Uma leitura a partir da Teologia Latino-americana e da Ecologia Integral
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução: voltar às origens para compreender o presente
Os três primeiros capítulos do Livro do Gênesis ocupam um lugar fundamental na tradição bíblica. Neles encontramos narrativas que procuram responder a questões essenciais da existência humana: de onde viemos? Qual é o nosso lugar no mundo? Que relação devemos estabelecer com Deus, com as outras pessoas e com a natureza? Por que a violência, a injustiça, o sofrimento e a ruptura das relações fazem parte da experiência humana?
Esses textos, porém, não devem ser lidos apenas como relatos sobre um passado distante. Sua força teológica reside também na capacidade de iluminar o presente e questionar os caminhos que a humanidade tem percorrido. Em uma época marcada pela crise climática, pelo desmatamento, pela contaminação das águas, pela perda da biodiversidade e pelo aprofundamento das desigualdades sociais, retornar ao Gênesis significa redescobrir a vocação humana diante da Criação.
A Teologia Latino-americana, especialmente em sua aproximação com a leitura popular da Bíblia, oferece uma contribuição importante para essa tarefa. Ao partir da realidade concreta dos pobres, dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e das populações mais vulnerabilizadas, essa perspectiva procura escutar a Palavra de Deus em diálogo com os clamores da história. A Bíblia não é instrumento de alienação diante dos problemas do mundo, mas fonte de discernimento, esperança e compromisso com a vida.
Essa leitura encontra um diálogo particularmente fecundo com a Ecologia Integral, desenvolvida de maneira abrangente pelo papa Francisco na encíclica Laudato Si’. Nela, somos convidados a reconhecer que a crise ambiental não pode ser separada da crise social, econômica, cultural e espiritual. A destruição da natureza e a exploração dos seres humanos frequentemente procedem de uma mesma lógica: a transformação de tudo em mercadoria e a submissão da vida aos interesses do poder e do lucro.
Os capítulos 1, 2 e 3 do Gênesis oferecem, portanto, fundamentos para uma espiritualidade ecológica comprometida com a justiça. Neles encontramos a bondade da Criação, a dignidade humana, a responsabilidade pelo jardim e, finalmente, a denúncia das rupturas que atingem as relações com Deus, com o próximo e com a Terra.
1. Gênesis 1: a bondade da Criação e a dignidade de todas as formas de vida
O primeiro capítulo do Gênesis apresenta uma grande narrativa sobre a Criação do universo. A cada etapa, Deus contempla aquilo que fez e reconhece a sua bondade. A luz, o firmamento, os mares, a terra, a vegetação, os astros, os animais e, finalmente, os seres humanos aparecem como partes de uma mesma realidade querida por Deus.
A repetição da expressão “E Deus viu que era bom” (Gn 1,4.10.12.18.21.25) possui enorme importância teológica. Antes de qualquer utilidade econômica ou benefício para a humanidade, a Criação é reconhecida como boa. A Terra não precisa justificar sua existência pelo lucro que pode produzir, assim como os animais não existem apenas para satisfazer as necessidades humanas.
Essa afirmação questiona profundamente uma mentalidade que mede o valor da natureza exclusivamente por sua capacidade de gerar riqueza. Uma floresta não é importante somente pela madeira que fornece; um rio não vale apenas pela energia que pode produzir; um território não se resume às riquezas minerais escondidas em seu subsolo. A Criação possui uma bondade que antecede os interesses humanos.
Essa perspectiva encontra eco na Laudato Si’, quando Francisco recorda que as criaturas possuem valor próprio diante de Deus. A natureza não é um simples cenário onde se desenrola a história humana, mas uma comunidade de vida da qual fazemos parte.
A humanidade à imagem de Deus
O ponto culminante da narrativa encontra-se em Gênesis 1,26-27, quando Deus cria o ser humano à sua imagem e semelhança, homem e mulher. Essa afirmação estabelece a dignidade fundamental de todas as pessoas. Nenhuma vida humana pode ser considerada descartável por causa de sua origem, condição econômica, cultura, gênero ou posição social.
A perspectiva latino-americana ajuda a perceber as consequências sociais dessa afirmação. Se toda pessoa é portadora da imagem de Deus, não há justificativa para a fome, a exploração do trabalho, o racismo, a violência contra os povos indígenas ou a expulsão de comunidades de seus territórios em nome de interesses econômicos.
