“Eu vou para o Pai, mas eu fico por perto” | Reflexão para a Solenidade da Ascensão do Senhor, na inspiração de Mt 28,16-20

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Desde minha adolescência, um canto litúrgico tocante à Ascensão do Senhor me inspira. Mesmo inserido no contexto da Campanha da Fraternidade de 1992, fala da ida de Jesus para junto do Pai. Também fala de sua presença em nós. No Pão e Vinho eucaristizados, no amor que nos faz Igreja viva e atuante.

“O tempo não para,
chegou minha hora.
Eu vou para o Pai,
Mas eu fico por perto.
Eu sou este Pão, este Vinho, este Amor.
Perfaz o Caminho que encontra-se aberto”

Neste domingo em que celebramos a Ascensão de Jesus, é preciso resgatar a espiritualidade e a provocação que esta joia do cancioneiro das comunidades nos proporciona. A Ascensão nos fala da despedida de Jesus. Não estará mais presencialmente junto de seus discípulos enquanto pessoa humana. Transcende – em definitivo – à condição divina e, com o Pai e o Espírito, compõe a Comunidade Trinitária. Axiomas teológicos sobre a união hipostática à parte, importa que entendamos a aplicação mistagógica desta ida ao Pai, desta ausência que continua sendo presença, deste convite à unidade, mesmo que na diversidade. Agora, junto do Pai, Jesus se confirma Deus em Três Pessoas. Diverso e único. Pessoa e Comunidade. E nós, Igreja dele, devemos buscar unidade na diversidade, identidade na comunidade. Afinal, como nos inspira o cântico litúrgico acima lembrado, Jesus continua entre nós. No Pão, no Vinho, no Amor. Partilhando deste Pão e deste Vinho no amor, também nós somos um com ele.

Para bem viver e celebrar este Mistério, a Liturgia nos apresenta o Evangelho de Mt 28,16-20. Estamos no contexto da despedida de Jesus e do desafio de ser discípulo e discípula enquanto continuadores de sua mensagem. Jesus volta para o Pai, mas se mantém presente no testemunho que a Igreja faz de sua palavra e ação, memória e presença do Senhor. Esta será a missão dos discípulos: testemunhar Jesus! Tal missão consiste em anunciar a todos a pessoa de Jesus, de modo a confirmar todas as experiências de Jesus que a humanidade faz. O Ressuscitado não é propriedade de ninguém. A missão da Igreja é apontá-lo onde quer que ela esteja, a fim de que todos o reconheçam e, na liberdade, se decidam ou não a segui-lo. Ele continua vivo e atuante. No Pão, no Vinho, no Amor. E Mateus nos apresenta este Mistério, com tal maestria, que somos inseridos nele. Assim como aos destinatários das últimas palavras de Jesus antes de ir para junto do Pai, todos nós somos chamados a anunciar seu Evangelho e agregar à Jesus todos aqueles e aquelas que se dispõem a segui-lo. “Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (Mt 28,19-20).

A última página do evangelho mateano assemelha-se aos demais. Apresenta um convite. Quem lê o testemunho das comunidades dos primeiros discípulos e discípulas que nos chegam através dos quatro Evangelhos, é convidado a continuar o caminho, prolongando a palavra e ação de Jesus. Assim Jesus continua presente e atuante em nosso meio. E os evangelhos foram escritos exatamente para isso: produzir a conversão e o compromisso com Jesus e seu projeto. Para nós, então, o convite se transforma em ordem que leva à missão. “Ide e fazei discípulos meus todos os povos” (Mt 28,19). Podemos então pensar que todos os quatro evangelhos tem páginas em branco após os últimos capítulos, as quais devem ser preenchidas por cada um e cada uma de nós. Nestas páginas devemos escrever nosso nome, selando um termo de compromisso, aceitando anunciar Jesus e seu projeto.

