A Casa do Pai e a Casa Comum como moradas do Amor  | Reflexão sobre Jo 14,1-12

“Na casa de meu Pai há muitas moradas”
(Jo 14,2)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A perícope do Evangelho da Comunidade Joanina, o texto da Liturgia do 5º Domingo da Páscoa (Jo 14,1-12), se localiza no discurso de despedida de Jesus. O cenário é a Última Ceia de Jesus com aqueles que seriam os continuadores de sua obra após a Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão ao Céu. Aqui precisamos entender que o texto não se trata de uma crônica ou ata daquela reunião fraterna ao redor da mesa. Trata-se do registro dos discípulos sobre aquele momento, e as palavras do Mestre em preparação aos momentos futuros. Todavia, estes acontecimentos futuros já haviam acontecido quando a Comunidade Joanina registrou o discurso de despedida de Jesus. Neste sentido, parte das experiências vividas, e seus sentimentos consequentes, se imprimem neste relado. A maioria dos estudiosos da Bíblia concorda que o evangelho joanino foi escrito no fim da última década do primeiro século. Por isso, há um considerável tempo entre os últimos dias em que Jesus viveu com seus discípulos e discípulas e o tempo em que a memória destes momentos é registrada pela comunidade do discípulo que Jesus amava. Daí se compreende a necessidade de se plantar a semente da esperança no coração dos destinatários do Evangelho Joanino. Compreendendo o contexto, entende-se a imperativa mensagem: quando ele for para a Casa do Pai, não ficarão sozinhos e, no fim, o encontrarão no Banquete da Vida, na mesma Morada para qual ele se dirigiria em breve. Esta certeza foi fundamental para a perseverança da comunidade joanina – assim como para todos seguidores e seguidoras de Jesus – após o ano 70 d.C.

Durante esses anos aconteceram mudanças determinantes na vida da Palestina. O Templo de Jerusalém foi destruído e com essa tragédia se perdeu tudo o que era relacionado com a vida dos judeus. O sacrifício, o sacerdócio e a ideia de religião se construíam ao redor do Templo, enquanto afirmação da identidade de Israel.

Quando acontece a guerra do ano 70 d.C. muitos dos que estavam ligados ao poder religioso do Templo, foram obrigados a se refugiar na região norte da Galileia, na Síria e na Ásia Menor. Neste contexto de diáspora, não tendo mais o Templo, o Sacerdócio e a Cidade Santa como referenciais da religião judaica, com a intuição do Rabino Yochanan ben Zakai, o povo judeu manteve sua identidade ao redor dos preceitos da Torah. Todavia, a Torah era rodeada por um tipo de “cerca”, que eram as ‘mitzvot’ (613 leis), preceitos práticos, atitudes que precisavam ser observadas 24 horas ao dia, pequenos detalhes que garantiam a santidade do povo. Era isso que identificava, a partir da destruição do Templo, o povo judeu: não mais Jerusalém, o Templo, o sacrifício ou o sacerdócio.

Os cristãos, nesse período, começavam a criar a própria identidade, mas não eram alheios à vida dos judeus. A destruição do Templo provocou neles um duplo sentimento. Por um lado leram esse fato como uma punição divina contra Israel, que não reconhecera Jesus como Messias. Chegaram inclusive a pensar em uma substituição dos “prediletos” de Deus. Antes Iahweh havia escolhido os hebreus como seu povo, mas por causa da desobediência mudou de ideia e agora o havia abandonado, elegendo a Igreja nascente. Os cristãos colocaram ao centro da própria vida a figura de Jesus, sublinhando o seu ensino como elemento vital da caminhada. Isso é colocado em contraste com a centralidade da Lei vivida pelos judeus daqueles mesmos anos. Com isso, coabitando as duas correntes religiosas em situação de diáspora, acontecem muitos conflitos. Mesmo que, tanto cristãos, quanto judeus estivessem sob a perseguição de Roma após o ano 70 d.C., o judaísmo normativo se posicionava como caçador dos hereges, dos discípulos do profeta galileu. Esta perseguição mais acirrada do judaísmo influencia profundamente a redação dos evangelhos escritos neste contexto. Como agravante, por volta do ano 90 d.C., os judeus se reúnem de forma conciliar em Jamnia (hoje Yavneh), e – entre outras coisas – decidem pela excomunhão em definitivo dos discípulos de Jesus do meio da comunidade judaica. Em razão disso, os cristãos buscam sua própria identidade enquanto religião, fato que vai influenciar consideravelmente a redação final dos evangelhos tardios, ou seja: Mateus, Lucas e João. Refiro-me a tardios, lembrando que o Evangelho de Marcos foi escrito um pouco antes, por volta do ano 60 d.C.

