A catequese tem dimensão social: o caminho de Medellín às Diretrizes 2026-2032

Seny Giannini*

No texto anterior, vimos que a defesa dos vulneráveis está na raiz da catequese: no Deus que desce ao encontro (Êx 3,7-8), na samaritana que se torna anunciadora (Jo 4) e no primeiro catecismo cristão, que ordenava repartir com o necessitado (Didaqué 4,8). E deixei uma promessa: a Igreja latino-americana reafirmaria essa mesma opção séculos depois. Este texto cumpre a promessa — e vai além: vamos ver que, de Medellín à Laudato Si’, passando pelos Diretórios para a Catequese, a Igreja não apenas reafirmou a opção pelos pobres, mas ensinou que a própria catequese é o lugar onde essa opção se aprende e se vive.

Vaticano II: a semente da “Igreja dos pobres”

A história começa no Concílio Vaticano II (1962-1965). Foi ali que a aspiração a uma “Igreja dos pobres” — expressão que João XXIII assumiu do cardeal Saliège, de Toulouse, e proclamou ao mundo no discurso de rádio de 11 de setembro de 1962, anunciando o Concílio — veio à tona e ecoou nos documentos conciliares. A Gaudium et Spes ensinou que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos pobres e de todos os que sofrem são também da Igreja: “nada há de genuinamente humano que não encontre eco no seu coração” (GS 1). A Lumen Gentium recordou que a Igreja é “povo de Deus” — não uma pirâmide de clérigos, mas um povo que caminha junto, no qual os pobres e os pequenos têm lugar de destaque (LG 9-10).

O Concílio não criou a opção pelos pobres — ele a reencontrou no próprio Evangelho. Depois de séculos em que a Igreja se acostumou a estar do lado de cima, o Vaticano II devolveu à Igreja a memória de que ela nasceu do lado de baixo. E a semente caiu em solo fértil: na América Latina, onde a maioria dos cristãos vivia na pobreza.

Medellín (1968): a opção se torna palavra — e catequese

Em 1968, os bispos da América Latina se reuniram em Medellín, na Colômbia, para aplicar o Concílio à realidade do continente. O que viram era duro: um grupo pequeno com renda alta e ao lado de massas crescente empobrecidas, famílias sem teto, salários que não bastavam nem para o essencial, violência estrutural. E fizeram uma pergunta que mudou a história da Igreja: por que na América Latina existe uma situação que favorece essas minorias e condena as maiorias à miséria?

A resposta de Medellín foi dupla. Primeiro, nomear a injustiça: a pobreza não é fatalidade, é fruto de estruturas de pecado — o documento fala de “institucionalizada violência” (Medellín, Justiça, 1). Segundo assumir uma direção: a Igreja deve “visar, preferencialmente, os setores mais pobres e necessitados” (Medellín, Pastoral popular, 6). Ali nasce, com esse nome ainda embrionário, a opção preferencial pelos pobres.

E aqui vem o que pouca gente sabe: Medellín dedicou um capítulo inteiro à catequese. O capítulo 8 do documento — intitulado justamente “A catequese” — parte da constatação de que a catequese na América Latina precisava ser renovada a partir da realidade do povo: uma catequese que parta da situação concreta das pessoas, que use a sua linguagem, que leve em conta a sua vida. Desde Medellín, a catequese latino-americana passou a afirmar a unidade absoluta entre a história humana e a história da salvação: é na situação humana concreta — na favela, no bairro sem água, na escola precária — que Deus se revela. Catequizar, portanto, é partir da vida. Não é um acréscimo pedagógico: é uma decisão teológica.

Puebla (1979): a opção se torna doutrina — e os pobres se tornam sujeitos

Onze anos depois, em Puebla, no México, os bispos confirmaram e aprofundaram o caminho. Foi em Puebla que a expressão ganhou a forma clássica que usamos até hoje: a Igreja assume um “compromisso preferencial e solidário com os mais pobres e desprotegidos” (Puebla, n. 1134). E o documento explica o que isso significa — e o que não significa:

Este compromisso exige de nós uma ação muito concreta e urgente, que se oriente a transformar radicalmente as situações de injustiça… Este compromisso preferencial com os pobres está orientado não contra ninguém, mas a favor de todos. (Puebla, n. 1134).

