O Potinho de Margarina e o Padre

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Lá nas Minas Gerais, na cidade de Barão de Cocais, havia um padre. Destes que se identificam com o povo simples. Homem de fácil sorriso, serviço constante, palavra afável. Um bom padre, testemunha de Jesus, Bom Pastor.

Não foram raras as jornadas deste padre pelas estradas de terra vizinhas de sua paróquia. Não havia povo sem missa. Nem pessoa que precisasse esperar. Um sacerdote que ia ao povo, marcando seus caminhos com o ronco inconfundível de seu Fusca 1996. Não almejava veículo melhor, não se preocupava com vestes distintas. Seus modos de vida refletiam sua pessoa. Homem simples, sacerdote de um povo simples, comunhão perfeita. Juntos, construíram a vida em comunidade. Caminhavam juntos enquanto Igreja, construíam um mundo melhor pelos movimentos populares. Um padre que sabia casar a fé e a vida. Dedicando-se ao Povo de Deus, que quer vida – e em Jesus – merecem vida plena.

O tempo foi passando. As palavras daquele padre já não eram as únicas a reverberar nos ouvidos e corações das comunidades. Com as TVs católicas e as mídias sociais, o povo via e ouvia outros padres. Outros grupos de fé. Muitas vezes, mensagens bem diferentes daquelas de seu pároco, simples e servidor. Enquanto o padre daquelas comunidades priorizava viver o Evangelho com seu povo a partir da realidade, a igreja virtual anunciava a Boa Nova como produto. Um Evangelho estético, mas nada ético. As pessoas assistiam aos programas de TV, às transmissões ao vivo nas mídias sociais, e passaram a se deslumbrar com as liturgias espetáculo, com a evangelização emocional que nada inferia na vida enquanto comunidade eclesial e sociedade. E o povo daquelas comunidades de Barão de Cocais não queria mais seu padre simples, as liturgias encarnadas e o Evangelho-compromisso. Preferiam as missas show, a pregação emotiva, os penduricalhos da fé. Fé desencarnada, Liturgia distante da realidade.

Um dia, o padre – herói de nossa história – chegou para celebrar uma missa em comunidade rural. Tirou da bolsa de missão uma túnica simples, uma estola de pouco brilho. Limpinhas, dignas, mas ausentes de qualquer luxo. Também tirou os vasos sagrados. Cálice, patena, cibório, galhetas. Sem dourados, sem arabescos, nem pedrarias. Mas vasos sagrados dignos. As partículas que seriam consagradas estavam guardadinhas em um pote de margarina. Limpinho, imaculado. O vinho a ser consagrado, em um vidrinho. Também reaproveitado, igualmente imaculado. Os que antes se sentiam edificados pela simplicidade de seu velho padre, naquele dia se manifestaram de forma totalmente adversa. Não foram poucas as palavras de interpelação: “Padre, hóstia santa em um pote de margarina é um sacrilégio!”. E mais: “Padre, a liturgia precisa de solenidade, o senhor trata Jesus com desrespeito!”. O que antes unia a vida do povo, agora o dividia. Antes aquele povo empobrecido via a liturgia e o padre simples como um reflexo de sua identidade. Agora queriam um padre celebridade e uma missa show. O Evangelho se retirou da vida daquele povo, pois queriam uma Igreja sem identidade. A simplicidade da Liturgia passou a ser escândalo, sacrilégio. O padre modesto e amigo passou a ser indesejado e seu amor à pobreza evangélica mudou de nome. De simplicidade a sacrilégio. De santo, passaram a chamá-lo de comunista.

Naquele dia, as hóstias guardadas em um potinho de margarina simbolizavam a Igreja, Povo de Deus. Todavia, aquele povo queria ser o que viam e ouviam nas TVs e nas mídias sociais. Queriam a fé espetáculo, enquanto seu padre e a Liturgia refletiam a realidade. Agora vale a pergunta: onde está o verdadeiro sacrilégio? Nas hóstias ainda não consagradas em um pote de margarina ou no desejo de fazer da Igreja lugar e oportunidade para a exploração e alienação do povo? Cuidado! Todo espetáculo tem um preço. As vezes, custa perder Jesus e seu Evangelho.


2 comentários em “O Potinho de Margarina e o Padre

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  1. Em tempos de brilhos e missa show esse texto nos resgata a beleza da simplicidade de sermos seguidores de um Deus que se fez amor na simplicidade.

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