Dom José Maria Pires: um bispo que fez do Evangelho um compromisso com os vulneráveis!

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Há homens cuja passagem pela história da Igreja não se mede apenas pelos cargos que exerceram, pelas dioceses que governaram ou pelos livros que escreveram. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de testemunhar o Evangelho, quando segui-lo significa colocar-se ao lado daqueles que a sociedade prefere não enxergar. Dom José Maria Pires pertence a essa estirpe de pastores. Sua vida episcopal foi uma expressão concreta de uma Igreja que não deseja permanecer distante das dores do povo, mas que se aproxima dos pobres, dos negros, dos camponeses, dos excluídos e de todos aqueles cuja dignidade é ferida pelas estruturas de injustiça.

Nascido em Córregos, Minas Gerais, em 15 de março de 1919, Dom José foi ordenado sacerdote em 1941 e recebeu a ordenação episcopal em 1957. Foi bispo de Araçuaí e, posteriormente, arcebispo da Paraíba, onde exerceu seu ministério de 1966 a 1995. Participou das quatro sessões do Concílio Vaticano II e esteve entre os bispos que assumiram de maneira particularmente consequente a renovação eclesial proposta pelo Concílio. Morreu em Belo Horizonte, em 27 de agosto de 2017, aos 98 anos, depois de uma vida marcada por 70 anos de sacerdócio e 60 de episcopado.

Sua trajetória, entretanto, não pode ser reduzida a uma cronologia. Dom José Maria Pires foi um daqueles homens em quem o ministério episcopal adquiriu uma profunda dimensão profética.

Um bispo negro em uma Igreja que precisava assumir o compromisso com a luta contra o racismo

A própria existência de Dom José Maria Pires como bispo carregava uma dimensão histórica. Negro, proveniente de uma realidade simples do interior mineiro, tornou-se uma das vozes mais significativas da Igreja brasileira no século XX. Foi o primeiro brasileiro negro a ser nomeado arcebispo, em um país marcado por profundas desigualdades raciais e por uma história de escravidão cujas consequências permaneciam — e permanecem — presentes na sociedade e também nas estruturas eclesiais.

Sua presença episcopal ajudou a Igreja a compreender que a questão racial não poderia ser tratada como tema periférico. A fé cristã não pode anunciar a dignidade universal dos filhos e filhas de Deus enquanto tolera formas concretas de racismo, exclusão e invisibilização.

Por isso, Dom José assumiu a defesa da população negra e incentivou a pastoral afro-brasileira. Sua atuação contribuiu para que a Igreja do Brasil reconhecesse a necessidade de valorizar a história, a cultura, a religiosidade e a dignidade do povo negro. Em sua trajetória posterior, também publicou trabalhos sobre a cultura religiosa de Matriz Africana, aprofundando uma reflexão que continua extremamente necessária.

Não se tratava simplesmente de uma opção sociológica. Tratava-se de uma consequência de sua fé. Para Dom José, reconhecer o rosto negro do povo brasileiro significava reconhecer naquele rosto o próprio Cristo.

Vaticano II e a descoberta de uma Igreja pobre e servidora

O Concílio Vaticano II foi decisivo para a geração episcopal à qual Dom José pertenceu. O Concílio recuperou uma compreensão da Igreja como Povo de Deus, comunidade chamada a caminhar com a humanidade e a discernir os sinais dos tempos. Dom José assumiu essa renovação não como uma mudança meramente litúrgica ou institucional, mas como uma transformação do modo de ser Igreja.

Sua atuação na Paraíba revelou concretamente essa compreensão conciliar. Estudos sobre seu episcopado destacam a conexão entre suas iniciativas pastorais e sociais e o movimento de renovação do catolicismo brasileiro em direção à construção de uma Igreja dos Pobres.

Nesse sentido, sua espiritualidade estava profundamente ligada àquilo que o Concílio havia despertado em tantos pastores: a necessidade de uma Igreja menos identificada com privilégios e mais próxima das feridas humanas.