Essa frase é preciosa para desfazer um mal-entendido que atravessa décadas: a opção pelos pobres não é contra os ricos — é a favor de todos, porque uma sociedade que esmaga os pequenos desumaniza também os que esmagam. Puebla também deu um passo decisivo para a catequese: afirmou que os pobres são sujeitos da evangelização, não apenas destinatários. “Os pobres… devem ser os primeiros a ser evangelizados e os primeiros a evangelizar” (Puebla, n. 1147). É a samaritana de novo: o vulnerável não é objeto de ajuda, é sujeito de anúncio — agora com selo episcopal.

Vale registrar, com honestidade, que em Puebla houve tensão: o capítulo sobre a catequese refletia um conflito entre teologias — de um lado, a “catequese de situação” herdada de Medellín; de outro, quem queria uma “catequese doutrinal” mais distante da realidade. A história mostrou que a primeira prevaleceu e amadureceu: a catequese latino-americana seguiu partindo da vida. Esse debate, longe de ser uma mancha, é sinal de uma Igreja que pensa — e é bom que os catequistas saibam que o caminho que hoje parece óbvio foi disputado.

Santo Domingo e Aparecida: a opção atravessa os anos

A opção preferencial pelos pobres não parou em Puebla. Foi confirmada em Santo Domingo (1992) e reafirmada em Aparecida (2007), quando os bispos do continente — com Dom Jorge Bergoglio entre os redatores — afirmaram que a vida de Jesus demonstra essa “opção preferencial e amorosa pelos pobres” e que a Igreja não pode “desvincular-se da realidade dos pobres” (Aparecida, n. 391). Aparecida também deu à catequese um lugar central: as paróquias são chamadas a ser “espaços da iniciação cristã, da educação e celebração da fé” (Aparecida, n. 292), e a iniciação à vida cristã tornou-se o eixo da renovação catequética do continente. Quatro conferências, meio século: a opção pelos pobres não é uma fase da Igreja latino-americana — é a sua espinha dorsal.

Os Diretórios para a Catequese: a doutrina social entra na sala de encontro

Aqui está o coração catequético deste texto. Os dois Diretórios para a Catequese — o de 1997 e o de 2020 — dizem com todas as letras o que este texto vem defendendo desde o primeiro.

O Diretório Geral para a Catequese (1997), no número 19, ensina que a Igreja deseja que, “por meio da catequese, na qual o ensinamento social da Igreja ocupe o seu lugar”, se suscite no coração dos cristãos “o empenho pela justiça” e a “opção e o amor preferencial pelos pobres”, de modo que a presença dos cristãos seja “luz que ilumina e sal que transforma”. Leia de novo, devagar: o Diretório diz que a opção preferencial pelos pobres deve ser suscitada por meio da catequese. Não é tarefa de outra pastoral, de outro setor, de outro grupo. É da catequese. Quem ensina o Pai-Nosso está ensinando, no mesmo gesto, a partilha.

O Diretório para a Catequese (2020) aprofunda: a catequese não é somente estudo e reflexão sobre doutrina, mas deve ser sempre um processo de iniciação no dinamismo da vida da Igreja e do Reino de Deus — o catequizando deve fazer a experiência dos múltiplos compromissos que brotam da fé. E o documento é explícito: o Reino de Deus tem uma dimensão social, porque onde se evangeliza também se deve estimular a promoção da justiça, da paz, da solidariedade; a luta contra a miséria, a fome e a corrupção; o combate à violência e a todas as formas de opressão. A catequese, portanto, tem uma irrenunciável dimensão social. A religião cristã não deve ser alienada: é preciso buscar as coisas do alto (Cl 3,1), mas lutando pela transformação das realidades deste mundo, como “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14).