A dignidade humana, entretanto, não significa superioridade absoluta sobre as demais criaturas. A humanidade recebe uma responsabilidade particular dentro da Criação, mas não se torna dona ilimitada da vida. Sua dignidade precisa ser compreendida em relação com Deus, com o próximo e com a totalidade do mundo criado.
Dominar não significa destruir
Um dos versículos mais discutidos na interpretação ecológica do Gênesis é aquele em que Deus concede aos seres humanos o domínio sobre os peixes, as aves e os demais animais (Gn 1,28).
Durante muito tempo, certas interpretações cristãs enfatizaram esse domínio de maneira unilateral, como se a humanidade tivesse recebido autorização divina para explorar indiscriminadamente a natureza. Contudo, o texto precisa ser interpretado à luz do conjunto da narrativa bíblica, que apresenta toda a Criação como boa e pertencente a Deus.
Referências para aprofundamento
O domínio humano não pode ser confundido com tirania. Se o ser humano é imagem de Deus, seu exercício de poder deve refletir, por analogia, o cuidado e a generosidade do Criador, e não a lógica da destruição.
A Teologia Latino-americana acrescenta uma pergunta decisiva: quem se beneficia desse domínio e quem paga o preço de sua utilização irresponsável? Quando a exploração de recursos naturais produz riqueza para poucos e deixa contaminação, doenças, pobreza e deslocamento para muitos, a questão ecológica torna-se também uma questão de justiça.
A crise ambiental revela que não basta falar genericamente em responsabilidade humana. É necessário examinar as estruturas econômicas e políticas que organizam a apropriação da terra, da água, das florestas e dos minerais.
Gênesis 1 convida, assim, a reconhecer a Criação como um bem recebido, e não como uma propriedade absoluta. A humanidade é parte de uma obra que a precede e a ultrapassa.
2. Gênesis 2: cultivar e guardar o jardim
Se o primeiro capítulo apresenta uma visão abrangente da Criação, o segundo aproxima o olhar do ser humano e de sua relação com a Terra.
Em Gênesis 2,7, o ser humano é formado do pó do solo, enquanto Deus sopra em suas narinas o hálito da vida. Essa imagem expressa uma verdade profunda: a humanidade pertence à terra. O próprio nome hebraico ’adam, ser humano, está relacionado a ’adamah, solo ou terra cultivável.
Não somos seres absolutamente independentes da natureza. Nosso corpo é constituído por elementos que pertencem ao mundo material; dependemos da água, do ar, dos alimentos, dos ciclos naturais e das inúmeras formas de vida que tornam possível a existência humana.
A imagem bíblica do ser humano formado do pó questiona qualquer pretensão de superioridade absoluta sobre a Criação. Somos frágeis, dependentes e mortais. A terra não é apenas um recurso exterior a nós: ela faz parte das condições fundamentais de nossa existência.
Cultivar e guardar: uma vocação ecológica
Gênesis 2,15 afirma que Deus colocou o ser humano no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo. Os dois verbos são fundamentais para uma teologia da Ecologia Integral.
Cultivar significa trabalhar a terra, produzir alimentos, desenvolver conhecimentos e organizar a vida material. A Bíblia não apresenta o trabalho humano como algo necessariamente contrário à natureza. Pelo contrário, o cultivo pode ser expressão da criatividade e da responsabilidade humana.
Guardar, porém, significa proteger, preservar e cuidar. O cultivo não pode ser separado da responsabilidade de manter as condições que permitem à vida continuar florescendo.
A relação entre esses dois verbos oferece um critério para avaliar nossos modelos de desenvolvimento. Uma atividade econômica que produz riqueza enquanto destrói as fontes de água, degrada o solo, compromete a biodiversidade e expulsa populações de seus territórios rompe a unidade entre cultivar e guardar.
O jardim não foi entregue à humanidade para que fosse esgotado, mas para que fosse cuidado.
