Por Karina Moreti
Falar de Deus é, inevitavelmente, falar de história — não de uma abstração, mas de corpos concretos atravessados por relações de poder, silenciamentos e resistências. Durante séculos, a tradição bíblica foi lida a partir de olhares que privilegiaram estruturas consolidadas em vozes masculinas, relegando as mulheres a um lugar secundário. No entanto, as Sagradas Escrituras, quando lidas com atenção e honestidade, revelam algo mais inquietante: Deus nunca se deixou aprisionar por essas estruturas. Ao contrário, age a partir das margens, deslocando centros e reconfigurando aquilo que parecia fixo.
É nesse horizonte que Maria de Nazaré, Mãe de Jesus, deve ser compreendida. Inserida no judaísmo do século I, sob o peso do domínio romano, ela habita um mundo em que o Templo de Jerusalém concentra não apenas a experiência religiosa, mas também a organização simbólica da vida social. Nesse contexto, a participação das mulheres era permitida, porém regulada; sua presença não se traduzia em autoridade pública. Maria não ignora essa realidade. Ela nasce dentro dela. Mas é precisamente nela que algo irrompe — não como negação externa, mas como deslocamento interno da própria lógica do sagrado.
O relato da anunciação, em Lucas 1,26-38, inaugura esse movimento de forma decisiva. Deus não se manifesta no Templo nem por meio das autoridades religiosas centrais, mas dirige sua palavra a uma jovem, em um espaço doméstico, fora dos circuitos oficiais. Maria escuta, questiona e responde. Seu “faça-se” não é passividade, mas adesão consciente a um projeto que a envolve por inteiro. A encarnação não acontece independentemente de sua liberdade, mas através dela. E, no entanto, essa experiência não a retira da história concreta; ao contrário, a insere ainda mais profundamente nela.
Imediatamente após o anúncio, Maria se levanta e vai ao encontro de Isabel (cf. Lc 1,39). Aquele que ela traz em seu ventre não a afasta do mundo, mas a impele ao serviço. Sua gravidez não a isola, ao contrário, a lança em direção ao outro. No encontro entre essas duas mulheres, fora dos espaços institucionais do poder religioso, Deus é reconhecido, celebrado e interpretado. É ali que Maria entoa o Magnificat (cf. Lc 1,46-55), um cântico que ultrapassa qualquer espiritualidade intimista e se torna leitura teológica da história: Deus derruba poderosos, exalta humildes, sacia famintos e despede ricos de mãos vazias. Maria assume uma voz profética que não lhe foi concedida por nenhuma instituição, mas que emerge da experiência concreta de um Deus que age na história.
Ao apresentar o menino no Templo, conforme narrado em Lucas 2,22-38, Maria cumpre a Lei, mas o que se revela ali não é a segurança da instituição — é sua insuficiência. O Templo permanece de pé, os ritos continuam, as autoridades ocupam seus lugares e, ainda assim, não são elas que reconhecem o que está acontecendo. O centro funciona, mas não enxerga.
É nesse vazio que emergem Simeão e Ana.
Simeão não carrega títulos, não ocupa função de poder, não fala a partir de uma posição institucional. Ele é descrito como justo e piedoso — alguém que espera e escuta. Sua autoridade não vem do sistema, mas da sensibilidade ao Espírito. É ele quem toma o menino nos braços e proclama aquilo que a estrutura religiosa não foi capaz de dizer: a salvação não pertence a um grupo, não se fecha em fronteiras, não pode ser controlada. Ao dirigir-se a Maria, e proclamar “uma espada há de atravessar-lhe a alma” ( Lc 2,35), ele não oferece consolo fácil; anuncia conflito. A promessa não será assimilada sem resistência. O agir de Deus não se acomoda — ele divide, expõe e fere. E a própria Maria será atravessada por essa tensão.
Ana radicaliza ainda mais essa ruptura. Mulher, viúva e idosa — tudo nela indicaria silêncio em uma sociedade que organizava a palavra a partir do poder. No entanto, é ela quem fala, e fala publicamente, dentro do próprio Templo. Ana não pede autorização nem recebe legitimidade das estruturas. Sua autoridade nasce da fidelidade de uma vida inteira e se manifesta como anúncio. Ela diz o que o sistema não disse. Proclama o que o poder não reconheceu.