Observe o que aconteceu: o que o Texto 1 mostrou nas raízes (a Didaqué ordenando repartir), os Diretórios transformaram em norma magisterial. Uma catequese que deixa de lado a sua dimensão social está renunciando a algo que o próprio Diretório chama de irrenunciável.

E há um lugar onde essa dimensão social da iniciação se torna visível: o catecumenato. O RICA — Rito de Iniciação Cristã de Adultos — é o caminho pelo qual adultos entram na fé não por uma aula, mas por uma caminhada em etapas: escuta da Palavra, evangelização, catecumenato, purificação e iluminação, mistagogia. Quem acompanha um catecúmeno adulto percebe logo que a iniciação à vida cristã passa pela vida concreta da pessoa — seu trabalho, sua família, suas lutas. O Diretório para a Catequese (2020) retoma o catecumenato como inspiração para toda a iniciação cristã, e o caminho 2 das Diretrizes 2026-2032 — a Iniciação à Vida Cristã — herda exatamente essa lógica: iniciar na fé é iniciar na vida, e a vida dos pequenos é marcada pela injustiça que Medellín já denunciava. Por isso, o RICA não é só um rito: é a prova de que a catequese de iniciação e a dimensão social da fé são inseparáveis.

Laudato si’: a catequese ecológica

E a criação? A encíclica Laudato si’ (2015) do Papa Francisco estende a mesma lógica aos vulneráveis da terra. No número 49, Papa Francisco une os dois gritos que já ouvimos no Texto 1: “ouvir tanto o grito da terra como o grito dos pobres”. E no capítulo 6 — “Educação e espiritualidade ecológicas” — a encíclica nomeia a catequese como um dos âmbitos educativos da conversão ecológica: “Vários são os âmbitos educativos: a escola, a família, os meios de comunicação, a catequese, e outros” (LS 213). A educação ambiental, diz o Papa, deve criar uma “cidadania ecológica” que não se limite a informar, mas faça amadurecer hábitos (LS 211) — e as comunidades cristãs têm um papel importante nessa educação (LS 214).

Para quem, como eu, caminha na Pastoral da Ecologia Integral, esse número é um presente: a Laudato si’ confirma que a catequese é lugar de formação ecológica — não como tema opcional, mas como âmbito educativo nomeado pelo Papa. O menino que aprende na catequese que Deus ouviu o clamor dos escravizados pode aprender, no mesmo itinerário, a escutar o grito da terra que ele respira — e, no Rio de Janeiro, o grito do ar poluído é também um grito dos pobres, porque são os mais pobres que moram perto das fontes de poluição.

DGAE 2026-2032: a opção chega ao Brasil de hoje

E o Brasil? Em abril de 2026, a 62ª Assembleia Geral da CNBB, reunida em Aparecida, aprovou as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032 (Documento 114), lançadas oficialmente em 17 de junho de 2026. O documento é fruto de mais de três anos de escuta e discernimento, com metodologia sinodal em sintonia com o Sínodo sobre a Sinodalidade — mais de vinte versões e centenas de contribuições. As palavras-chave, segundo Dom Leomar Brustolin, coordenador da comissão elaboradora, são “conversão” e “missão”.

As Diretrizes estruturam a ação evangelizadora em cinco caminhos: Animação Bíblica da Vida e da Pastoral; Iniciação à Vida Cristã; Comunidade de Discípulos Missionários; Liturgia e Piedade Popular; e Serviço à Vida Plena. É no quinto caminho que a herança de Medellín e Puebla se torna programa: o Serviço à Vida Plena reúne três compromissos — a opção evangélica e preferencial pelos pobres, o cuidado da Casa Comum à luz da ecologia integral e a promoção da dignidade humana da concepção ao fim natural. Dom Jaime, cardeal presidente da CNBB, resumiu o espírito do documento: o compromisso com o Evangelho está inseparavelmente ligado ao compromisso com a vida, a justiça e a construção de uma sociedade mais integrada e fraterna.

