Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM [1]
Alguém já te fez essa pergunta: Tu me amas? O que você responderia? O que é isso amar? Que relação existe entre amar e desapegar? Celebrando a memória de Santa Rita de Cássia, o que ela tem a nos dizer sobre o amor?
Para responder a essas perguntas, busquemos inspiração no evangelho de João 21,15-19. Trata-se de um acréscimo ao evangelho de João, escrito entre os anos 90 e 100 da Era Comum. O evangelho havia terminado com a aparição de Jesus a Maria Madalena (Jo 20). Não ficava bem terminar, aos olhos judaicos, o evangelho terminar com a memória de Jesus histórico relacionando-se com uma mulher. Por isso, foi feito esse acréscimo, anos depois, sobre a aparição de Jesus aos apóstolos à margem do lago de Tiberíades ou mar da Galileia.
Jesus pergunta a Pedro três vezes se ele o ama. Três é fundamental para compreender a totalidade de uma coisa, por isso, ele aparece várias vezes na Bíblia. São três os substantivos gregos usados para falar de amor. O amor Ágape (ἀγάπη) refere-se ao amor de Deus, bem como um amor incondicional que me leva a sacrificar-me por alguém. O outro tipo de amor é o amor Eros (έρωτας), o amor erótico, aquele deseja possuir o outro, como no amor matrimonial. O terceiro tipo é o amor Philia (φιλία), o fraterno, o amor de amizade, de filhos.
Veja que interessante, em Jo 21,15-19, Jesus pergunta a Pedro se ele o amava usando ágape, o amor de Deus. Pedro reponde com o verbo grego amar philia, amor de amizade. Pedro, não entendendo o porquê de três perguntas, ficou triste. A resposta de Pedro ainda que não tenha sido a esperada, leva Jesus a acrescentar o pedido de que ele pudesse apascentar as suas ovelhas. Não necessariamente este pedido está se referindo ao primado de Pedro sobre os demais discípulos, mas ao seu apostolado, o que implicava o cuidado de ovelhas. Ainda não satisfeito, no versículo vinte, Pedro vê o discípulo amado, João, e pergunta para Jesus. Jesus responde que no amor ágape, não tem espaço para preferência, mas o importa é ir e segui-lo.
Amar exige integridade, doação, entrega e fé. Para Jesus, consistia também em segui-lo. Em episódios anteriores, por exemplo, o do caso do jovem rico, que seguia a Lei, mas não era capaz de desapegar de seus bens, [2] Jesus exigiu desapego para o jovem rico e, agora, ressuscitado, para Pedro.
O desapego para servir é fundamental em nossas vidas. Até o amor de mãe exige desapego. O filho cresce e segue a sua vida. Como é difícil para as mães entenderem isso. O apego aos bens materiais impede-nos de amar plena plenamente. Um bem material tem a sua finalidade e seu fim. Vivemos na era do querer ter para possuir.
O amar é doação, é crer, é entregar-se por inteiro sem querer nada em troca. O amor perpassa toda a vida, como na fração de um dia, do levantar-se ao deitar-se para recomeçar sempre. O judeu mais conservador leva na cabeça em um pequeno frasco o texto de Dt 6,4-9 que fala do amar a Deus com o coração (intelecto), a alma (ser) e as posses (dinheiro). Para eles, o amor deve ser recordado sempre, nas mãos que se movimentam e fazem a vida acontecer, entre os olhos como num frontal que aponta o caminho iluminado, e ainda como recordação na porta de entrada da casa e da cidade de cada judeu do tempo de Jesus. Jesus sabia dessa máxima, e por isso, pergunta a Pedro pelo nível do seu amor divino. Com em Deuteronômio, Jesus pergunta três vezes.
Amar é coisa de Deus e de humanos. Nas duas outras dimensões do amor, o eros e philia, surgem para nós dificuldades. Entre as aves, por exemplo, a galinha não ama o galo. Ele não sente a sua falta, mas do milho, sim. Ela fica feliz com o milho, a grama verde e os ovos. O ser humano, pelo contrário, ama porque sente falta do outro que o complemente. Somos incompletos. Nos encontros em nossas vidas, muitas vezes somos como porcos espinhos, nos espetamos e competimos. A galinha, diferentemente, é completa. Nós, por outro lado, na nossa limitação de humanos, necessitamos de algo no outro para amá-lo. Por isso, vivemos sempre competindo para saber quem é o melhor. Alguém diz para o outro: estou cansado, levantei-me às seis horas e não parei. O outro responde, levantei-me às 5h. E ainda: estou com dor de cabeça. O outro responde: estou com câncer no intestino. Parece uma eterna luta para saber quem pode mais. Nisso tudo, o amor fica longe. Reina o apego. O melhor caminho para amar é desapegar. O apego gera solidão e sofrimento. Jesus não exige de Pedro apego a Ele, mas entrega ao amor incondicional.
Em relação à nossa última pergunta, sobre Santa Rita de Cássia, eu diria que essa mulher que foi batizada Margarida, e, carinhosamente, chamada de Rita ou Ritinha, nasceu na Itália, em 1381, em Roccaporena. Ela acreditava no amor entre casais. Ainda que fosse de classe pobre, ela se enamorou de um nobre cavaleiro, Paolo Mancini. Do casamento, vieram dois filhos gêmeos. O marido era violento no trato com ela e as pessoas. Rita converteu-o pelo amor, mas ele veio a morrer assassinado por um chefe do feudo. O sogro queria vingança, por isso, preparou os filhos para executá-la, ensinando-os a guerrear. Quando chegou o dia da batalha, Rita rezava, os filhos caíram numa emboscada. Ela os levou para o convento de freira, as quais cuidavam de hansenianos. Os filhos foram acometidos de lepra e morreram. Mais tarde, Rita entrou para o convento das freiras agostinianas de Cássia e aí morreu santamente.
Ela é chamada de Santa das Rosas, pelo fato de que cinco meses antes de sua morte, uma parenta de Roccaporema foi visitá-la. Era inverno duríssimo, a neve cobria as plantações. A parenta perguntou o que a Ir. Rita desejava. Ela respondeu: uma rosa de sua horta. A parenta voltou, encontrou, para a sua surpresa, uma rosa na sua horta. Ela a apanhou e levou para Rita, que faleceu no dia no dia 22 de maio de 1447. Ela foi canonizada pelo Papa Leão XIII, em 1900.
Rita, a santa das rosas, do amor e das causas impossíveis. Converteu o marido à fé em Jesus do amor ágape. A vida é uma rosa que nasce, floresce, fenece, fica seca e morre, mas o seu perfume permanece e exala o amor que não morre nunca. Nós, cristãos, colocamos flores no caixão de nossos falecidos para simbolizar essa vida a caminho, no amor e na esperança de encontrar o Amor maior de nossa de nosso existir, Deus na eternidade da vida que não morre. Que nossa a nossa vida seja sempre um reaprender a amar nas suas três dimensões, no desapego das coisas que passam para nos tornarmos eternos para sempre em Deus ágape.

[1]Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de treze livros e coautor de quinze. Publicou recentemente Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento sobre a infância de Jesus, Maria, José, Pilatos, apocalipses, cartas, atos etc. Canal no Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ Intagram e Tiktok: @freijacir
[2]FARIA, Jacir de Freitas. A releitura do Deuteronômio nos evangelhos. In: KONINGS, Johan; SILVANO, Zuleica Aparecida. (Org.). Deuteronômio: Escuta, Israel. 1ed.São Paulo: Paulinas, 2020, v. 1, p. 190.
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