Por Pe. Hermes A. Fernandes
Em tempos de tanta intolerância, de ideias engessadas no passado, de vocação obsessiva pela apologética; o relato do Concílio de Jerusalém vem nos iluminar sobre nosso caminhar na Igreja. Não se faz raro ver nas redes sociais pessoas se levantando em protesto ao novo. Queixosos de que uma visão mais ampla da realidade e do desejo da Igreja em acompanhar os novos tempos seja sintoma de dessacralização. De modernismos.
Abrir-se ao novo sempre foi uma necessidade da Igreja. Um desafio a ser enfrentado com coragem e discernimento ao longo dos milênios. Anunciar o Evangelho é um imperativo que nos motiva no ser e agir da Igreja. O Evangelho não está cristalizado no contexto da Palestina e no tempo de Jesus. As palavras e ações do Messias de Nazaré são para a vida. E a vida se insere no contexto e no lugar. A necessidade de se manter o foco no essencial e não no acidental já interpelava os cristãos e cristãs do primeiro século. Diante destes desafios, aconteceu o Concílio de Jerusalém. Como resposta aos apelos de se levar o Evangelho a um mundo plural e não somente às paragens palestinenses.
O capítulo 10 de Atos dos Apóstolos é muito importante para a história da Igreja primitiva. Nos versículos 11 a 16 temos relato de Pedro, o pratagonista da Igreja nascente, tendo uma visão. Na nossa fé, poderíamos dizer que é a mensagem de Deus que se dirige a ele. Não é uma parábola! É uma mensagem que faz com que Pedro reflita sobre a estrada a ser trilhada pela comunidade. Na visão Pedro é convidado a comer de “todos os quadrúpedes e répteis da terra, e aves do céu” (At 10,12-13). Pedro rejeita tal proposta, porque, conforme a concepção judaica, nem todos os animais são puros e por isso não podem servir de alimento. Tal pensamento motiva Pedro a não aceitar o convite a comer de tudo. Todavia, o convite se repete por três vezes e, ao fim da visão, a voz lhe diz: “Ao que Deus purificou, não chames tu de profano” (At 10,15).
Essa história não deve ser lida como um texto isolado, mas devemos inseri-la no contexto da visita de Pedro à casa do centurião romano e do seu batismo. Uma vez que a visão que Pedro teve acontece imediatamente antes do convite para ir até a casa do pagão, ou gentio. O centurião romano era uma pessoa que não seguia os costumes da Torah. Ele não era circuncidado e comia de tudo. Tradicionalmente, com essas pessoas os judeus não deviam ter relações, nem mesmo sentar-se à mesa. Esta perícope prepara o cenário para o Concílio de Jerusalém que irá acontecer no capítulo 15 de Atos. A questão que estava em jogo era: a Igreja de Cristo deve ficar dentro do âmbito judaico ou se destina também aos que não são judeus, aos gentios?
Voltando ao capítulo 10, no final da narrativa, o Espírito Santo desce sobre os da casa de Cornélio, o centurião romano, e Pedro batiza pela primeira vez alguém que não pertencia à religião judaica.
Caminhando um pouco mais sobre o texto do Livro de Atos (At 11), vemos que Barnabé e Paulo se sentem especialmente vocacionados a anunciar o Evangelho em meio aos gentios. As comunidades de judeus de origem (língua) helênica e os prosélitos, isto é, pagãos simpatizantes do judaísmo. Especialmente na Antioquia, o número dos que se convertiam ao Evangelho se somava aos que ali se refugiaram quando da perseguição em Jerusalém. Já se podia contar uma comunidade numerosa e frutífera no que se refere aos “frutos do Espírito”. Como se podia esperar, em meio a tantas alegrias, não tardaria em vir as provações.
No que tange diretamente ao tema do Concílio de Jerusalém, o capítulo 15 nos informa que certos judeus lançaram celeumas sobre a comunidade. Diziam que os pagãos, na intenção de seguir no caminho cristão, deveriam antes ser circuncidados, conforme a Lei de Moisés. Só assim, poderiam alcançar a salvação. Tal pregação gerou profunda aflição aos que aceitaram o Evangelho em território pagão. Tanto Pedro, quanto Paulo e Barnabé, estavam convencidos de que o caminho Cristão inaugura um novo tempo. Aqueles e aquelas que aceitaram a Jesus como o Cristo deveriam viver segundo valores do Evangelho, segundo as palavras e ações do Messias. A imposição proposta por esses judeus parecia desproposital, incongruente com os frutos do caminhar que se tinha a olhos vistos.
Diante da necessidade de retomar a harmonia e decidir em definitivo sobre a forma com a qual se deveria proceder diante da diversidade cultural, as lideranças cristãs – quer das comunidades entre os gentios, quer os que se ligavam à Igreja-Mãe de Jerusalém – promovem um encontro fraterno e deliberam sobre o tema. A decisão é que os pagãos devam viver o caminho de seguimento de Jesus, sem ter que se ligar à Antiga Lei, aos costumes impostos pelo judaísmo formativo.
Mais do que a decisão sobre um tema delicado, o relato sobre o Concílio de Jerusalém nos aponta pistas diversas de reflexão. Deixa-nos um testemunho de que o caminhar da Igreja é sempre fluido. Que costumes não podem permanecer engessados na história. Há que se enxergar sempre o essencial à ação evangelizadora e não se perder em valores que estão ao serviço dela. Há muitas questões em nossa caminhada cristã que se nos servem de tempero para a delícia do caminhar. Todavia, o tempero não substitui o alimento. Só o completa. Não se pode dogmatizar costumes, sem lhes pôr à prova da história e da realidade. Tradições servem para nos enriquecer e não para escravizar. É preciso sempre anunciar Jesus a partir da realidade. Com olhos atentos ao contexto e ao público destinatário da ação evangelizadora. A capacidade de inculturar o Evangelho é riqueza. Todavia, para tanto, é preciso coragem e maturidade. Assim como nos testemunham as lideranças cristãs do primeiro século quando do acontecimento do Concílio de Jerusalém.
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