Círculo Bíblico 68: Deuteronômio: elege a vida ou a morte!

O livro de Deuteronômio é o último escrito do Pentateuco ou Torá. Deuteronômio é uma palavra grega que significa segunda lei (2Rs 22,8s).

 O lema “Abre a tua mão para teu irmão” (Dt 15,11), sublinha a necessidade da justiça social, na comunidade de Israel, na qual não pode e não deve haver pobres, que vale também para nossa realidade atual. Portanto, existe a necessidade de uma organização, de maneira que todos possam ser favorecidos e acolhidos na partilha. Os pobres sempre vão existir, mas “em meio de vocês não deve haver nenhum pobre” (Dt 15,4-8).

A ideia central de todo o livro é que o povo de Israel possa viver feliz e próspero na Terra se for fiel à aliança com Deus; se for infiel, terá a desgraça e acabará perdendo a Terra. O livro após relembrar o Decálogo (Dt 5,1-22), mostra que o comportamento do homem para com Deus é o amor com todo o ser (Dt 6,4-9). Apresenta uma longa catequese, explicando o significado do amor nas circunstâncias da vida pessoal, social, política e religiosa. A catequese é apresentada através das leis do Deuteronômio (Dt. 12-26), onde se procura ensinar ao homem como viver em sua relação com Deus, com as autoridades, com o outro homem, e com os seres da natureza.

O Deuteronômio é um texto complexo, fruto de um longo processo redacional com contradições e diversas imagens de Deus (Dt 10,18-19; 2, 33-34). Apesar ser atribuído a Moisés, sabemos que não é ele o autor, não sabemos a autoria certa, mas trata-se dos escritos e pregações da escola dos levitas. Portanto, o livro foi escrito em mutirão, durante muito tempo, aproximadamente ao longo de quatrocentos anos, com a finalidade de preservar e manter viva a libertação do povo de Israel.

Os primeiros textos escritos são do Reino do Norte (Samaria) pelo ano 750 a. C, em tempo do profeta Oseias, valorizam os montes Garazin e Ebal, como o grupo dos levitas (Dt 11,29; 27, 4-26). Com a queda de Samaria (720 a.C.) e o exilio, as tradições orais foram levadas para o Reino do Sul (Judá), fazendo uma fusão dos escritos. Finalmente, encontramos textos escritos após o exilio da Babilônia. Assim, o livro exalta a fidelidade à lei de Deus, contendo ensinamentos de diversos períodos da história de Israel. Também, existe uma teoria de que houve uma fusão do Deuteronômio com o livro de Josué, mas que foram separados no século V a.C.

A época em que começou a ser escrito os camponeses estavam em revolta contra os reis das cidades-estados, que os oprimiam e os exploravam, provavelmente os levitas tinham sido aceitos como os mentores da libertação. A primeira redação do livro talvez, foi feita por um levita que ajuntou as pregações espalhadas (Dt 4,1-28; 5,1-9; 10; 12, 1-28,46; 30, 11-20; 31 9-13). Porém, a escola deuteronomista foi a responsável por várias edições. A mais importante foi a terceira edição que acrescentou elementos históricos (Dt 1-3; 4,41-43; 9, 11-10,11; 31, 1-8), elementos teológicos da Aliança (Dt 10, 12-11,32; 29, 1-28) e documentos anexos (Dt 27; 32-33). A quarta edição do livro foi realizada durante o exilio da Babilônia (586-538 a. C) (Dt 4, 29-40; 28, 67-69; 30, 1-10). A quinta e última edição foi após o exilio na reforma de Esdras (400 a. C) com acréscimos Eloístas (Dt 31, 14-23) e sacerdotais (Dt 1, 3; 32, 48-52; 34) chegando à expressão atual.

Narra os fatos que vão desde a conclusão da Aliança até a entrada na terra prometida, entre os anos de 1250 e 1220 a.C., porém, não são um relato histórico, mas uma forma de três grandes discursos de Moisés. Os discursos refletem não tanto os problemas do povo na saída do Egito e na travessia no deserto, mas as dificuldades e crises na queda de Samaria (722 a. C.), até o exílio da Babilônia (586 a. C.). Enfim, o Deuteronômio é o livro da Aliança que apresenta o Amor de Deus, que se expressa através da lei como identidade da terra como herança recebida de Deus.

O Deuteronômio é uma vasta coletânea de pregações dos levitas itinerantes, com a missão de ensinar a lei (Dt 31,9-13), explicando-a, aprofundando-a e aplicando-a às situações concretas do povo. A finalidade é tornar a lei e Aliança práticas e concretas (Dt 5), através do apelo da conversão e da proposta à liberdade (Dt 30, 15-20). Os Levitas têm consciência de serem os legítimos continuadores do projeto de Moisés, por esta razão atribuíram a própria pregação a Moisés, o que lhes dava autoridade para a crítica e o anúncio que faziam ao povo. Neste sentido, o Deuteronômio sempre foi muito importante para judaísmo.  Inclusive, nele encontramos o Shema (Dt 26, 4-11), que é o credo judaico, que os judeus recitam diariamente, que resume a história da salvação, centrada na libertação de Egito. Em outras palavras, o credo descreve a situação do povo sofrido e a experiência do Deus libertador do êxodo.

O livro contém uma longa reflexão teológica sobre a lei, que pode ser resumida na necessidade de escutar a vontade de Deus e colocá-la em prática. É uma releitura do grupo chamado deuteronomista. Nos textos do Deuteronômio existem leis contraditórias por serem de contextos e tempos diferentes, como as leis sociais em favor dos pobres (Dt 24, 10-22); leis desumanizadoras que justificam a opressão e a escravidão (Dt 20, 10-14); leis que centralizam o poder e o lucro (Dt 12, 2-7); as leis de um Deus violento, ciumento e castigador para aqueles que serviam a outros deuses (Dt 13, 7-12).

