O Espírito que liberta e a religião que oprime
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Palavra de Deus proclamada na Liturgia Eucarística desta quarta-feira nos convida a confrontar a autenticidade de nossa fé com a maneira como vivemos, nos relacionamos e nos comprometemos com a transformação da sociedade. Na Carta aos Gálatas, Paulo apresenta a vida conduzida pelo Espírito como caminho de liberdade e de produção de frutos que revelam a presença de Deus. No Evangelho de Lucas, Jesus denuncia uma religiosidade que valoriza as aparências, mas negligencia a justiça e o amor. Lidos à luz da Teologia Latino-americana e da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos recordam que não existe verdadeira espiritualidade cristã indiferente à dor dos pobres, à exclusão social e às estruturas que negam a dignidade humana.
1. Gálatas 5,18-25: a liberdade que produz frutos de vida
A Carta aos Gálatas foi escrita em um contexto de conflito nas primeiras comunidades cristãs. Paulo enfrentava a atuação de pessoas que defendiam a necessidade de os cristãos de origem gentílica assumirem determinadas exigências da Lei judaica, especialmente a circuncisão, como condição para a plena pertença ao povo de Deus. O apóstolo não desvaloriza a tradição de Israel; ele combate a ideia de que a observância de normas religiosas possa substituir a fé em Cristo e a ação transformadora do Espírito.
Quando afirma que “se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob o domínio da Lei” (Gl 5,18), Paulo não está autorizando uma liberdade sem responsabilidade. Trata-se da liberdade que rompe com tudo aquilo que escraviza o ser humano e o impede de viver o amor. O Espírito não nos conduz ao individualismo, mas à comunhão, à solidariedade e ao serviço.
As chamadas “obras da carne” (Gl 5,19-21) não se limitam aos pecados relacionados à sexualidade. Paulo inclui inimizades, contendas, ciúmes, iras, rivalidades, divisões e facções. Portanto, a “carne”, nesse contexto, designa uma existência fechada em si mesma, dominada por interesses egoístas e relações que destroem a comunidade. Também as disputas pelo poder, a intolerância, o desprezo pelos diferentes e a manipulação da religião para conquistar privilégios contradizem a vida segundo o Espírito.
Em oposição a essas atitudes, Paulo apresenta o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si (Gl 5,22-23). A imagem do fruto é significativa: a presença do Espírito se reconhece pelos resultados concretos que produz na vida pessoal e comunitária. Não basta proclamar uma fé fervorosa; é necessário que ela gere relações mais justas, fraternas e misericordiosas.
Na perspectiva da Teologia Latino-americana, essa passagem adquire uma dimensão profundamente social. Uma espiritualidade que convive tranquilamente com a fome, o desemprego, a violência, a falta de moradia e a destruição da Casa Comum precisa examinar se está realmente produzindo os frutos do Espírito. A liberdade cristã não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em libertar-se do egoísmo para assumir a responsabilidade pelo outro, sobretudo por quem tem sua vida ameaçada.
As CEBs são chamadas a testemunhar essa liberdade por meio da participação comunitária, da leitura popular da Bíblia e da organização solidária. Quando uma comunidade acompanha famílias vulnerabilizadas, defende os direitos dos trabalhadores, acolhe migrantes, combate o racismo e se compromete com a preservação ambiental, ela torna visíveis os frutos do Espírito. Como afirma Paulo, “se vivemos pelo Espírito, procedamos também segundo o Espírito” (Gl 5,25). A fé celebrada precisa tornar-se prática cotidiana de libertação.
2. Lucas 11,42-46: quando a religião esquece a justiça e o amor
O Evangelho de Lucas apresenta Jesus em confronto com fariseus e doutores da Lei durante uma refeição. O conflito não nasce da existência de práticas religiosas, mas da inversão de prioridades que acontece quando a observância minuciosa de normas ocupa o lugar da justiça, da misericórdia e do amor de Deus.
Jesus denuncia aqueles que pagam o dízimo até das menores ervas, mas deixam de lado “a justiça e o amor de Deus” (Lc 11,42). O dízimo, enquanto expressão de fidelidade religiosa, não é condenado em si mesmo. A crítica dirige-se à incoerência de uma prática que cuida dos detalhes exteriores, mas negligencia aquilo que é essencial. A justiça e o amor não são acessórios da fé: constituem critérios fundamentais para avaliar sua autenticidade.
A denúncia prossegue com a crítica à busca pelos primeiros lugares nas sinagogas e pelas saudações nas praças (Lc 11,43). Jesus questiona uma religiosidade que transforma o serviço em prestígio e a autoridade espiritual em instrumento de reconhecimento social. A referência aos túmulos invisíveis (Lc 11,44) aprofunda a advertência: uma aparência de santidade pode esconder realidades que contaminam a vida comunitária e afastam as pessoas da experiência libertadora de Deus.
A intervenção de um doutor da Lei, que se sente atingido pela crítica, conduz Jesus a denunciar também aqueles que impõem aos outros fardos insuportáveis, sem ajudá-los a carregá-los (Lc 11,45-46). Aqui encontramos uma questão pastoral decisiva: a religião pode tornar-se instrumento de opressão quando multiplica exigências, condena os frágeis e ignora as condições concretas de sofrimento do povo.
