O amor a Deus e ao próximo: uma fé que se transforma em compromisso com os pobres

Comentário bíblico-pastoral do 30º Domingo do Tempo Comum — Ex 22,20-26; 1Ts 1,5c-10; Mt 22,34-40

Por Pe. Hermes A. Fernandes

1. Introdução: a centralidade do amor na vida cristã

A Liturgia Eucarística do 30º Domingo do Tempo Comum nos conduz ao coração da fé bíblica: o amor a Deus e ao próximo, inseparáveis de uma prática concreta de justiça, solidariedade e defesa da dignidade humana. As três leituras proclamadas nesta celebração apresentam uma mesma convicção: não existe verdadeira fidelidade a Deus quando a vida do próximo é desprezada, sobretudo quando se trata dos pobres, dos estrangeiros, das viúvas, dos órfãos e de todos aqueles que a sociedade marginaliza.

À luz da Teologia Latino-americana, essa Palavra nos convida a superar uma religiosidade limitada a práticas devocionais, sem compromisso com a transformação da realidade. A experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nos recorda que a fé cristã se alimenta da Palavra, celebra-se na Eucaristia e se concretiza na caminhada do povo, particularmente daqueles que sofrem as consequências da desigualdade social, da violência, do racismo, da exploração econômica e da destruição da Casa Comum.

O amor anunciado por Jesus não é um sentimento abstrato: é uma força que nos compromete com a construção de uma sociedade na qual todas as pessoas tenham vida digna.

2. Êxodo 22,20-26: Deus escuta o clamor dos empobrecidos

O livro do Êxodo apresenta a experiência de um povo que conheceu a escravidão e experimentou a libertação realizada por Deus. A legislação de Ex 22,20-26 faz parte do chamado Código da Aliança (Ex 20,22–23,33), que procura organizar a vida comunitária de Israel a partir da justiça e da responsabilidade para com os mais vulneráveis.

O texto começa proibindo a opressão do estrangeiro: “Não maltratarás o estrangeiro nem o oprimirás, porque fostes estrangeiros na terra do Egito” (cf. Ex 22,20). A memória da escravidão torna-se fundamento ético para a acolhida. Israel não poderia reproduzir contra outros a violência que havia sofrido. A experiência da libertação deveria produzir uma comunidade comprometida com a liberdade de todos.

Na sequência, o texto protege a viúva e o órfão, pessoas que, naquele contexto histórico, frequentemente estavam privadas de segurança econômica, proteção jurídica e apoio familiar. Deus se apresenta como aquele que escuta o clamor dos injustiçados e não permanece indiferente diante de sua aflição. A religião bíblica, portanto, não legitima a opressão: coloca-se ao lado de quem tem sua vida ameaçada.

A legislação também condena a exploração econômica do pobre. O empréstimo não poderia se transformar em instrumento de dominação, e a capa tomada como garantia deveria ser devolvida antes do anoitecer, pois servia de proteção durante a noite. O direito do credor não poderia se sobrepor à necessidade fundamental de quem dependia daquela roupa para se aquecer.

A mensagem é profundamente atual. Em nossa sociedade, estrangeiros e migrantes enfrentam xenofobia e exploração laboral; mulheres responsáveis sozinhas por suas famílias encontram dificuldades para garantir o sustento dos filhos; pessoas endividadas são submetidas a juros abusivos; famílias inteiras vivem sem moradia adequada, alimentação suficiente e acesso à saúde.

A Teologia Latino-americana reconhece nessa Palavra a revelação de um Deus que escuta o clamor dos oprimidos e interpela seu povo a agir. Nas CEBs, essa leitura deve despertar iniciativas concretas: organização de redes de solidariedade, defesa dos direitos dos migrantes, combate à fome, apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade, participação em conselhos de políticas públicas e denúncia de estruturas econômicas que perpetuam a pobreza.

A memória do Êxodo nos ensina que a comunidade libertada por Deus não pode aceitar como normal a escravidão contemporânea produzida pela miséria, pelo trabalho degradante e pela exclusão social.