O livro adverte sobre o perigo da ganancia e do abuso do poder (Dt 17, 14-20); já que com a queda de Samaria (722 a.C.), a reforma de Ezequias (715-701) e de Josias (620-609) os sacerdotes levitas que atuavam nos santuários do interior foram transferidos para o tempo de Jerusalém, centralizando o culto (Dt 17, 8-13). Inclusive a celebração da páscoa passa ser centralizada, exclusivamente realizada em Jerusalém, deixando de ser uma festa familiar das casas, celebrada pelos pastores e camponeses (Dt 16, 1-8; Ex 12, 21-27).

O livro sublinha os mandamentos e preceitos, privilegiando a organização da vida comunitária e social, com a finalidade de defender a justiça. Os textos deixam claro que Deus sempre se posiciona em prol do pequeno, do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro; destacando a igualdade entre homens e mulheres diante da lei do adultério, divórcio e levirato (Dt 25,5-6) que visava assegurar a herança e um lar para a família.

O tema central é a Aliança entre Deus e o povo. Logo os textos não oferecem nenhuma organização sobre a religião, embora seja uma coletânea de pregações dos levitas. O livro apresenta o Senhor Deus como único Deus verdadeiro (Dt 6, 4), o que implica a rejeição total à idolatria e qualquer representação de Deus (Dt 4, 1-40).  O livro quer transmitir os critérios e fundamentos para viver na terra dada por Deus ao povo. O essencial da fé não é a posse da terra, nem a liderança de Moisés, mas a fidelidade divina às promessas feitas aos patriarcas. Porém, o povo sempre é convocado para construir uma sociedade justa e fraterna, eliminando as estruturas injustas que oprimiam os pobres. Deus é chamado Pai (Dt. 1,31), e os membros do povo são chamados entre si irmãos. A vocação do povo de Deus é a fraternidade e a partilha.

Viver na Aliança não significa apenas obedecer uma lista de leis antigas, mas viver de acordo com o temor e amor de Deus. Portanto, ao falar das normas ou mandamentos se referem as Leis deuteronomicas (Dt 12-16). A relação com Deus é alicerce das relações com o próximo e com a natureza.  Como os profetas, eles criticam as instituições e as relações sociais corrompidas e anunciam o caminho para a conversão, a fim de viver a fidelidade para com Deus através da Aliança.

A essência do decálogo é o amor a Deus, o espirito das leis é para ser uma diretiva (Dt 22,6-7), para resolver conflitos de interesses (Dt 15, 12-18), para defender os pobres dos ricos (Dt 15, 11; 19,14), para ajudar na partilha (Dt 15,15), para viver a justiça (Dt 6, 24-25), para respeitar a natureza (Dt 30, 15-20). Portanto, a escolha não tem muitas alternativas entre a vida e a felicidade ou entre a morte e a desgraça. Os levitas procuram atualizar ao tempo a relação da Aliança que Deus fez com o povo no passado, renovada nos santuários por ocasião das festas. Desse jeito a estrutura do decálogo (Dt 5, 1-21) é atualizada com o código deuteronômico (Dt 12-26).

A fidelidade de Israel para com Deus não se esgota em atos isolados ou mera observância de leis, mas no amor e temor a Deus. Amor e Temor são duas colunas que alicerçam a mensagem do livro penetrando no conteúdo de todas as lei e exortações (Dt 8, 6-20). O temor significa lembrar e estar consciente de que o Senhor é Deus, porque ele concede os dons da vida e o homem não é nada. Temer a Deus é reconhecer, obedecer e ser grato para com ele. O Amor deve orientar todas as relações das pessoas com Deus, com o próximo e com a natureza.

A benção de Deus é a recompensa pela fidelidade ao projeto de liberdade e vida para todos, proposto por Deus. A benção se realiza quando a pessoas se abre reconhecendo o dom de Deus e a prática da justiça, de maneira especial, em prol da viúva, do órfão e do migrante (Dt 15, 4; Nm 6, 24-26). Mas também existe a maldição de Deus que se fundamenta nas falsas possibilidades de realizar a vida (Dt 30, 17-28).

A estrutura do livro do Deuteronômio é organizada em grandes discursos de Moisés: 1, 1-4,43 Primeiro discurso de Moisés; 4, 44-28,68 segundo discurso de Moisés e Aliança no monte Horeb; 28,69-30,20 terceiro discurso de Moisés e Aliança em Moab; 31, 1-34,12 últimas disposições e morte de Moisés.

Resumindo: o livro revela vários temas: o verdadeiro Deus é aquele que libertou o povo e lhe dá vida. Deus prefere a misericórdia e a justiça aos cultos sagrados de purificação e sacrifício. O ser humano se realiza na comunidade por meio de uma sociedade solidária e fraterna. O livro é produto da memória que revela a Aliança de Deus com o povo de Israel. Enfim, o Deuteronômio é um dos livros mais citados nos escritos do Novo Testamento.

Rafael Lopez Villasenor, sx

BIBLIOGRAFIA

CENTRO BIBLICO VERBO. A lei a favor da vida? Entendendo o livro do Deuteronômio. São Paulo: Paulus. 2020.

CRB A formação do povo de Deus. Coleção tua Palavra é Vida 2. São Paulo: Loyola, 1990.

SAB. Mês da Bíblia 2020, livro do Deuteronômio; “Abre a tua mão para teu irmão (Dt 15,11). São Paulo: Paulinas, 2020.

STORNIOLO. Como ler o livro do Deuteronômio, escolhe a vida ou a morte. São Paulo: Paulus, 1992.

Colaborou: Missionários Xaverianos


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