Reflexão para Sexta-feira da 20ª Semana do Tempo Comum – (Ez 37,1-14 e Mt 22,34-40)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

Os textos de Ezequiel 37,1-14 e Mateus 22,34-40, embora pertençam a contextos históricos muito distintos, convergem numa questão fundamental da fé bíblica: como Deus gera vida em meio às situações de morte e como essa vida se concretiza no amor ao próximo. Lidos à luz da Teologia latino-americana e da Leitura Popular da Bíblia, esses textos deixam de ser apenas relatos religiosos do passado e tornam-se Palavra interpeladora diante das realidades de pobreza, exclusão, violência e desumanização que atravessam a história dos povos.

Ezequiel fala a um povo que se considera sem futuro; Jesus responde a uma religião que corre o risco de perder sua finalidade ao transformar a Lei em instrumento de controle. Em ambos os textos, Deus se revela como aquele que restitui a esperança, reconstrói a dignidade e coloca a vida humana no centro da experiência religiosa.

1. Ezequiel 37,1-14: quando Deus faz renascer a esperança

O capítulo 37 de Ezequiel situa-se no conjunto dos oráculos de esperança e consolação que compreendem os capítulos 33 a 37. O profeta encontra-se no contexto do exílio babilônico, depois da destruição de Jerusalém em 587 a.C. O povo havia perdido terra, templo, estruturas políticas e referências fundamentais de sua identidade. O próprio texto interpreta os ossos secos como imagem da condição de Israel: “Nossos ossos estão secos, nossa esperança se foi; estamos perdidos” (Ez 37,11).

A visão é dramaticamente construída. Ezequiel é conduzido pelo Espírito para o meio de um vale cheio de ossos “muito numerosos” e “sequíssimos”. Não se trata simplesmente de uma reflexão sobre a morte individual, mas de uma metáfora da morte coletiva de um povo. O exílio transformara a existência de Israel numa experiência de desintegração. Os ossos espalhados expressam uma comunidade fragmentada, desarticulada e desprovida de esperança.

A pergunta de Deus — “Filho do homem, poderão estes ossos reviver?” — conduz o profeta ao reconhecimento de que a vida não pode ser produzida apenas pelas forças humanas. Entretanto, a ação divina não acontece de maneira mágica. Deus manda o profeta falar aos ossos. Depois, ordena que o Espírito entre neles. O processo é significativo: os ossos se juntam, aparecem tendões, carne e pele, e finalmente recebem o sopro da vida.

A Palavra Profética é fundamental. Ezequiel não é espectador passivo da ação de Deus. Ele participa dela mediante sua palavra. A esperança nasce quando a Palavra de Deus encontra pessoas dispostas a anunciá-la e a colaborar com a reconstrução da vida.

Na perspectiva da Teologia Latino-americana, esse texto pode ser lido como uma poderosa afirmação de que Deus não se conforma com povos condenados à morte. A esperança bíblica não significa alienação diante da realidade, mas capacidade de enxergar possibilidades de vida onde os poderes do mundo só veem fracasso.

Os “ossos secos” podem assumir hoje muitos rostos: pessoas em situação de rua, trabalhadores submetidos à exploração, populações periféricas vítimas da violência, povos indígenas ameaçados, migrantes rejeitados, mulheres vítimas de violência, pessoas negras discriminadas, comunidades privadas de seus direitos e tantos seres humanos descartados por uma sociedade que frequentemente valoriza mais o lucro do que a vida.

O texto de Ezequiel, portanto, desafia a Igreja a perguntar: quais são hoje os lugares onde a vida está sendo reduzida a ossos secos? E, sobretudo: que palavra precisamos pronunciar para que esses ossos possam novamente se articular em comunidade, dignidade e esperança?

2. Mateus 22,34-40: o amor como critério absoluto da religião

Mateus 22 encontra Jesus em Jerusalém, no contexto das controvérsias com diferentes grupos religiosos. Antes do episódio, Jesus havia enfrentado os herodianos e fariseus acerca do tributo a César e os saduceus sobre a ressurreição. Agora, um intérprete da Lei pergunta qual é o maior mandamento. O contexto revela que não se trata apenas de uma pergunta acadêmica: Jesus é colocado à prova por seus adversários.

A resposta de Jesus é extraordinariamente simples e, ao mesmo tempo, revolucionária: o primeiro mandamento é amar a Deus com todo o coração, alma e entendimento; o segundo, semelhante ao primeiro, é amar o próximo como a si mesmo. E Jesus conclui: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,40). O primeiro mandamento é retirado de Deuteronômio 6,5; o segundo, de Levítico 19,18. Jesus não separa amor a Deus e amor ao próximo. O segundo é chamado de “semelhante” ao primeiro. Dessa maneira, não existe verdadeira relação com Deus quando o sofrimento do próximo é ignorado.

Aqui se encontra uma chave essencial para a Teologia Latino-americana: a fé precisa tornar-se prática histórica de amor, justiça e defesa da vida. A religião não pode transformar-se em sistema de normas, ritos e identidades que se protegem enquanto os pobres permanecem abandonados.