3. 1 Tessalonicenses 1,5c-10: uma comunidade que testemunha o Evangelho

A Primeira Carta aos Tessalonicenses é considerada um dos escritos mais antigos do Segundo Testamento, provavelmente redigido por volta do ano 50 d.C. Paulo dirige-se a uma comunidade cristã situada em Tessalônica, importante cidade da Macedônia, marcada pelo comércio, pela diversidade cultural e pela influência do Império Romano.

Na leitura deste domingo, o apóstolo reconhece que o Evangelho chegou à comunidade não apenas por palavras, mas também “com a força do Espírito Santo” (cf. 1Ts 1,5). A fé cristã não se reduz à transmissão de ensinamentos: manifesta-se em atitudes que tornam visível a presença de Deus na história.

Paulo destaca que os tessalonicenses se tornaram imitadores dele e do Senhor, acolhendo a Palavra em meio às tribulações, com a alegria que vem do Espírito Santo. Mesmo diante das dificuldades, aquela comunidade tornou-se referência para outras comunidades da região. Sua fé ultrapassou os limites do espaço celebrativo e repercutiu na vida cotidiana, tornando-se testemunho público do Evangelho.

A conversão mencionada no texto significa abandonar os ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro. Embora Paulo se refira diretamente à superação da idolatria religiosa, essa afirmação também nos permite refletir sobre os ídolos que continuam seduzindo a sociedade contemporânea: o dinheiro transformado em finalidade absoluta, o poder exercido para dominar, o consumismo, o individualismo e a indiferença diante do sofrimento humano.

Na perspectiva da Teologia Latino-americana, uma comunidade missionária não é aquela que simplesmente aumenta o número de participantes, mas aquela que testemunha, por sua maneira de viver, os valores do Reino de Deus. As CEBs são chamadas a ser espaços de acolhida, formação bíblica, participação popular, solidariedade e resistência diante de tudo aquilo que ameaça a vida.

Isso exige que nossas comunidades não se acomodem diante da fome, do desemprego, da violência contra as mulheres, do racismo, da situação dos povos indígenas e das famílias sem moradia. A fé celebrada deve produzir compromisso social e coragem profética.

Como os primeiros cristãos, somos chamados a testemunhar que outra maneira de organizar a vida é possível: uma sociedade fundamentada na fraternidade, na partilha, na justiça e no cuidado com a Casa Comum. A missão evangelizadora torna-se mais convincente quando o Evangelho é reconhecido na prática cotidiana de uma comunidade que acolhe e defende os mais vulneráveis.

4. Mateus 22,34-40: amar a Deus é amar concretamente o próximo

No Evangelho, um fariseu, intérprete da Lei, pergunta a Jesus qual é o maior mandamento. A pergunta acontece em meio às controvérsias de Jesus com diferentes grupos religiosos em Jerusalém. Não se trata apenas de uma discussão teórica: está em jogo a maneira de compreender e praticar a vontade de Deus.

Jesus responde unindo duas passagens das Escrituras de Israel. A primeira é Dt 6,5, que ordena amar a Deus com todo o coração, toda a alma e todo o entendimento. A segunda é Lv 19,18: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

O primeiro mandamento remete ao Shemá Israel, a profissão de fé fundamental do povo judeu (Dt 6,4-9). Amar a Deus significa orientar toda a existência para Ele, reconhecendo sua presença e sua soberania. O segundo mandamento, por sua vez, insere esse amor nas relações humanas: o próximo deve ser tratado com a mesma dignidade e consideração que desejamos para nós.

O aspecto decisivo da resposta de Jesus está na afirmação de que desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22,40). O amor torna-se, assim, o critério fundamental para interpretar a Escritura e discernir a autenticidade da prática religiosa.

Jesus não coloca o amor a Deus em oposição às exigências da justiça. Ao contrário, demonstra que a fidelidade ao Senhor precisa ser reconhecida na maneira como tratamos as pessoas. A oração, a celebração e a observância religiosa perdem sua autenticidade quando convivem tranquilamente com a exploração, a exclusão e o desprezo pelos pequenos.

