A vida vem primeiro: raízes bíblicas de uma catequese que defende os vulneráveis

Seny Giannini*

A defesa dos vulneráveis nasce com a catequese

Quem já foi catequista sabe: a gente começa achando que vai ensinar, e no fim é sempre a gente que aprende. Você prepara um encontro, leva uma dinâmica bonita, ensaia a explicação — e aquele menino que chega calado, com os olhos cansados de uma casa onde falta quase tudo, te ensina mais do que qualquer manual. Foi assim comigo, ao longo de tantos anos de comunidade, e é a partir deste chão que falo.

Porque a catequese não é só transmissão de conteúdo. No seu coração está o anúncio de um Deus que ouve o clamor e desce ao encontro. Os pobres, os pequenos, os que sofrem não são um tema a mais no nosso programa: são o lugar onde o Evangelho se torna concreto. Não por acaso, o título deste texto é a vida vem primeiro, justamente porque o texto  — A Sagrada Escritura — _ escrito vem depois. E é a partir da vida — sobretudo da vida dos pequenos — que a catequese precisa ser pensada. Defender os vulneráveis não é, portanto, uma atividade paralela à catequese: é uma dimensão da sua própria identidade. Para entender isso, é preciso voltar às raízes — à Bíblia e ao primeiro catecismo cristão, a Didaqué.  Antes de falar das raízes, quero esclarecer o que estamos chamando de catequese e catequista. São palavras que ouvimos muito na comunidade, mas que carregam um sentido bem mais profundo do que “dar aula de catecismo”.

O que é catequese? O que é catequista?

Catequese: uma educação da fé. A palavra vem do grego katechein, que significa “fazer ecoar”, “instruir”, “ensinar de viva voz”. Na Igreja primitiva, o catecúmeno — aquele que se preparava para o batismo — era instruído oralmente na fé. A catequese nasce, portanto, como uma educação da fé, como a definiu São João Paulo II: uma ação que leva o crente a amadurecer, a conhecer e a viver o Evangelho (Catechesi Tradendae, n. 18).

A catequese não é só transmissão de conteúdo. Ela é uma conversão da vida. Não basta saber; é preciso viver. A catequese forma discípulos — pessoas que escutam a Palavra, celebram os sacramentos, vivem em comunidade e testemunham o amor de Deus no mundo. O Diretório para a Catequese (2020) insiste nisso: a catequese não é um simples ensinamento, mas uma iniciação à vida cristã, um processo que envolve a pessoa inteira. Quem vive a catequese sabe que ela acontece muito mais na relação do que no conteúdo.

Catequista: um chamado, não um cargo. O catequista é aquele que exerce esse ministério. Mais do que um professor de religião, ele é um testemunho vivo do Evangelho. O Diretório para a Catequese (2020) sublinha que o catequista não transmite apenas doutrina: comunica aquilo que vive. A sua vida é o primeiro conteúdo da sua catequese. As crianças e os adultos que estão diante de nós não escutam só as nossas palavras — eles leem a nossa vida.

As funções do catequista são múltiplas, mas todas convergem para um mesmo centro: formar discípulos de Jesus. Entre elas:

  • Anunciar a Palavra: tornar o Evangelho compreensível e vivo para cada idade e realidade.
  • Educar na fé: acompanhar o crescimento espiritual, da iniciação à maturidade cristã.
  • Testemunhar com a vida: ser exemplo concreto de coerência entre o que se ensina e o que se vive.
  • Acolher e escutar: estar atento às realidades, dores e alegrias de cada pessoa e família.
  • Inserir na comunidade: ajudar o catequizando a participar da vida eclesial e celebrar os sacramentos.
  • Formar para o compromisso social: despertar a consciência para a justiça e a fé que se traduzem em ação.

É justamente nessa última função que o tema deste texto se encontra. Porque a catequese que forma discípulos de Jesus forma também pessoas com o coração voltado para os vulneráveis — e isso, como veremos, não é invenção moderna: está na raiz da própria catequese. Esclarecido o que é a catequese e quem é o catequista, voltemos então às raízes.

O Deus que ouve o clamor

A Bíblia é o primeiro documento da catequese. E ela começa com um Deus que se revela na história de um povo oprimido. No Êxodo, Deus ouve o grito dos escravizados e desce para libertá-los: “Eu vi a opressão do meu povo… ouvi o seu clamor… desci para libertá-lo” (Êx 3,7-8). Esse movimento — ver, ouvir, descer, libertar — é a estrutura de toda a ação de Deus, e deve estruturar também a catequese. Quando a gente se inclina para escutar uma criança ou uma família em dificuldade, estamos repetindo o gesto de Deus: ver, ouvir, descer, libertar.

Os profetas radicalizam essa opção. Isaías denuncia o culto vazio que não se traduz em justiça: “o jejum que quero é o que desata as correntes injustas, desfaz os jugos e põe em liberdade os oprimidos” (Is 58,6). A catequese bíblica que ignora essa dimensão profética corre o risco de anunciar um Deus desencarnado. Um Deus que não se importa com a fome, com a injustiça, com o abandono — esse não é Deus que Jesus revela.

No Novo Testamento, Jesus inaugura o seu ministério lendo o profeta Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa-nova aos pobres” (Lc 4,18). E no juízo final o critério é concreto: “tive fome e me destes de comer; estava nu e me vestistes” (Mt 25,35-36). O próprio Cristo se reconhece no vulnerável. Não é uma questão de opinião — é o critério de vida.