O cenário da Ascensão de Jesus no evangelho de Mateus é a Galileia. Os onze discípulos atenderam ao convite feito por Jesus e lá estavam (cf. Mt 28,7.10). Por que a Galileia? Porque foi nessa região que Jesus começou a desenvolver sua atividade, inteiramente voltada para o anúncio da justiça que Deus quer. Aqui podemos concluir que o encontro com Jesus ressuscitado se dá pelo cerne de sua palavra e ação: o anúncio da Justiça. Para viver plenamente a esperança da ressurreição, devemos viver a partir da prática da Justiça. Ainda mais: devemos nos empenhar herculeamente para que essa Justiça se torne realidade em nossos dias. Por isso, o encontro de Jesus ressuscitado com seus discípulos na Galileia se faz um novo ponto de partida. É importante pensar na relevância geográfica destas últimas palavras do Evangelho de Mateus. A região fica na fronteira com os povos pagãos. Agora, pela comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus, o Evangelho será destinado a toda humanidade. O que aconteceu na Palestina naquele tempo, deve ser proposto a todos os tempos e lugres, porque a Justiça e a Paz não conhecem tempo e lugar. O Evangelho do Amor, vivido na prática da solidariedade e da partilha, não tem fronteiras.

Jesus transcenderá ao Pai, mas deixa uma promessa: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20). Esta presença na ausência se configura na permanência de Jesus em nós, pela perseverança do sonho por um mundo mais fraterno e justo. Ele vive na ação do Espírito Santo que habita cada coração de seus seguidores e seguidoras. Para que Jesus permaneça vivo nas comunidades de fé há o imperativo da missão. Assim como aconteceu com Jesus (cf. Mt 3,13-17), a missão começa com o batismo, quando ele recebeu o Espírito que o levou ao anúncio e à prática da Justiça. Pelo batismo todos nós nos tornamos filhos e filhas de Deus e irmãos e irmãs de Jesus, continuando a missão dele, iluminados pelo Espírito que ensinará tudo o que dizer e fazer (cf. Mt 10,19-20).

Em Mt 28,20 Jesus continua a instituir a missão aos discípulos e discípulas enviando-os a observar tudo que ensinou. Em outras palavras, tudo o que Jesus mostrou e ensinou sobre a prática do amor pela justiça. É através dela que o Reino de Deus vem até a humanidade, trazendo liberdade e vida para todos e todas. Este envio continua vivo e atual ainda hoje. O mundo precisa de paz. Esta só será possível quando o amor, que se faz realidade na justiça, na solidariedade e na partilha; se fizer a escolha primeira de todos os homens e mulheres. Tudo é possível pelo amor (cf. 1Cor 13).

Refletir e celebrar o Mistério da Ascensão, é nos colocarmos em comunhão e transcendência. A partir deste dia, referenciado nos Evangelhos, Jesus se faz Um com a Comunidade Trinitária. Daí se manifesta, em definitivo, sua glória. Já não há mais lugar para a dúvida. Jesus é – de fato – o Messias! E mais: é Um com o Pai. Com isso, na unidade do Espírito Santo, a Igreja deve ser una e primar pela unidade. Claro que unidade não pressupõe uniformidade. Na diversidade de carismas, dons e culturas, devemos oferecer nossas riquezas pelo bem de todos. Na Comunidade Trinitária somos chamados a entender que não podemos cultuar o individualismo em nossa vivência do discipulado. O Pai e o Filho se fazem Um no amor, e – pelo amor – a Igreja deve ser una, promovendo unidade. E o que, de fato, pode significar unidade? É o desejo de todos em viver inspirados na Palavra e impulsionados pela Ação de Jesus, amando sempre, perdoando sempre e, nos “pegues e pagues da vida“, nos colocando sempre ao lado dos fracos, dos pobres, dos excluídos. E estas portas nos foram abertas pela literatura mateana de forma paradigmática.

Sigamos em frente, como continuadores do anúncio e testemunho da Boa-Nova de Jesus. Afinal, o cancioneiro das comunidades nos incita: “O tempo não para, chegou minha hora, eu vou para o Pai, mas eu fico por perto. Eu sou este Pão, este Vinho, este Amor. Perfaz o caminho que encontra-se aberto!” Sigamos juntos! Enquanto Comunidades de Amor, alimentadas pela Palavra, pelo Pão e pelo Vinho; vivamos a solidariedade e a partilha, buscando sempre o Reino de Deus e sua Justiça.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