Simeão e Ana desmascaram uma verdade inconveniente: é possível estar no coração da religião e, ainda assim, não perceber Deus agindo. É possível manter ritos, discursos e estruturas intactas e, ao mesmo tempo, perder o essencial. O Templo continua funcionando — no entanto, a revelação passa por outros caminhos. E essa não é apenas uma constatação histórica; é uma denúncia que atravessa o tempo.
Também hoje, instituições religiosas podem se estruturar, se afirmar e se proteger — e, ainda assim, não reconhecer a vida quando ela irrompe fora de seus esquemas. Defendem doutrinas, preservam tradições e ocupam espaços de autoridade, enquanto silenciam vozes que carregam a novidade de Deus. Falam em nome do sagrado, mas já não percebem quando Ele transborda as fronteiras que tentaram impor. É nesse descompasso que a presença de Simeão e Ana deixa de ser apenas memória e se torna interpelação. Eles não pertencem apenas ao passado; prolongam-se na história como sinal incômodo de que a percepção de Deus não depende de títulos, cargos ou autorizações institucionais. Continuam a surgir nas margens, onde a fé não se confunde com poder, mas se alimenta de escuta, espera e fidelidade. São aqueles e aquelas que, mesmo fora dos centros de decisão, permanecem capazes de reconhecer a ação de Deus quando ela irrompe de forma inesperada, revelando que nem sempre as estruturas que falam em nome do sagrado são as que melhor o percebem. Continuam dizendo, com sua própria existência, que Deus não se submete às estruturas que pretendem administrá-lo.
Nesse cenário, Maria não está sozinha. Ela se encontra em comunhão com aqueles e aquelas que, mesmo dentro da tradição, não se deixam aprisionar por ela. Ao lado de Simeão e Ana, revelam que a fidelidade a Deus não consiste em proteger instituições, mas em reconhecer sua ação — mesmo quando ela desestabiliza tudo aquilo que parecia seguro.
Aqui, o Templo deixa de ser centro absoluto e se torna lugar de passagem: não contém mais o sagrado, mas é atravessado por ele. A Lei não é rejeitada, mas tensionada até revelar seu próprio limite diante do Deus que age para além de qualquer prescrição. Maria não permanece nas margens dessa tensão; ela a encarna — é aquela que carrega no corpo, oferece na história e sustenta, com sua própria vida, o mistério que nenhuma estrutura consegue conter.
Essa mesma dinâmica reaparece em Lucas 2,41-52. Ao procurar Jesus em Jerusalém, Maria entra no Templo e o encontra entre os mestres. Não se trata de imaginá-la assumindo o lugar dos doutores da Lei, mas de reconhecer o peso simbólico de sua presença ali. Ela atravessa um espaço estruturado pela autoridade masculina e, dentro dele, dirige a palavra ao filho. Sua pergunta — “Meu filho, por que você fez isso conosco? (Lc 2,48) — ressoa em um ambiente que não lhe conferia protagonismo. Não há transgressão formal da Lei, mas há uma quebra de paradigma: Maria não permanece à margem. Ela entra, busca e fala.
Ao longo dos Evangelhos, essa presença ativa e discernente permanece. Em João 2, nas bodas de Caná, Maria percebe a falta, intervém e orienta: “Façam o que ele mandar” (Jo 2,5). Sem ocupar um lugar institucional, exerce uma autoridade real, antecipando a manifestação de Jesus. E, ao pé da Cruz (cf. Jo 19,25), quando as estruturas religiosas e políticas convergem para a condenação, Maria permanece. Sua presença sustenta uma fidelidade que resiste quando os sistemas falham.
Dizer que Maria ultrapassa os limites do judaísmo patriarcal não significa colocá-la fora de sua tradição, mas reconhecer que, nela, esses limites são tensionados até o seu ponto extremo. A Lei, que organizava espaços e vozes, encontra nela um limiar: o Deus que se encarna não pode mais ser contido por estruturas que pretendem delimitá-lo.