A Teologia Latino-americana nos ajuda a perceber a atualidade dessa denúncia. Jesus não se coloca contra a fé de Israel, mas contra sua deformação por práticas que obscurecem a vontade de Deus. Sua palavra continua questionando comunidades e lideranças que valorizam mais a aparência, o poder, o rigor moral seletivo e a obediência exterior do que a defesa da vida.
Não podemos falar de justiça e amor enquanto ignoramos famílias sem alimentação adequada, pessoas em situação de rua, trabalhadores submetidos à exploração, mulheres vítimas de violência, povos indígenas ameaçados em seus territórios e comunidades atingidas pela degradação ambiental. Tampouco podemos anunciar um Deus misericordioso e, ao mesmo tempo, utilizar a religião para humilhar, excluir ou silenciar quem sofre.
As CEBs são chamadas a construir uma Igreja próxima do povo, na qual a Palavra seja interpretada a partir da vida e a fé se transforme em compromisso histórico. Isso exige escuta, acolhida, participação e discernimento comunitário. Em vez de impor fardos, precisamos ajudar a carregar os pesos da existência; em vez de buscar privilégios, devemos assumir o serviço; em vez de julgar os pobres, devemos reconhecer neles sujeitos de direitos e protagonistas da transformação social.
3. Uma Igreja conduzida pelo Espírito e comprometida com os pobres
A aproximação entre Gálatas e Lucas revela uma profunda unidade: Paulo apresenta os frutos do Espírito, enquanto Jesus denuncia uma religião que perdeu de vista o essencial. Os dois textos nos convidam a superar a separação entre espiritualidade e compromisso social. A oração, a celebração e a devoção são indispensáveis à vida cristã, mas precisam alimentar uma prática coerente com o Evangelho.
Na caminhada das Comunidades Eclesiais de Base, essa unidade se concretiza quando a comunidade reúne a Palavra de Deus, a realidade do povo, o discernimento coletivo e a ação transformadora. A leitura popular da Bíblia não se limita a buscar respostas individuais: ajuda a descobrir como Deus escuta o clamor dos oprimidos e nos convoca a participar de sua obra libertadora.
Essa missão pode assumir compromissos concretos:
- Defender a dignidade humana, enfrentando a fome, o desemprego, a falta de moradia, o racismo e todas as formas de discriminação.
- Fortalecer a participação popular, apoiando organizações comunitárias, pastorais sociais, movimentos populares e iniciativas de defesa dos direitos humanos.
- Praticar a solidariedade organizada, promovendo redes de apoio às famílias vulneráveis, às pessoas migrantes, às vítimas de violência e a quem vive em situação de abandono.
- Cuidar da Casa Comum, defendendo os territórios, a água, as florestas e as populações atingidas por projetos econômicos que sacrificam a vida em nome do lucro.
- Converter as estruturas eclesiais, para que nossas comunidades sejam espaços de acolhida, diálogo, corresponsabilidade e participação efetiva dos pobres, das mulheres e da juventude.
Essas ações não substituem a evangelização: expressam sua autenticidade. A opção preferencial pelos pobres não é um apêndice ideológico da missão da Igreja, mas uma exigência do seguimento de Jesus e da fidelidade ao Reino de Deus.
Também precisamos examinar nossas próprias comunidades. Há espaço para quem pensa diferente? As pessoas pobres participam das decisões ou são apenas destinatárias de assistência? Nossas celebrações fortalecem a esperança e a organização do povo? Nossas lideranças exercem o serviço com humildade ou reproduzem relações de poder? São perguntas necessárias para que o anúncio do Evangelho não se torne um discurso vazio.
Conclusão: o fruto do Espírito é uma vida que gera vida
A Liturgia Eucarística desta quarta-feira da 28ª Semana do Tempo Comum nos coloca diante de uma escolha fundamental: viver uma religião preocupada principalmente com aparências e privilégios ou assumir uma fé que produz justiça, amor, solidariedade e libertação.
Paulo nos recorda que o Espírito se manifesta em frutos concretos. Jesus nos ensina que a fidelidade religiosa perde sua autenticidade quando despreza a justiça e o amor de Deus. Por isso, a santidade cristã não pode ser confundida com isolamento do mundo, indiferença diante dos conflitos sociais ou cumprimento exterior de obrigações religiosas. Ela se revela também na coragem de enfrentar tudo aquilo que ameaça a vida e a dignidade dos pequenos.
Para as CEBs, permanece o desafio de ser Igreja em saída, comunidade de discípulas e discípulos que escutam a Palavra, celebram a Eucaristia e caminham com os pobres na construção de uma sociedade justa, fraterna e solidária. Que o Espírito Santo nos liberte do egoísmo, do autoritarismo e da indiferença, para que nossa fé não imponha fardos aos que já sofrem, mas ajude a transformar as estruturas que produzem sofrimento.
Afinal, não basta falar de Deus: é preciso testemunhar, com gestos e escolhas concretas, o amor e a justiça do Deus em quem acreditamos. É assim que a Palavra se torna vida, a Eucaristia se prolonga na história e a Igreja manifesta, no meio dos pobres e excluídos, os frutos do Espírito e os sinais do Reino de Deus.
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