Essa leitura possui uma ressonância especial na realidade latino-americana, onde a concentração fundiária, o avanço de atividades predatórias e os conflitos territoriais frequentemente colocam em risco a vida de comunidades inteiras. Os povos indígenas e as comunidades tradicionais, com suas diferentes histórias e conhecimentos, podem oferecer contribuições importantes para a reflexão ecológica, embora não devam ser idealizados nem tratados como grupos homogêneos.
Suas experiências demonstram, em muitos contextos, que a relação com o território pode envolver memória, identidade, espiritualidade, subsistência e responsabilidade coletiva, para além de seu valor comercial.
A pergunta que Gênesis 2 nos dirige é profundamente atual: estamos cultivando e guardando o jardim ou estamos transformando-o em um espaço de exploração sem limites?
A solidão humana e a interdependência da vida
Outro aspecto importante do segundo capítulo aparece quando Deus declara: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18).
A afirmação interrompe a sequência de avaliações positivas da Criação e revela que a existência humana não encontra sua plenitude no isolamento. A pessoa precisa de relações, vínculos e reciprocidade.
Embora o texto trate diretamente da relação humana, ele também permite uma reflexão mais ampla sobre a interdependência que caracteriza a vida. Nenhuma comunidade existe isoladamente; nenhuma sociedade pode prescindir dos sistemas naturais que a sustentam. A água que chega às cidades depende de ecossistemas, bacias hidrográficas e ciclos climáticos que ultrapassam fronteiras administrativas.
A Ecologia Integral reconhece precisamente essa interconexão. As dimensões ambiental, social, econômica, cultural e cotidiana da existência estão profundamente relacionadas. Por isso, a solução dos problemas ecológicos exige mais do que intervenções técnicas isoladas: requer mudanças nas formas de produzir, consumir, conviver e organizar a sociedade.
O jardim bíblico nos recorda que a vida floresce na relação. A destruição dos vínculos, seja entre pessoas, seja entre comunidades e seus territórios, empobrece a existência humana.
3. Gênesis 3: a ruptura das relações e a lógica da exploração
O terceiro capítulo do Gênesis introduz uma mudança dramática na narrativa. A harmonia é rompida, a confiança dá lugar à suspeita e o ser humano passa a experimentar o medo, a vergonha e a acusação.
A serpente questiona a palavra divina, a mulher e o homem comem do fruto proibido e, diante da pergunta de Deus, procuram justificar suas ações. O homem responsabiliza a mulher; a mulher responsabiliza a serpente. Em vez de assumir a própria responsabilidade, os personagens transferem a culpa.
É importante observar que o texto não deve ser utilizado para atribuir às mulheres uma culpa especial pela condição humana. A narrativa envolve ambos os personagens, e a tradição cristã precisa interpretá-la sem transformar a figura da mulher em justificativa religiosa para a desigualdade ou a violência de gênero.
Em sua profundidade teológica, Gênesis 3 fala da ruptura da confiança, do desejo de ultrapassar os limites e da tentativa humana de ocupar um lugar que não lhe pertence. O problema não é o conhecimento em si, mas a busca de autonomia absoluta, desvinculada da responsabilidade e da comunhão.
Quando tudo se transforma em objeto de apropriação
A promessa da serpente, de que os seres humanos seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal (Gn 3,5), pode ser lida, com os devidos cuidados, como uma representação da tentação de exercer um poder sem limites.
A humanidade passa a agir como se pudesse determinar sozinha as condições da existência, ignorando os vínculos e as consequências de suas escolhas. Essa atitude encontra paralelos contemporâneos em modelos de desenvolvimento que tratam a natureza como matéria disponível para apropriação ilimitada.
A destruição ambiental não decorre simplesmente do fato de o ser humano transformar a natureza para sobreviver. A agricultura, a construção de moradias, a produção de energia e o desenvolvimento tecnológico fazem parte da história humana. O problema está em organizar essas atividades sem reconhecer limites ecológicos, responsabilidades coletivas e direitos das populações afetadas.
A crítica teológica deve, portanto, ir além da condenação de comportamentos individuais. É necessário examinar os sistemas que estimulam o consumo excessivo, concentram benefícios, distribuem desigualmente os danos e convertem os bens comuns em instrumentos de enriquecimento particular.