A samaritana: a catequese como troca

Se o Deus do Êxodo desce ao encontro, o Evangelho de João mostra como esse encontro acontece na prática. Há uma cena que é uma catequese perfeita para quem quer defender os vulneráveis: o encontro de Jesus com a samaritana (Jo 4). Vale relê-la com atenção, porque ela desmonta preconceitos que a gente repete há anos.

A mulher está no seu próprio território, no poço de Jacó, herança do seu povo. Ela tem o balde, tem as condições, tem a água. E o estrangeiro na história é Jesus: ele é quem chega de fora, com sede. “Tenho sede” — Jesus não finge; ele precisa. Tem algo a oferecer, mas também necessita (Jo 4,7). Essa é a grande revelação: o próprio Jesus se apresenta vulnerável, dependente do outro. E é uma mulher, samaritana, considerada de fé “errada”, que se torna anunciadora. O vulnerável, no Evangelho, não é objeto de ajuda: é sujeito de anúncio.

A cena ensina que a catequese é troca, não imposição. Não é uma aula em que um sabe e o outro não; é um encontro circular, em que o catequista e o catequizando se dão e se recebem, entre culturas, entre realidades diferentes. A troca só acontece quando reconhecemos que o outro tem algo a nos dar — mesmo que o mundo o considere pequeno. Uma catequese que escuta, que troca, que pergunta, é uma catequese que acolhe o diferente e não o exclui. É o que o professor Schinelo sublinha ao reler essa cena: “a catequese tem que ser troca, não é transmissão de conhecimento, é troca” (Schinelo, 2026). A leitura do Evangelho e a experiência da comunidade dizem a mesma coisa.

A Didaqué: a primeira catequese já nasce com os pobres

Essa lógica da troca e da partilha não é apenas bíblica: ela foi organizada no primeiro catecismo cristão. A Didaquê — do grego didaché, “ensino” — é o documento catequético mais antigo fora do Novo Testamento, datado do final do século I ao início do século II. É um texto de formação das primeiras comunidades. E o que impressiona é que essa catequese já nasce com os pobres no centro.

A parte mais antiga é a doutrina dos dois caminhos: “Há dois caminhos: um da vida e um da morte; grande é a diferença entre os dois” (Didaqué 1,1). O caminho da vida começa com o amor a Deus e ao próximo, e com a regra de ouro: “tudo o que não quiseres que te seja feito, também tu não faças a outro” (Didaqué 1,2). Essa catequese moral não é abstrata. Ela se traduz em gestos concretos: “Não afastes a tua mão do necessitado, mas reparte tudo com o teu irmão, e não digas que é tua propriedade” (Didaqué 4,8). E ainda: “Se possuis algo de tuas mãos, dá-o como resgate dos teus pecados” (Didaqué 4,6). Já no primeiro século, a partilha não era opcional — era consequência da fé.

O que isso significa para nós, catequistas

Se a defesa dos vulneráveis está na raiz da catequese, então ela não pode ficar no papel: precisa aparecer no espaço do encontro, na escuta, na partilha. Na prática, isso significa pelo menos três coisas.

Primeiro: escutar antes de ensinar. O Deus da Bíblia ouve o clamor antes de agir (Êx 3,7-8). Nossa catequese precisa fazer o mesmo — perguntar como a família está, perceber o menino calado, acolher a dor que chega junto com o catequizando.

Segundo: receber o que o pequeno tem para dar. A samaritana nos ensina que a catequese é troca. Quem chega à catequese — mesmo o mais necessitado — não é um recipiente vazio: é alguém que também evangeliza. Reconhecer isso muda a postura do catequista.

Terceiro: repartir como consequência da fé. A Didaqué não sugere: ordena. “Não afastes a tua mão do necessitado” (Didaqué 4,8). Uma comunidade que ensina partilha na catequese e não vive a partilha na vida ensina uma fé que não convence ninguém.

No fim, a pergunta que este texto deixa não é “o que vou ensinar no próximo encontro?”, mas outra, mais antiga e mais exigente: a minha catequese desce ao encontro, como Deus desceu? A resposta, a Bíblia já deu. Deus ouviu o clamor, desceu e libertou. Jesus acolheu a samaritana, e dela saiu o anúncio que converteu a cidade. A Didaqué ordenou: não afastes a tua mão do necessitado. Séculos depois, a Igreja latino-americana reafirmaria essa mesma opção em Medellín e Puebla — mas isso é assunto para nosso próximo texto. Quem vive a catequese todos os dias deve aprender isso cedo: os pequenos não estão longe. Estão ali, na porta, esperando. E é descendo ao encontro deles que a catequese cumpre a sua vocação mais antiga: anunciar  Deus que se fez pequeno no meio do seu povo.

Referências

Vídeo (mesa redonda): MESA REDONDA “A catequese como lugar teológico: escritura, eclesiologia e prática pastoral”. II Semana Filosófico-Teológica, Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Expositores: José Edmilson Esquinelo, Juan Diego Giraldo Aristizábal e Fábio Antunes do Nascimento. Mediação: José Adriano Stevanelli. Disponível em: https://youtu.be/EZgHMQ2025U. Acesso em: 9 out. 2026.

Documentos da Igreja:

JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Catechesi Tradendae (1979), n. 18. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_16101979_catechesi-tradendae.html

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO. Diretório para a Catequese (2020).

Fontes antigas:

Didaqué (Instrução dos Doze Apóstolos), caps. 1 e 4.

Bíblia Sagrada: Êxodo 3,7-8; Isaías 58,6; Lucas 4,18; João 4; Mateus 25,35-36.

Seny Giannini — Bacharelanda em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco.


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