Por Karina Moreti
Assim diz o Senhor:
“Não há fidelidade onde a dignidade é negada em meu nome. Não há verdade onde a minha imagem é fragmentada para sustentar poderes humanos. Eu não criei o homem e a mulher para que um se elevasse sobre o outro, nem soprei o meu Espírito para que fosse aprisionado por estruturas de controle.
Ai daqueles que proclamam unidade, mas edificam muros. Ai dos que anunciam a Palavra, mas silenciam vozes que Eu mesmo chamei. Ai dos que invocam a tradição, mas rejeitam a vida que dela brota. Transformam minha justiça em discurso e minha vontade em instrumento de domínio. Honram-me com palavras, mas negam-me em suas práticas.
Desde o princípio, declarei minha imagem sem divisão. Nos tempos cumpridos, revelei minha vontade sem exclusão. E pelo meu Espírito, continuo a falar — não apenas onde é permitido, mas onde fui negado. Porque Eu sou Deus de vida, não de opressão; de comunhão, não de hierarquia; de verdade, não de silêncio imposto.
Por isso, levanto a minha voz contra toda fé que contradiz o meu próprio coração. E chamo à conversão não os que foram silenciados, mas os que silenciaram. Não os que foram reduzidos, mas os que reduziram.
Quem tem ouvidos, ouça: não se pode proclamar o Evangelho e, ao mesmo tempo, negar a imagem que Eu consagrei. Não se pode dizer que me segue e permanecer onde a vida é diminuída.
Entre a minha imagem e o silêncio que impõem, Eu já escolhi. E vós — de que lado estais?” [1]
A afirmação de Paulo de Tarso de que “Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo.” (Gl 3,28) não permite sustentar desigualdades em nome da fé. Não se trata de apagar diferenças, mas de negar qualquer hierarquia de dignidade. Em Cristo, toda lógica de superioridade é desfeita, e aquilo que permanece não é a diferença que separa, mas a unidade que reconcilia.
O relato da criação reforça essa verdade ao afirmar que Deus criou o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (cf. Gn 1,27). Em Gênesis, não há gradação da imagem divina, não há distribuição desigual do divino entre os corpos. Há comunhão, há reciprocidade, há plenitude compartilhada. Reduzir a mulher, portanto, não é apenas um erro de leitura: é ferir a própria revelação de Deus no mundo.
Nos Evangelhos, essa verdade deixa de ser apenas proclamada e se torna vivida. Jesus Cristo rompe padrões ao devolver voz e dignidade às mulheres: ao dialogar com a samaritana, a quem pede água (cf. Jo 4,7), ele atravessa fronteiras culturais e religiosas; ao interromper a violência contra a mulher acusada, desafiando: quem não tiver pecado, atire a primeira pedra (cf. Jo 8,7), ele desmonta a lógica da condenação; e ao confiar a uma mulher o anúncio central da fé, ele redefine quem pode falar em nome de Deus.
É significativo que o Ressuscitado chame pelo nome — “Maria!” (Jo 20,16) — e que Maria Madalena seja a primeira discípula a proclamar: “Eu vi o Senhor!” (Jo 20,18). O primeiro testemunho da ressurreição não passa por instâncias de poder, mas por uma mulher. Ignorar isso é ignorar o próprio modo como Deus escolheu se revelar.
A promessa profética confirma essa abertura ao afirmar que Deus derramará o seu Espírito sobre toda carne, e que filhos e filhas profetizarão (cf. Jl 3,1). O Espírito não distingue dignidade, não restringe voz, não legitima silêncios impostos. Ele gera profecia, rompe limites e faz falar aqueles que foram historicamente calados.
Diante disso, toda tentativa de reduzir a mulher em nome da fé revela uma contradição profunda. Não nasce da Escritura, não se sustenta no Evangelho — nasce do medo: medo de perder controle, medo de rever estruturas, medo de reconhecer que, no Reino de Deus, autoridade não é domínio, é serviço. Quando Jesus afirma que todos são irmãos (cf. Mt 23,8), ele elimina a base de qualquer superioridade espiritual. Onde há silenciamento, não há comunhão; onde há desigualdade de dignidade, não há fidelidade ao Evangelho.
Reduzir a mulher não é defender a tradição, mas negá-la em sua raiz. Porque a tradição que nasce de Cristo é sempre expansão de vida, como ele mesmo afirma ao dizer que veio para que todos tenham vida, e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10). E a vida não é abundante quando é limitada, não é plena quando é condicionada, não é evangélica quando é negada.
Entre a imagem e o silêncio, Deus já escolheu. Resta saber de que lado nós estamos.
Nota
[1] Uma parafrase das profecias contra a exclusão atualizada para os nossos tempos.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
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