A Teologia Latino-americana encontra nessa passagem um fundamento para a opção preferencial pelos pobres. Essa opção não significa amar exclusivamente os pobres, mas reconhecer que sua dignidade é frequentemente negada e que, por isso, sua defesa exige uma atenção especial da comunidade cristã. Amar o próximo implica escutar sua voz, reconhecer seus direitos e participar da transformação das condições que produzem sofrimento e exclusão.

Nas CEBs, o mandamento do amor precisa traduzir-se em gestos concretos: acolher quem chega à comunidade, visitar os enfermos, acompanhar famílias em situação de vulnerabilidade, combater a fome, defender os direitos humanos e promover a participação dos pobres nas decisões que afetam suas vidas.

Também exige discernimento crítico diante de discursos religiosos que justificam preconceitos, naturalizam a desigualdade ou utilizam o nome de Deus para legitimar a violência. Não basta proclamar que Deus é amor; é necessário construir relações que expressem esse amor.

5. Da Eucaristia à missão: uma Igreja comprometida com a vida

As três leituras deste domingo convergem para uma mesma exigência pastoral: o amor a Deus torna-se visível na defesa da vida e da dignidade do próximo. O Êxodo recorda que Deus escuta o clamor dos oprimidos; Paulo apresenta uma comunidade que testemunha o Evangelho em meio às tribulações; Jesus revela que o amor é o centro de toda a Lei e dos Profetas.

A celebração eucarística, portanto, não termina com a bênção final. A Palavra proclamada e o Pão partilhado enviam a comunidade ao encontro das realidades humanas que precisam ser transformadas. Comungar o Corpo de Cristo implica reconhecer sua presença também nos corpos feridos pela fome, pelo abandono, pela violência e pela injustiça.

Para as CEBs, esse compromisso pode concretizar-se por meio de três caminhos complementares: a leitura popular da Bíblia, que ajuda o povo a reconhecer a ação de Deus na história; a organização comunitária, que fortalece a solidariedade e o protagonismo dos empobrecidos; e a ação sociotransformadora, que articula a caridade com a defesa de direitos e a participação cidadã.

Não basta distribuir alimentos se não nos perguntamos por que tantas famílias passam fome. Não basta acolher quem perdeu a moradia se permanecemos indiferentes às causas da exclusão habitacional. A solidariedade imediata é indispensável, mas deve caminhar junto com a transformação das estruturas que produzem pobreza.

Essa missão também inclui o cuidado com a Casa Comum, pois os danos ambientais atingem de maneira especialmente severa os povos indígenas, as comunidades tradicionais, os trabalhadores rurais e as populações periféricas. A justiça social e a justiça ambiental são dimensões inseparáveis do amor cristão.

Inspiradas no testemunho de Jesus e na caminhada das comunidades populares, nossas Igrejas são chamadas a ser sinais de esperança, lugares de escuta e espaços de participação, nos quais os pobres não sejam tratados apenas como destinatários da assistência, mas reconhecidos como sujeitos de sua história e protagonistas da missão evangelizadora.

6. Conclusão: o amor que se faz história

O 30º Domingo do Tempo Comum nos recorda que o centro da experiência cristã não é uma religiosidade desligada da realidade, mas o amor que transforma a relação com Deus, com as pessoas e com toda a criação.

O Deus do Êxodo escuta o clamor dos oprimidos; o Deus anunciado por Paulo suscita comunidades que testemunham o Evangelho; e Jesus nos ensina que amar a Deus e amar o próximo são mandamentos inseparáveis.

À luz da Teologia Latino-americana, somos convidados a fazer da fé uma experiência de libertação, da Eucaristia uma fonte de fraternidade e das CEBs espaços de compromisso com os pobres, marginalizados e excluídos de ontem e de hoje.

A pergunta que a liturgia deixa para nossas comunidades é exigente: nosso modo de celebrar, evangelizar e organizar a vida revela o amor de Deus ou convive com as injustiças que ferem seus filhos e filhas?

Que a Palavra de Deus, acolhida e meditada em comunidade, nos ajude a transformar a oração em solidariedade, a solidariedade em compromisso e o compromisso em ações concretas pela justiça, pela paz e pela vida em abundância para todos.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