Dom José também esteve ligado ao Pacto das Catacumbas, compromisso assumido por um grupo de padres conciliares para viver de maneira mais simples, rejeitar símbolos de poder e colocar os pobres no centro do ministério episcopal. As próprias Pontifícias Obras Missionárias recuperaram, após sua morte, sua explicação sobre esse importante acontecimento da história recente da Igreja.

A grandeza de Dom José está justamente em ter procurado transformar um princípio conciliar em estilo de vida: uma Igreja pobre, não apenas que fala sobre os pobres; uma Igreja com os pobres, não apenas para os pobres.

A coragem de permanecer ao lado dos camponeses

Foi na defesa dos trabalhadores rurais e dos camponeses que seu testemunho adquiriu uma dimensão particularmente profética.

Durante os anos de ditadura militar, quando a defesa dos direitos humanos podia trazer consequências graves, Dom José não se calou. Na Paraíba, envolveu-se nos conflitos relacionados à terra e colocou-se ao lado dos camponeses. Sua atuação na defesa dos agricultores de Alagamar tornou-se uma das expressões mais conhecidas de seu compromisso pastoral.

Essa postura revela uma compreensão fundamental do Evangelho: a fé não pode ser indiferente diante da injustiça.

O bispo não abandona sua missão pastoral quando entra no território dos conflitos sociais. Ao contrário, é precisamente ali que sua missão se torna mais exigente. Quando famílias são expulsas da terra, quando trabalhadores são explorados, quando comunidades são ameaçadas e quando os pobres não possuem voz diante dos poderosos, a presença da Igreja precisa assumir o rosto da defesa da vida.

Dom José compreendeu isso.

Sua coragem não era agressividade. Era a coragem serena de quem não precisava transformar o adversário em inimigo para defender a vítima. Testemunhos sobre sua vida destacam justamente essa combinação singular entre firmeza e capacidade de diálogo.

A fé que não se separa da justiça

A vida de Dom José Maria Pires pode ser lida como uma profunda crítica à separação artificial entre evangelização e compromisso social.

Para ele, anunciar Jesus Cristo significava necessariamente defender a dignidade humana. A missão da Igreja não poderia limitar-se ao espaço interno dos templos enquanto homens e mulheres sofriam nas periferias, nos campos, nas comunidades negras e nos lugares onde a violência das estruturas sociais produzia exclusão.

Essa perspectiva aproxima profundamente seu testemunho da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia. A Palavra de Deus, quando lida a partir dos pobres, deixa de ser uma palavra abstrata e torna-se uma interpelação concreta à história.

O Deus bíblico escuta o clamor dos escravizados no Egito. Os profetas denunciam os que acumulam bens enquanto os pobres são esmagados. Jesus anuncia boas-novas aos pobres e liberdade aos oprimidos. A Igreja, portanto, não pode permanecer neutra diante da vida ameaçada.

Dom José fez de sua própria vida uma interpretação concreta dessa tradição bíblica.

Ele compreendeu que a opção pelos pobres não é uma moda teológica, uma preferência ideológica ou uma estratégia pastoral. É consequência do próprio Evangelho.

Um pastor que soube dialogar

Há ainda uma característica de Dom José que merece ser recuperada em tempos de crescente polarização: sua capacidade de dialogar.

Sua firmeza em defesa dos pobres não o transformou em homem incapaz de conversar com quem pensava diferente. Testemunhos sobre sua trajetória ressaltam sua disposição para dialogar com estudantes, agricultores, autoridades civis e militares.

Essa característica é extremamente atual.

Dom José mostra que profecia não é sinônimo de intolerância. É possível denunciar a injustiça sem cultivar o ódio. É possível enfrentar estruturas de poder sem desumanizar as pessoas. É possível ter convicções profundas e, ao mesmo tempo, manter abertas as portas do diálogo.

Talvez essa seja uma das maiores lições que seu testemunho oferece à Igreja contemporânea: precisamos recuperar uma palavra profética que seja firme diante da injustiça e misericordiosa diante das pessoas.

Dom José e a Igreja dos vulneráveis

O testemunho de Dom José Maria Pires não pertence apenas à história da Paraíba. Ele integra a memória maior da Igreja do Brasil e da Igreja latino-americana.