A Teologia Latino-americana, em seu diálogo com a realidade histórica, ajuda a perceber que o pecado também possui dimensões sociais e estruturais. A injustiça não se reduz a uma coleção de falhas pessoais: pode estar inscrita em instituições, relações econômicas e práticas coletivas que normalizam a exclusão.
Sob essa perspectiva, a crise ecológica não é apenas um problema de tecnologia ou de gestão ambiental. Ela possui uma dimensão ética e espiritual, pois envolve a maneira como a humanidade compreende seu lugar no mundo e exerce seu poder sobre a vida.
A Terra sofre as consequências da ruptura
Depois da desobediência, o texto apresenta a experiência humana marcada pelo sofrimento, pela dificuldade do trabalho e pela mortalidade (Gn 3,16-19). A terra, que deveria ser cultivada, passa a ser experimentada também como espaço de resistência e fadiga.
Não seria correto afirmar que Gênesis 3 descreve diretamente a crise climática contemporânea. Seu horizonte é outro: trata-se de uma narrativa teológica sobre a condição humana, suas escolhas e as consequências da ruptura com Deus.
Entretanto, sua linguagem permite estabelecer uma aproximação crítica com a realidade atual. Quando as relações são organizadas pela dominação, a Terra deixa de ser acolhida como dom e passa a ser submetida a uma exploração que desconsidera seus limites.
Os resultados podem ser observados em solos degradados, águas contaminadas, florestas destruídas e territórios tornados inadequados à continuidade de determinadas formas de vida. As consequências não atingem todos da mesma maneira: populações com menos recursos e menor capacidade de proteção frequentemente encontram maiores dificuldades para enfrentar os danos ambientais.
A leitura ecológica do Gênesis não consiste em procurar uma previsão científica da crise ambiental no texto antigo. Consiste em reconhecer que sua reflexão sobre a ruptura das relações pode iluminar os dilemas éticos de nosso tempo.
Deus procura o ser humano
Mesmo diante da desobediência, Deus não desaparece da narrativa. A pergunta “Onde estás?” (Gn 3,9) é especialmente significativa.
Não se trata apenas de uma busca por localização. A pergunta pode ser compreendida como um convite ao reconhecimento da própria condição: onde está o ser humano em sua relação com Deus, com o próximo e com a Criação?
Hoje, essa pergunta pode ser dirigida às sociedades que conhecem os efeitos da degradação ambiental, mas continuam adiando mudanças necessárias. Onde estamos quando comunidades perdem o acesso à água limpa? Onde estamos quando populações são deslocadas pela destruição de seus territórios? Onde estamos quando a busca por riqueza compromete as condições de vida das próximas gerações?
A pergunta divina não é somente acusação. Ela abre a possibilidade de reconhecer o erro, assumir a responsabilidade e reconstruir relações.
A esperança bíblica começa quando a humanidade deixa de esconder suas escolhas e se dispõe a responder por elas.
4. A Ecologia Integral: cuidar da Casa Comum é defender a vida
A reflexão sobre Gênesis 1–3 encontra uma síntese contemporânea na proposta de Ecologia Integral apresentada pelo Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’, publicada em 2015.
Francisco insistia que não existem duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma crise socioambiental complexa. A degradação dos ecossistemas, a pobreza, a desigualdade e os padrões de consumo estão relacionados e precisam ser enfrentados de maneira integrada.
Essa visão aprofunda a intuição bíblica de que a vida é uma realidade relacional. A Criação não pode ser dividida em compartimentos independentes, como se a economia pudesse crescer indefinidamente sem consequências para a sociedade e para os sistemas naturais.
A Ecologia Integral permite articular pelo menos quatro dimensões fundamentais da leitura dos primeiros capítulos do Gênesis.
Primeiro, a dimensão ambiental. A bondade da Criação exige a proteção da biodiversidade, das águas, dos solos, das florestas e das condições que sustentam a vida. Preservar a natureza não é uma atividade secundária, mas uma responsabilidade ética.
Segundo, a dimensão social. A dignidade humana afirmada em Gênesis 1 impede que a defesa do ambiente seja separada da defesa das populações vulnerabilizadas. A transição ecológica precisa considerar o acesso à alimentação, à moradia, à água, à energia e ao trabalho digno.