Maria não cabe na devoção que a domestica, nem na imagem dócil que a torna inofensiva. Aquela que canta a queda dos poderosos não pode ser usada para sustentar poderes. Aquela que se põe a caminho para servir não pode ser reduzida à imobilidade de um altar. Aquela que atravessa o espaço do Templo em busca do Filho não aceita permanecer do lado de fora da história. Maria não confirma estruturas; ela as expõe. Seu ventre não legitima o mundo como é, mas anuncia que será transformado.
Essa leitura encontra eco consistente na teologia contemporânea, especialmente nas correntes feministas e na teologia latino americana, que insistem em recolocar os sujeitos historicamente silenciados no centro da reflexão. Ivone Gebara recorda que o corpo feminino, ao longo da história, não foi apenas marginalizado, e sim, controlado e instrumentalizado pelas estruturas religiosas. Reconhecê-lo como lugar legítimo de revelação significa romper com essa lógica e afirmar que Deus se manifesta na concretude da vida, e não apenas nos espaços institucionalmente autorizados. Nessa perspectiva, Maria não é um corpo passivo, mas um corpo teológico — espaço onde Deus age, fala e inaugura novos sentidos para a história.
De modo convergente, Elizabeth Schüssler Fiorenza propõe a recuperação daquilo que denomina “memória subversiva” das mulheres nas Sagradas Escrituras, desvelando como as narrativas bíblicas, embora muitas vezes transmitidas por estruturas patriarcais, preservam experiências de resistência e protagonismo feminino. Maria, nesse horizonte, não aparece como exceção idealizada, mas como expressão concreta de uma dinâmica mais ampla em que Deus age a partir das margens, desestabilizando leituras que tentaram reduzir as mulheres ao silêncio.
Na teologia de autores como Gustavo Gutiérrez, o Magnificat é iluminado não como um cântico meramente espiritual, mas como anúncio de transformação histórica concreta. O Deus que Maria proclama não é neutro nem abstrato; é um Deus que toma partido, que intervém nas estruturas que produzem pobreza e exclusão e que inaugura uma nova ordem fundada na justiça. Assim, o “faça-se” de Maria de Nazaré não pode ser compreendido fora dessa dimensão histórica: trata-se de uma adesão a um projeto divino que confronta diretamente as lógicas de poder estabelecidas.
Assim, Maria não pode ser compreendida como figura passiva ou meramente devocional. Sua vida é atravessada por movimento, serviço, risco e fidelidade histórica. Desde a anunciação até a Cruz, passando pelo encontro com Isabel e por sua presença no Templo, Maria revela que Deus não apenas visita o mundo, mas o transforma a partir de dentro, começando por aquilo que parecia mais limitado: o corpo, a vida e a ação de uma mulher.
Nesse sentido, Maria não é apenas aquela que deve ser contemplada, mas aquela cujo caminho precisa ser assumido. Segui-la não significa reproduzir gestos exteriores, mas participar da mesma dinâmica que marcou sua existência: escutar com profundidade, discernir com liberdade e agir com coragem dentro da história. Maria é mulher de deslocamento, de serviço e de palavra; sua fidelidade não se expressa na imobilidade, mas na capacidade de responder ao agir de Deus mesmo quando isso implica romper limites, enfrentar tensões e habitar espaços que não lhe foram previamente concedidos.
Tomá-la como referência é recusar uma fé acomodada às estruturas e assumir uma espiritualidade encarnada, capaz de reconhecer Deus para além dos lugares estabelecidos. Maria não aponta para si mesma, mas para um Deus que continua agindo na história — e que ainda hoje convoca homens e mulheres a participarem dessa transformação. Segui-la, portanto, é deixar-se implicar: é permitir que a própria vida se torne espaço onde Deus possa, novamente, romper fronteiras e inaugurar o novo.
Senhor Deus,
que escolheste Maria não para o silêncio, mas para a coragem,
ensina-nos a escutar como ela escutou,
a discernir como ela discerniu
e a agir como ela agiu.
Dá-nos um coração livre,
que não se prenda às estruturas quando o Teu Espírito chama,
e uma fé encarnada,
capaz de servir, caminhar e permanecer.
Que, como Maria,
saibamos reconhecer-Te na história
e dizer “sim” —
mesmo quando esse “sim” nos leva além dos nossos limites.
Amém.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
Deixe um comentário