Seu episcopado dialoga com o de Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Luciano Mendes de Almeida e tantos outros pastores que compreenderam que a missão episcopal não poderia ser exercida à distância das dores concretas do povo.

Dom José participou, inclusive, da histórica Missa dos Quilombos, celebrada em Recife ao lado de Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga e outras importantes figuras da Igreja e da cultura brasileira. Sua presença naquele acontecimento expressava a busca por uma Igreja capaz de reconhecer a história e a dignidade do povo negro.

Sua influência ultrapassou, portanto, as fronteiras de uma diocese. Ele se tornou referência para uma Igreja que buscava responder aos desafios do Concílio Vaticano II no contexto latino-americano: pobreza, racismo, concentração fundiária, autoritarismo, violência, exclusão e marginalização.

Uma memória que continua sendo missão

Dom José Maria Pires morreu em 2017, mas seu testemunho não pertence ao passado.

Ao contrário, sua vida se torna ainda mais necessária quando a Igreja corre o risco de voltar a compreender sua missão em termos de poder, prestígio, estética, autorreferencialidade e defesa de privilégios.

A memória de Dom José nos recorda que a autoridade cristã não se mede pela distância em relação ao povo, mas pela proximidade com aqueles que sofrem.

Um bispo não é grande porque possui poder. É grande quando consegue colocar seu poder a serviço daqueles que não têm poder.

Um pastor não é grande porque é cercado por honras. É grande quando consegue permanecer ao lado daqueles que a sociedade abandona.

Um cristão não é grande porque conhece muitas fórmulas religiosas. É grande quando reconhece Cristo no rosto do pobre, do negro discriminado, do camponês ameaçado, do trabalhador explorado, do migrante, do indígena, da mulher violentada, da criança abandonada e de todos aqueles que carregam em seus corpos as marcas das desigualdades humanas.

Foi essa a grandeza de Dom José.

Conclusão: um bispo que continua nos ensinando a ser Igreja

Dom José Maria Pires foi, antes de tudo, um homem de fé. Mas sua fé não foi desencarnada. Não se refugiou em uma espiritualidade indiferente às dores do mundo. Sua fé levou-o às periferias da existência, aos conflitos da terra, às lutas contra o racismo, à defesa dos direitos humanos e à construção de uma Igreja próxima dos pobres.

Por isso, sua memória permanece como um patrimônio espiritual da Igreja do Brasil e da América Latina.

Ele nos ensina que o Evangelho não pode ser anunciado sem compromisso com a vida. Ensina que a pobreza não deve ser contemplada de longe, mas enfrentada em suas causas. Ensina que a dignidade humana é lugar teológico. Ensina que a Igreja somente será fiel a Jesus quando for capaz de reconhecer sua presença nos pequenos e vulneráveis.

Dom José Maria Pires pertence àquela geração de pastores que compreenderam que o episcopado não é um trono, mas um serviço; que a mitra não é símbolo de poder, mas responsabilidade; que o báculo não serve para dominar, mas para caminhar com o povo.

Sua vida pode ser resumida em uma imagem profundamente evangélica: um pastor que escolheu ficar do lado das ovelhas feridas.

E talvez seja justamente essa a sua maior herança para a Igreja de hoje: lembrar-nos de que, quando os vulneráveis da história são abandonados, a Igreja não pode permanecer neutra. Quando os pobres são silenciados, a Igreja precisa emprestar-lhes sua voz. Quando a dignidade humana é violentada, a Igreja precisa estar presente. E quando a esperança parece morrer, a Igreja é chamada a testemunhar, com a própria vida, que o Deus de Jesus Cristo continua tomando partido da vida.

Dom José Maria Pires passou pela história como Dom Pelé, Dom Zumbi, pastor, profeta e amigo dos pobres. Mas, acima de todas essas imagens, permanece aquilo que verdadeiramente o definiu: um discípulo de Jesus que levou a sério o Evangelho e, por isso mesmo, levou a sério os pobres, os negros, os camponeses e todos os vulneráveis da história.

Sua memória não pede apenas homenagem. Pede continuidade!


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