E note-se: o segundo caminho — a Iniciação à Vida Cristã — é exatamente o território da catequese. Ou seja, nas Diretrizes de 2026, a catequese (caminho 2) e a opção pelos pobres (caminho 5) não são mundos separados: são dois caminhos do mesmo documento, chamados a se atravessar. É o Diretório de 1997 de novo — a opção pelos pobres suscitada por meio da catequese — agora com endereço brasileiro.

O que isso significa para nós, catequistas

Se o Texto 1 mostrou que a defesa dos vulneráveis está na raiz da catequese, este texto mostra que ela está também no presente da Igreja — e não como tema, mas como estrutura. Na prática, três consequências.

Primeiro: ensinar doutrina social é catequese, não política partidária. O Diretório de 1997 pede que o ensinamento social da Igreja ocupe o seu lugar na catequese (n. 19); o de 2020 diz que a catequese tem dimensão social irrenunciável. Quando a catequese ensina que a partilha é consequência da fé, ela está fazendo o que a Igreja manda — não está fazendo política.

Segundo: os pobres são sujeitos, não destinatários. Puebla disse: primeiros a ser evangelizados e primeiros a evangelizar (n. 1147). É a samaritana de novo. Quem chega à catequese carregando a vida dura da favela não vem só receber: vem anunciar.

Terceiro: a conversão ecológica também se aprende na catequese. A Laudato si’ nomeou a catequese como âmbito educativo (LS 213), e as Diretrizes 2026-2032 uniram opção pelos pobres e cuidado da Casa Comum no mesmo caminho. Uma catequese que fala de Deus e não fala da terra ferida está deixando de fora metade do clamor que Deus ouve.

No fim, a pergunta que este texto deixa é a mesma do anterior, agora com endereço: a minha catequese suscita o empenho pela justiça e o amor preferencial pelos pobres, como os Diretórios pedem? A resposta, a Igreja já deu — de Medellín ao DGAE 2026, em meio século de documentos. Resta a nós responder com a vida. E é descendo ao encontro dos pequenos — os da porta, os da favela, os do ar poluído — que a catequese cumpre a sua vocação: anunciar um Deus que se fez pequeno no meio do seu povo.

Referências

Documentos do magistério latino-americano:

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et Spes (1965), n. 1; Constituição dogmática Lumen Gentium (1964), n. 9-10. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/pt/index.htm

CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO. Medellín (1968), Justiça 1, Pastoral popular 6 e cap. 8: “A catequese”.

CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO. Puebla (1979), n. 1134 e 1147.

CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E CARIBENHO. Documento de Aparecida (2007), n. 292 e 391.

Documentos sobre catequese:

CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório Geral para a Catequese (1997), n. 19. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cclergy/documents/rc_con_ccatheduc_doc_17041998_directory-for-catechesis_po.html

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO. Diretório para a Catequese (2020).

FRANCISCO. Carta encíclica Laudato si’ (2015), n. 49, 211, 213 e 214. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

Documentos da CNBB:

CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032 (Documento 114). Aprovadas na 62ª Assembleia Geral (abril de 2026) e lançadas em 17 de junho de 2026. Disponível em: https://www.edicoescnbb.com.br/documentos-da-cnbb-114

CNBB. “CNBB lança Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2026-2032 e reforça chamado à conversão missionária da Igreja no Brasil” (18 jun. 2026). Disponível em: https://www.cnbb.org.br/cnbb-lanca-diretrizes-gerais-da-acao-evangelizadora-2026-2032-e-reforca-chamado-a-conversao-missionaria-da-igreja-no-brasil

CNBB. “A Catequese e a Doutrina Social da Igreja” (11 jul. 2023). Disponível em: https://www.cnbb.org.br/a-catequese-e-a-doutrina-social-da-igreja

Bíblia Sagrada: Êxodo 3,7-8; Mateus 5,13-14; 25,35-36; Colossenses 3,1; João 4.

*Seny Giannini — Bacharelanda em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco.


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