Mateus 13,24-43: O Reino que cresce no meio dos conflitos da história

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O capítulo 13 do Evangelho de Mateus reúne o chamado “Discurso das Parábolas”, no qual Jesus apresenta imagens retiradas do cotidiano camponês para revelar a dinâmica do Reino de Deus. Entre elas, Mateus 13,24-43 reúne três importantes parábolas: o Joio e o Trigo (13,24-30.36-43), o Grão de Mostarda (13,31-32) e o Fermento (13,33), encerrando-se com a explicação da parábola do joio.

Essas parábolas não são simples narrativas morais. Elas constituem uma verdadeira interpretação da história. Jesus fala para um povo submetido ao Império Romano, explorado por uma elite religiosa aliada ao poder político e marcado pela pobreza estrutural. Nesse contexto, o Reino de Deus aparece como uma esperança concreta capaz de transformar a realidade sem reproduzir os mecanismos de violência dos impérios.

A Teologia Latino-Americana encontra nessas parábolas um horizonte privilegiado para compreender que Deus continua agindo na história através dos pequenos, dos pobres, dos invisibilizados e dos movimentos populares. A Leitura Popular da Bíblia ajuda a perceber que essas narrativas iluminam os conflitos sociais contemporâneos e fortalecem a esperança dos que continuam lutando por justiça.

O contexto histórico de Mateus

O Evangelho de Mateus foi escrito por volta dos anos 80-90 d.C., quando as comunidades cristãs enfrentavam profundas crises. Jerusalém havia sido destruída pelos romanos no ano 70, o Templo já não existia e muitos cristãos eram expulsos das sinagogas.

A comunidade precisava responder perguntas fundamentais:

  • Onde Deus está em meio a tanto sofrimento?
  • Por que o mal continua existindo?
  • Vale a pena permanecer fiel ao Evangelho?

As parábolas respondem exatamente a essas inquietações. Enquanto muitos esperavam uma intervenção imediata de Deus eliminando toda maldade, Jesus apresenta um Reino que cresce lentamente, respeitando os tempos da história. Essa perspectiva possui enorme importância para a América Latina, continente marcado por desigualdades, violência estrutural, corrupção, concentração de terras e exclusão social.

A parábola do joio e do trigo (Mt 13,24-30)

A narrativa começa de forma simples: “O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo.”

A boa semente representa o projeto original de Deus. Entretanto, “Enquanto todos dormiam, veio o inimigo e semeou joio no meio do trigo.”

Jesus parte de uma prática conhecida na agricultura palestinense. O joio (Lolium temulentum) é muito semelhante ao trigo durante boa parte de seu crescimento. Somente próximo da colheita torna-se possível distingui-los.

A pergunta dos empregados revela a lógica humana: “Devemos arrancar imediatamente o joio?” O proprietário responde: “Não.” Essa resposta surpreende. Não porque Deus seja indiferente ao mal. Mas porque a violência nunca produz o Reino.

Uma leitura exegética

O texto apresenta diversos elementos importantes. O campo representa o mundo inteiro. Não apenas a Igreja. O Reino cresce em meio às ambiguidades da história. Jesus não oferece uma visão idealizada da realidade.

Ele reconhece:

  • há injustiça;
  • há violência;
  • há exploração;
  • há corrupção;
  • há estruturas de pecado.

Todavia, também afirma que Deus continua semeando vida. A paciência divina não significa acomodação. Significa confiar que o bem possui força maior do que o mal.

O joio na realidade latino-americana

A Leitura Popular da Bíblia pergunta: onde está o joio hoje? O joio aparece sempre que a vida dos pobres é ameaçada.

Está presente:

  • na fome;
  • no racismo;
  • no feminicídio;
  • na violência contra os povos indígenas;
  • na destruição ambiental;
  • no tráfico humano;
  • na exploração do trabalho;
  • na exclusão das periferias;
  • na criminalização dos movimentos populares;
  • na corrupção que retira recursos destinados aos mais pobres.

Contudo, Jesus adverte: o combate ao joio não pode destruir o trigo. Quantas vezes, em nome da justiça, produzem-se novas injustiças? Quantas guerras são justificadas dizendo defender a paz? Quantas pessoas são descartadas em nome da segurança? Jesus rompe essa lógica!

O Reino cresce silenciosamente

Em seguida aparecem duas pequenas parábolas.

1. O grão de mostarda

A mostarda possui sementes extremamente pequenas. Entretanto torna-se uma grande planta. Jesus desmonta a lógica do poder. O Reino não começa nos palácios. Não nasce nos centros políticos. Não depende das grandes estruturas econômicas. Começa entre os pequenos.

Na América Latina podemos reconhecer esse crescimento em:

  • Comunidades Eclesiais de Base;
  • Pastorais Sociais;
  • movimentos populares;
  • economia solidária;
  • agricultura familiar;
  • cooperativas;
  • grupos de mulheres;
  • juventudes organizadas;
  • pastorais indígenas;
  • pastorais afrodescendentes;
  • iniciativas ecológicas populares.

A lógica do Reino permanece invertendo as expectativas humanas.

2. O fermento na massa

A mulher mistura uma pequena quantidade de fermento em grande volume de farinha. Toda a massa é transformada.

