“Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?” (Mt 12,46-50): A nova família de Jesus e o Reino de Deus na perspectiva da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Poucos textos do Evangelho de Mateus provocam tanto questionamento quanto Mt 12,46-50. À primeira vista, parece que Jesus rejeita sua própria mãe e seus parentes. Uma leitura superficial pode sugerir um rompimento familiar ou uma desvalorização dos laços de sangue. Entretanto, uma análise exegética mais cuidadosa revela exatamente o contrário: Jesus amplia o conceito de família, transformando-o numa comunidade fundada na prática da vontade de Deus.
Na perspectiva da Teologia Latino-Americana, este texto adquire enorme relevância. Em um continente marcado por profundas desigualdades, pela exclusão social, pelo racismo estrutural, pelo patriarcalismo, pelo individualismo e pela violência econômica, Jesus propõe uma nova forma de convivência humana: a fraternidade do Reino.
A Leitura Popular da Bíblia convida as comunidades a perguntarem não apenas “o que o texto dizia”, mas também “o que ele diz hoje para nosso povo”. Assim, Mateus 12,46-50 deixa de ser apenas um episódio da vida de Jesus para tornar-se um projeto de reorganização das relações humanas.
O contexto literário do Evangelho de Mateus
O episódio encontra-se ao final de uma longa seção (Mt 11–12) caracterizada pelo aumento dos conflitos entre Jesus e as autoridades religiosas.
Até este momento do Evangelho aparecem sucessivamente:
- a rejeição das cidades da Galileia;
- os conflitos sobre o sábado;
- as acusações de agir por Beelzebu;
- o pecado contra o Espírito Santo;
- a exigência de sinais extraordinários;
- a crítica à geração má e adúltera.
Mateus mostra que cresce a oposição contra Jesus. É justamente nesse contexto que aparece sua família. Não é um detalhe narrativo.
Mateus deseja mostrar que, diante da rejeição institucional, nasce uma nova comunidade. O Reino não depende dos vínculos biológicos, mas da adesão ao projeto de Deus.
A estrutura do texto
O relato é extremamente simples. Enquanto Jesus ensina, chegam sua mãe e seus irmãos. Alguém o avisa: “Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem falar contigo.” Jesus responde com uma pergunta: “Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?” Em seguida aponta para os discípulos: “Eis minha mãe e meus irmãos.” Conclui: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”
A narrativa possui um movimento pedagógico. Não é uma negação da família. É uma redefinição.
O significado da expressão “irmãos”
Na tradição judaica, a palavra “irmãos” (adelphoi, em grego) possui sentido amplo.
Pode designar:
- parentes próximos;
- membros do mesmo clã;
- pessoas da mesma comunidade;
- aliados;
- companheiros.
Mateus não está discutindo aqui a composição da família de Maria. O interesse do evangelista é teológico. A questão não é quem eram esses irmãos. A questão é quem passa a fazer parte da nova família inaugurada pelo Reino.
“Estavam do lado de fora”
Mateus observa discretamente: “Estavam do lado de fora.” Este detalhe possui enorme importância.
Na Bíblia, “estar fora” frequentemente simboliza quem ainda não participa plenamente da comunidade do Reino. Enquanto isso, os discípulos estão dentro da casa. A casa, em Mateus, frequentemente representa a comunidade cristã. Não significa exclusão definitiva. Significa que a adesão ao Reino exige uma decisão.
Ninguém pertence automaticamente à comunidade apenas por laços familiares ou tradição religiosa.
Fazer a vontade do Pai
Esta é a frase central. Jesus afirma: “Quem faz a vontade de meu Pai…” A expressão aparece diversas vezes em Mateus. Ela não significa simplesmente obedecer normas religiosas. Mateus já havia explicado isso no Sermão da Montanha.
Fazer a vontade do Pai significa:
- praticar a justiça;
- viver as bem-aventuranças;
- amar os inimigos;
- cuidar dos pequenos;
- perdoar;
- construir a paz;
- buscar primeiro o Reino.
A vontade de Deus não é abstrata. Ela se manifesta na prática concreta da misericórdia.
A nova família do Reino
No mundo antigo, a família era uma estrutura profundamente patriarcal. O pai concentrava:
- autoridade;
- patrimônio;
- decisões;
- religião;
- poder político.
Jesus rompe parcialmente esta lógica. A nova família não nasce do sangue. Nasce da escuta da Palavra.
Mais ainda: ela nasce da prática da vontade de Deus. O Reino relativiza todas as formas de privilégio. Nem origem social. Nem raça. Nem riqueza. Nem nacionalidade. Nem parentesco. O critério passa a ser outro. A fidelidade ao projeto libertador do Pai.
A leitura na perspectiva da Teologia Latino-Americana
A Teologia Latino-Americana sempre compreendeu a Igreja como povo reunido pelo Reino.
As Conferências Episcopais de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida insistem que a comunidade cristã nasce da comunhão com Cristo e do compromisso com os pobres.
