota as forças que escravizam.

A fé cristã não pode ser utilizada para justificar privilégios, discriminações ou sistemas de exclusão. Ela nasce da gratuidade de Deus e conduz ao compromisso com a vida.

Nas CEBs, isso se concretiza por meio da leitura popular da Bíblia, da organização comunitária, da defesa dos direitos dos pobres, da participação cidadã, da solidariedade com os povos indígenas e quilombolas, da defesa das mulheres e da juventude, da luta por moradia e trabalho digno e do cuidado com a Casa Comum.

A pergunta fundamental desta liturgia talvez seja: de que lado estamos quando Deus começa a libertar?

Os adversários de Jesus viram libertação e chamaram-na de ação do demônio. A comunidade cristã é convidada a fazer o contrário: reconhecer os sinais do Reino onde a vida resiste e cresce.

A bênção de Abraão continua destinada a todas as nações. O Reino de Deus continua chegando onde o mal é enfrentado e onde os pobres recuperam sua dignidade.

Por isso, celebrar esta Eucaristia é renovar a certeza de que a fé que vem de Abraão, passa por Jesus crucificado e ressuscitado e floresce nas comunidades não pode permanecer indiferente diante dos crucificados de nosso tempo.

A verdadeira fé não constrói muros para proteger privilégios. Ela abre caminhos.

Não dispersa: reúne.

Não oprime: liberta.

Não amaldiçoa: abençoa.

E, sobretudo, não se distancia dos pobres, porque reconhece neles o lugar onde o Deus da vida continua chamando sua Igreja à conversão e à missão.


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