O detalhe é significativo. Quem realiza essa ação é uma mulher. Num contexto patriarcal, Jesus coloca justamente uma mulher como imagem da ação de Deus. Isso revela que o Reino também rompe exclusões culturais. O fermento permanece invisível. Mas transforma tudo.

Assim acontece com inúmeras pessoas anônimas:

catequistas;
agentes da Pastoral da Criança;
lideranças comunitárias;
religiosas;
educadores populares;
defensores dos direitos humanos;
missionários;
lideranças indígenas;
quilombolas;
voluntários que trabalham junto aos moradores de rua.

Seu trabalho raramente aparece nas manchetes. Mas sustenta silenciosamente a esperança.

A explicação da parábola (Mt 13,36-43)

Jesus identifica os personagens. O semeador é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio representa aqueles que colaboram com a injustiça. A colheita simboliza o julgamento final.

Importante notar: o julgamento pertence a Deus. Não aos discípulos.

Mateus escreve para uma comunidade tentada a dividir o mundo entre puros e impuros. Jesus impede esse moralismo. Os discípulos não recebem autorização para eliminar pessoas. Recebem a missão de produzir frutos do Reino.

A perspectiva da Teologia Latino-Americana

Autores como Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, José Comblin, Carlos Mesters e tantos biblistas latino-americanos insistem que o Reino anunciado por Jesus possui consequências históricas. A salvação não acontece apenas depois da morte.

Ela começa agora.

Sempre que:

  • uma criança deixa de passar fome;
  • uma família conquista moradia;
  • trabalhadores obtêm direitos;
  • povos indígenas recuperam seus territórios;
  • mulheres são libertadas da violência;
  • jovens encontram oportunidades;
  • refugiados são acolhidos;
  • pessoas negras enfrentam o racismo estrutural;
  • a criação é protegida.

O Reino torna-se visível.

O joio das estruturas de pecado

A Doutrina Social da Igreja fala da existência das “estruturas de pecado”. São formas organizadas de injustiça que produzem exclusão. O joio não pode ser reduzido apenas ao pecado individual.

Também existem:

  • sistemas econômicos excludentes;
  • políticas públicas que abandonam os pobres;
  • concentração fundiária;
  • destruição ambiental;
  • cultura do descarte;
  • mercantilização da vida.

O Reino desafia essas estruturas. Não mediante violência. Mas através da organização popular, da solidariedade, da educação libertadora, da participação política e da conversão social.

Leitura Popular da Bíblia

Quando grupos populares leem essa passagem, geralmente surgem perguntas muito concretas:

Quem está semeando esperança hoje?
Quem está espalhando o joio?
Como cuidar do trigo sem reproduzir violência?
Onde percebemos pequenos sinais do Reino?

Essas perguntas transformam a Bíblia em instrumento de discernimento comunitário. A Palavra deixa de ser apenas objeto de estudo. Torna-se força organizadora da vida.

Pistas pastorais

A Igreja pode tornar-se sinal do Reino quando:

  • fortalece pequenas comunidades missionárias;
  • promove formação bíblica popular;
  • incentiva economia solidária;
  • apoia os movimentos sociais comprometidos com a dignidade humana;
  • acolhe migrantes, refugiados e pessoas em situação de rua;
  • combate todas as formas de discriminação;
  • promove ecologia integral;
  • fortalece pastorais sociais;
  • forma lideranças comprometidas com a justiça.

A missão não consiste apenas em preparar pessoas para o céu. Consiste em tornar visível o Reino de Deus na história.

Espiritualidade do Reino

As parábolas convidam a uma espiritualidade profundamente esperançosa.

Nem ingenuidade.
Nem desesperança.

O discípulo reconhece o mal. Mas acredita que Deus continua trabalhando. O Reino cresce lentamente.

Como o trigo.
Como a mostarda.
Como o fermento.

Essa espiritualidade impede tanto o pessimismo quanto o triunfalismo. Ela convida à perseverança.

Conclusão

Mateus 13,24-43 permanece extraordinariamente atual. Em um mundo marcado por guerras, desigualdades, intolerâncias e exclusões, Jesus convida seus discípulos a reconhecer que o Reino de Deus cresce silenciosamente no meio da história.

A Teologia Latino-Americana ajuda-nos a compreender que o trigo continua germinando nas comunidades populares, nas pastorais sociais, nos movimentos de defesa da vida, nas organizações dos trabalhadores, nas mulheres que sustentam suas famílias, nos povos indígenas que resistem, nos quilombolas que preservam sua cultura, nos jovens que sonham com um mundo mais justo e em todos aqueles que fazem da solidariedade uma forma concreta de viver o Evangelho.

A Leitura Popular da Bíblia recorda que Deus nunca abandona seu povo. Mesmo quando o joio parece dominar o campo, a boa semente continua crescendo. O Reino não é uma utopia distante, mas uma realidade já presente, construída diariamente por homens e mulheres que, iluminados pelo Evangelho, recusam a lógica da violência e assumem o compromisso com a justiça, a paz, a fraternidade e a dignidade dos pobres.

Assim, as parábolas do joio e do trigo, da mostarda e do fermento tornam-se um convite permanente para que a Igreja seja, na América Latina e no mundo, uma comunidade que cultiva a esperança, fortalece a organização popular, denuncia as estruturas de morte e testemunha, com coragem e ternura, que a última palavra da história pertence ao Deus da vida e não às forças da opressão.


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