Terceiro, a dimensão econômica. A vocação de cultivar e guardar o jardim questiona modelos econômicos que subordinam todos os bens à rentabilidade imediata. A economia deve servir à vida, e não transformar a vida em instrumento de acumulação.
Quarto, a dimensão espiritual e cultural. O reconhecimento da Criação como dom modifica a maneira de habitar o mundo. A gratidão, a sobriedade, a contemplação e o respeito aos limites ajudam a superar a ilusão de que a felicidade depende da aquisição permanente de novos bens.
Essas dimensões não funcionam separadamente. A contaminação de um rio, por exemplo, pode destruir espécies, comprometer a pesca, afetar a alimentação, ameaçar a saúde, desorganizar a economia local e ferir a identidade cultural de uma comunidade. É justamente essa complexidade que exige uma abordagem integral.
5. A partir dos pobres: uma leitura libertadora da crise ecológica
A contribuição da Teologia Latino-americana torna-se particularmente importante quando perguntamos quem sofre as consequências da destruição ambiental e quem controla os recursos que dela resultam.
Uma Leitura Popular da Bíblia começa pela realidade concreta das comunidades e estabelece um diálogo entre a experiência de fé e as condições históricas de vida. Essa metodologia não substitui o estudo do texto bíblico; procura colocá-lo em diálogo com a realidade, permitindo que a Palavra ilumine a vida e que as perguntas da vida aprofundem nossa compreensão da Palavra.
Nesse horizonte, a opção preferencial pelos pobres também possui uma dimensão ecológica. As populações empobrecidas não são necessariamente responsáveis, na mesma proporção que os grupos de maior consumo e poder econômico, pelos processos de degradação ambiental, mas podem sofrer intensamente seus efeitos.
Pescadores que perdem seus meios de subsistência, agricultores atingidos pela degradação do solo, comunidades que enfrentam a escassez de água e povos indígenas ameaçados pela invasão de seus territórios revelam que a crise ecológica envolve relações de poder.
Isso não significa que toda pobreza seja ambiental ou que todos os conflitos tenham a mesma causa. Significa reconhecer que a justiça ambiental exige atenção às desigualdades concretas e participação efetiva das populações atingidas nas decisões que afetam suas vidas.
Na América Latina, essa reflexão possui especial relevância diante dos conflitos em torno da terra, das florestas, dos rios e dos recursos minerais. A Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e outros biomas não podem ser compreendidos apenas como reservas de recursos naturais. São territórios de vida, com complexas relações ecológicas e comunidades humanas portadoras de histórias, culturas e direitos.
O diálogo com os povos indígenas e com outras comunidades tradicionais precisa respeitar sua diversidade, seus conhecimentos e sua autonomia. Não se trata de idealizar suas experiências, mas de reconhecer que seus modos de vida e suas reivindicações territoriais podem contribuir para uma crítica consistente à exploração predatória.
Uma Igreja comprometida com a Ecologia Integral não pode limitar sua ação à conscientização sobre reciclagem ou economia de água. Essas práticas são importantes, mas precisam estar acompanhadas de formação crítica, participação comunitária, defesa dos Direitos Humanos e compromisso com políticas que protejam os ecossistemas e as populações vulnerabilizadas.
A leitura libertadora do Gênesis conduz, assim, a uma pergunta decisiva: que organização social permite que todos tenham condições dignas de viver sem destruir as bases naturais que sustentam a vida?
6. Da conversão ecológica à transformação das estruturas
Se Gênesis 1–3 nos ajuda a compreender a bondade da Criação, a responsabilidade humana e a ruptura das relações, a Ecologia Integral nos desafia a traduzir essa compreensão em práticas concretas.
A conversão ecológica não pode ser reduzida a uma mudança de hábitos individuais, embora comece também por eles. É importante reduzir o desperdício, consumir com responsabilidade, preservar a água e a energia e evitar o descarte inadequado de resíduos. Contudo, a soma de iniciativas pessoais não substitui a responsabilidade de governos, empresas e instituições na proteção ambiental.
Uma espiritualidade ecológica madura articula a transformação pessoal e a transformação coletiva. Ela nos leva a examinar tanto nossas escolhas cotidianas quanto as estruturas que determinam o acesso aos recursos, a organização da produção e a distribuição dos benefícios e prejuízos ambientais.