Mateus 12 mostra exatamente isso. A Igreja não é uma associação de pessoas religiosas. É uma família construída pela solidariedade. A verdadeira fraternidade nasce da justiça. Por isso, Gustavo Gutiérrez afirma que a comunhão cristã exige compromisso histórico com os pobres. Leonardo Boff fala da Igreja como casa aberta. José Comblin insiste que o Espírito cria comunidades livres. Frei Carlos Mesters recorda frequentemente que a Palavra reúne um povo novo.
Tudo isso está presente neste pequeno texto.
A Leitura Popular da Bíblia
Quando as Comunidades Eclesiais de Base leem este texto, normalmente fazem uma pergunta simples: Quem é hoje a família de Jesus?
A resposta não vem da teoria. Ela nasce da vida.
São família de Jesus:
- as mulheres que sustentam a comunidade;
- os agentes de pastoral;
- os povos indígenas;
- os quilombolas;
- os trabalhadores explorados;
- os catadores;
- os migrantes;
- os sem-terra;
- os sem-teto;
- os idosos abandonados;
- os jovens periféricos;
- as vítimas da violência.
Todos aqueles que constroem relações de fraternidade tornam-se membros da família do Reino.
A crítica ao individualismo
Vivemos numa sociedade profundamente individualista. A lógica dominante afirma: “cada um cuida de si.”
Jesus responde exatamente o contrário. O discípulo nunca caminha sozinho. O Reino constrói comunidade. Não existe espiritualidade cristã isolada. A fé sempre gera comunhão. Por isso, o texto critica também formas de religiosidade intimistas que ignoram a dor coletiva.
A dimensão sociotransformadora
Na América Latina, milhões de pessoas vivem rompimentos familiares provocados pela pobreza.
- Há mães que criam seus filhos sozinhas.
- Migrantes separados de seus parentes.
- Crianças abandonadas.
- Idosos esquecidos.
- Pessoas em situação de rua.
- Refugiados.
- Encarcerados.
O texto de Mateus anuncia uma esperança concreta.
- A Igreja deve tornar-se casa.
- Família.
- Rede de cuidado.
- Lugar de acolhida.
Quando isso acontece, o Reino torna-se visível.
Consequências pastorais
Este texto inspira inúmeras ações pastorais. A comunidade cristã é chamada a:
- fortalecer pequenas comunidades missionárias;
- acolher pessoas que vivem sozinhas;
- combater toda forma de discriminação;
- defender os direitos dos pobres;
- promover economia solidária;
- incentivar pastorais sociais;
- apoiar movimentos populares comprometidos com a dignidade humana;
- fortalecer Conselhos de Direitos;
- atuar junto às populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas;
- criar espaços onde mulheres, jovens e idosos tenham voz;
- fazer da liturgia expressão concreta da fraternidade.
A família de Jesus torna-se visível quando ninguém permanece invisível.
Um desafio para as Comunidades Eclesiais de Base
As Comunidades Eclesiais de Base encontram neste texto uma de suas maiores inspirações. Nelas, a família não é definida pelo sobrenome. É definida pela partilha. A Palavra gera irmandade. A Eucaristia fortalece a comunhão. A missão amplia os horizontes. Ali todos são chamados pelo nome. Todos têm voz. Todos participam.
Esta é uma antecipação histórica do Reino de Deus.
Conclusão
Mateus 12,46-50 não rompe com a família; rompe com toda compreensão exclusiva da família. Jesus não diminui Maria nem seus parentes. Ao contrário, revela que Maria é verdadeiramente sua mãe porque ouviu a Palavra e fez a vontade de Deus (cf. Lc 1,38; 11,27-28). O critério fundamental do discipulado deixa de ser a proximidade biológica e torna-se a fidelidade ao Reino.
Na perspectiva da Teologia Latino-Americana, este texto é um chamado para reconstruir os vínculos sociais rompidos pela lógica da exclusão. A nova família de Jesus nasce onde a justiça supera o privilégio, onde a misericórdia vence a indiferença e onde a solidariedade substitui o individualismo.
A Leitura Popular da Bíblia reconhece que esta família continua a nascer nas pequenas comunidades que partilham a vida, defendem os pobres, acolhem os excluídos e assumem o compromisso com a transformação da sociedade. Cada comunidade que coloca os últimos em primeiro lugar torna visível a casa do Reino. Nela, indígenas, negros, mulheres, migrantes, trabalhadores, pessoas em situação de rua, idosos, crianças e todos os que sofrem encontram não apenas assistência, mas irmãs e irmãos.
Assim, a pergunta de Jesus continua ecoando em nossas comunidades: “Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?” A resposta não se encontra em registros de nascimento, mas na vida daqueles que, iluminados pelo Espírito, fazem da vontade do Pai um caminho de justiça, fraternidade e libertação. É nessa prática cotidiana que a Igreja se revela, verdadeiramente, como família de Deus entre os pobres e com os pobres.
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