Neste contexto, em meio a muitos sofrimentos que viviam as comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus, é que devemos ler Jo 14,1-12. Como exortação à esperança, após a partida de Jesus para a Morada do Pai.

Os estudiosos da Bíblia procuram o sentido exato da palavra “morada”, quando Jesus diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2). Relacionam-na com outros textos da época que a usavam para definir como uma parada noturna, uma hospedaria, um lugar seguro para um pernoite, quando em viagem ou peregrinação. Outros estudiosos entendem “morada” como estações, estágios, formas ou carismas para um caminho de intimidade com Deus. Ainda há quem entenda esta palavra como o lugar de descanso físico (um túmulo), após a Páscoa Definitiva, depois das lutas da vida. Contudo, a interpretação mais comum, a qual tem grande aceitação e consenso entre os estudiosos da Bíblia, entende “morada” como onde habita Deus, a quem acolhe a todos e todas, após sua jornada terrestre. Esta Casa do Pai é ampla, acolhe a todos e todas que creem em Jesus, seu Filho, nosso Senhor. E é por esse motivo que Jesus quer passar esta certeza aos seus discípulos e discípulas. Para que não se perturbem seus corações, frente ao seu eminente retorno à Casa do Pai. Após sua morte, muitos de seus discípulos e discípulas sentiram-se arrasados, frustrados em seus sonhos. Perderam o chão ao ver a Esperança que se fez Homem, esvair-se de dor e abandono na Cruz. Após sua ressurreição, a ascensão poderia parecer abandono. Na intenção de transmitir confiança para o caminho que vem pela frente, Jesus diz: “Se assim não fosse, eu vos teria dito” (Jo 14,2b). Ele exorta à confiança, pedindo que acreditem nele. É como se dissesse: “podem crer em minhas palavras, pois se não tivesse espaço para vocês na Casa de meu Pai, eu mesmo já lhes teria tido”.

A certeza da morada garantida na Casa do Pai dada por Jesus, que os precedeu para preparar um lugar para todos e todas que creem nele, não pode servir de desculpas para acomodações. Alcançar esta Graça, lugar garantido na Casa do Pai, tem sempre dois lados na prática cristã. Por um lado, confia-se plenamente que a salvação é Dom de Deus. Por outro, enquanto estamos na história – nesta vida que antecede à Vida Eterna – precisamos ser sinais de que esta Graça, este Dom, são ofertados a todos e todas que se decidem pelo seguimento de Jesus. Dia após dia. É por isso que Jesus diz: “Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (Jo 14,2-3).

Imaginemos como os discípulos entenderam tudo isso. Depois que Jesus afirmou que os discípulos sabiam o caminho para o Pai, para onde ele estava indo (Jo 14,4); Tomé rebate: “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (Jo 14,5). Ora, Jesus já lhes havia dado o Evangelho, anunciado a Boa Notícia da Libertação Definitiva que se fazia real e presente nele. E esse é o Caminho! Eles caminharam com ele, ouviram suas palavras, testemunharam seus sinais. Conheciam o Evangelho. Por isso Jesus afirma categoricamente: “Eu sou o caminho, a Verdade e a vida” (Jo 14,6).

Alguns interpretam que Jesus é o caminho que nos conduz à verdade e a vida. Todavia, é inegável que o texto joanino nos informa algo diverso, quase imperativo. O que temos são três afirmações: Caminho, Verdade e Vida. Jesus é o Caminho, Jesus é a Verdade, Jesus é a Vida. É por isso que ninguém vai ao Pai, senão por ele (cf. Jo 14,6). Destarte, podemos concluir que ninguém vai ao Pai, sem passar por Jesus e seu Evangelho. E na centralidade do Evangelho está o pobre, o marginalizado, os menores de nossos irmãos e irmãs (cf. Lc 4,18-19).

Isto posto, podemos concluir: ninguém vai ao Pai, sem Jesus, e ninguém segue Jesus, sem acolher os pobres. Jesus, em sua caminhada com seus discípulos e discípulas, proferiu mensagens de paz, fraternidade e sororidade. Realizou sinais, nos quais sua misericórdia se voltava àqueles e àquelas que jaziam em situação de sofrimento. Esta foi a obra de Jesus: anunciar paz, justiça, fraternidade e sororidade. Com palavras e ações. Tudo resultando de seu coração cheio de amor. Amor sem limites. Portanto, participar das obras de Jesus, como aquele que agia em nome de seu Pai (cf. Jo 14,10-12), é amar sempre, perdoar sempre, acolher sempre e – a todo momento e em todo lugar – estar ao lado dos vulneráveis, excluídos e marginalizados. Assim, antes de adentrarmos na Casa do Pai, estaremos transformando nossa Casa Comum em um antegozo do Reino de Deus.


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