Nas comunidades cristãs, esse compromisso pode assumir diferentes formas:
- Promover Círculos Bíblicos que relacionem Gênesis, a realidade socioambiental local e os ensinamentos da Laudato Si’.
- Proteger nascentes, rios, áreas verdes e espaços comunitários, em parceria com organizações locais.
- Incentivar práticas de agricultura sustentável, hortas comunitárias e redução do desperdício de alimentos.
- Apoiar iniciativas de educação ambiental e de defesa dos direitos das populações atingidas por danos ecológicos.
- Promover o consumo responsável e a destinação adequada de resíduos, valorizando também o trabalho de catadores e cooperativas de reciclagem.
- Estimular a participação cidadã e o diálogo público sobre políticas de saneamento, uso do solo, energia e proteção dos biomas.
- Incorporar a dimensão ecológica à catequese, à liturgia, à formação teológica e às ações pastorais.
Essas iniciativas precisam considerar as condições reais de cada comunidade. A responsabilidade ambiental não pode se converter em mais uma exigência imposta aos pobres, como se a solução dependesse apenas de suas escolhas individuais. É necessário criar condições sociais e econômicas para que práticas sustentáveis sejam efetivamente possíveis.
O cuidado com a casa comum é uma tarefa compartilhada, mas as responsabilidades não são idênticas. Quem possui maior poder de decisão e capacidade de transformação tem também condições e deveres específicos na construção de respostas à crise.
Conclusão: o jardim continua diante de nós
Os três primeiros capítulos do Gênesis não são apenas uma narrativa sobre as origens do mundo e da humanidade. Eles oferecem uma reflexão teológica sobre a bondade da Criação, a dignidade humana, a responsabilidade pelo jardim e as consequências da ruptura das relações.
Gênesis 1 nos recorda que a Criação é boa e que a dignidade humana não pode ser separada do reconhecimento de nossa pertença ao mundo criado. Gênesis 2 apresenta a humanidade como parte da Terra, chamada a cultivar e guardar o jardim. Gênesis 3 revela as consequências da desconfiança, da irresponsabilidade e da tentativa de exercer um poder sem limites.
Lidos à luz da Teologia Latino-americana e da Ecologia Integral, esses textos tornam-se um chamado à conversão pessoal, comunitária e estrutural. A crise ambiental exige mais do que soluções técnicas: exige uma revisão das relações humanas, dos modelos econômicos, das prioridades políticas e das formas de compreender o desenvolvimento.
A opção pelos pobres e o cuidado com a Criação não são compromissos concorrentes. A defesa da vida humana e a proteção dos ecossistemas pertencem ao mesmo horizonte de justiça, embora cada uma possua exigências próprias. Não há Ecologia Integral quando a preservação ambiental ignora os direitos das comunidades, assim como não há desenvolvimento verdadeiramente humano quando a prosperidade de alguns compromete as condições de vida de muitos.
O jardim de Deus continua diante de nós. Não podemos retornar ao Éden como se a história pudesse ser desfeita, mas podemos aprender com a narrativa bíblica a reconhecer nossos limites, assumir responsabilidades e reconstruir relações de cuidado e solidariedade.
A pergunta “Onde estás?” permanece atual. Ela interpela nossas comunidades, nossas instituições e nossas sociedades. Onde estamos diante do sofrimento dos pobres e da destruição da Casa Comum? Que escolhas estamos fazendo? Que mundo estamos preparando para as próximas gerações?
A resposta não pode permanecer apenas no discurso religioso. Precisa tornar-se compromisso com a justiça, defesa dos territórios, proteção da biodiversidade, solidariedade com os mais vulneráveis e construção de formas de vida que respeitem os limites da Criação.
Cuidar da Casa Comum é assumir a vocação de cultivar e guardar o jardim. É reconhecer que a Terra não nos pertence de maneira absoluta, que os pobres não podem continuar pagando o preço da destruição e que a fé no Deus Criador precisa manifestar-se em práticas concretas de defesa da vida.
A Ecologia Integral, iluminada pela Palavra de Deus e enraizada na esperança cristã, convida-nos a transformar a relação com a Criação em um caminho de libertação, justiça e fraternidade. O futuro do jardim depende, em parte, da maneira como escolhemos habitá-lo hoje.
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