A comunidade de Mateus conhece uma realidade marcada por conflitos religiosos, dominação romana e profundas desigualdades sociais. Nesse contexto, Jesus recoloca a Lei em sua finalidade fundamental: promover a vida. Uma interpretação religiosa que produz exclusão, humilhação ou indiferença contradiz o centro da própria Lei.

O amor ao próximo não pode ser reduzido a sentimento individual. Amar significa reconhecer o outro como sujeito de dignidade, solidarizar-se com sua vida e enfrentar aquilo que produz sua exclusão.

3. Da esperança à transformação: uma leitura latino-americana

A aproximação entre Ezequiel 37 e Mateus 22 permite perceber uma dinâmica profundamente evangélica: Deus gera vida e chama seu povo a cuidar dessa vida.

Ezequiel apresenta o Deus que sopra vida sobre aquilo que parecia definitivamente morto. Mateus revela que essa vida encontra seu critério ético no amor. Portanto, não basta proclamar que Deus ressuscita os “ossos secos”; é necessário perguntar quem está produzindo os ossos secos de nosso tempo.

A Teologia Latino-americana insiste que a fé deve ser lida a partir da realidade concreta dos pobres. A Bíblia não é Palavra de Deus quando utilizada para justificar a opressão, a desigualdade ou a indiferença. Ela se torna Palavra Libertadora quando ilumina a realidade, denuncia os mecanismos de morte e suscita comunidades capazes de transformar a história.

Assim, o “Espírito” de Ezequiel não pode ser interpretado como fuga espiritual da realidade. O Espírito reorganiza os ossos, reconstrói corpos e devolve identidade a um povo. A ação de Deus produz corpo comunitário. Da mesma maneira, o amor de Mateus não é intimismo religioso. Ele se concretiza na relação com o outro, especialmente com aquele cuja vida está ameaçada.

O grande desafio pastoral consiste, portanto, em passar de uma Igreja que apenas assiste aos ossos secos para uma Igreja que participa da reconstrução da vida.

4. Ação pastoral: reconstruir a vida onde ela está ameaçada

Uma pastoral inspirada nesses textos precisa partir da realidade concreta. Antes de oferecer respostas prontas, é necessário escutar os clamores dos pobres, conhecer suas histórias e reconhecer os sinais de morte presentes no território.

A comunidade cristã é chamada a desenvolver ações que promovam alimentação, moradia, trabalho digno, saúde, educação, defesa dos direitos humanos, acolhida dos migrantes, proteção das crianças e adolescentes, defesa dos povos indígenas, cuidado da Casa Comum e enfrentamento de todas as formas de violência e discriminação.

Nesse sentido, a pastoral social não constitui uma atividade periférica da Igreja. Ela pertence ao próprio coração do Evangelho. Amar o próximo significa organizar a comunidade para que ninguém seja tratado como descartável.

As comunidades podem criar círculos de escuta e Leitura Popular da Bíblia nos quais os participantes relacionem o texto bíblico com suas próprias experiências. Perguntas simples podem orientar esse processo: Quais são os “ossos secos” presentes em nossa comunidade? Quem está sendo excluído? Quais estruturas produzem sofrimento? Onde percebemos sinais de vida? O que podemos fazer juntos para que a esperança se transforme em ação?

Desse modo, a Bíblia deixa de ser apenas objeto de estudo e torna-se instrumento de conscientização, espiritualidade e transformação social.

Conclusão

Ezequiel 37,1-14 e Mateus 22,34-40 apresentam duas dimensões inseparáveis da fé bíblica: a esperança que restitui a vida e o amor que assume responsabilidade pela vida do outro.

O Deus de Ezequiel não abandona seu povo no vale dos ossos secos. O Jesus de Mateus não permite que a religião se perca em discussões abstratas enquanto o próximo sofre. Ambos os textos desafiam a Igreja a reconhecer que Deus está sempre do lado da vida.

Para a Teologia Latino-americana, essa afirmação possui consequências concretas. Onde existem pessoas descartadas, a Igreja deve reconstruir dignidade. Onde existe fome, deve promover partilha. Onde existe violência, deve defender a vida. Onde existem povos marginalizados, deve assumir sua causa. Onde existe desesperança, deve anunciar e construir esperança.

A verdadeira espiritualidade cristã não se mede pela quantidade de palavras religiosas pronunciadas, mas pela capacidade de fazer a vida florescer. O amor a Deus torna-se verificável no amor ao próximo; e o amor ao próximo torna-se histórico quando enfrenta as estruturas que produzem morte.

Assim, diante dos vales de ossos secos do nosso tempo, a Igreja é chamada a ouvir novamente a voz do Espírito: “Profetiza!”. E diante de cada pessoa ferida e excluída, precisa recordar a palavra de Jesus: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Entre o Espírito que devolve vida e o amor que se compromete com o outro encontra-se o caminho de uma Igreja verdadeiramente pobre com os pobres, misericordiosa, profética e comprometida com a transformação da realidade.


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