O DOM DE PROFECIA: DO ESPETÁCULO RELIGIOSO À PRÁXIS LIBERTADORA

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Em muitos grupos neopentecostais e também em determinados ambientes da Renovação Carismática Católica, tornou-se comum alguém afirmar, durante cultos, momentos de louvor, encontros de oração ou celebrações eucarísticas, que recebeu uma “palavra profética” revelando que determinada pessoa está sendo curada de uma enfermidade. Não se trata aqui de negar a possibilidade da cura pela graça de Deus. A questão é outra: podemos identificar automaticamente uma revelação de cura individual com o Dom de Profecia apresentado pelas Escrituras?

A resposta, a partir da exegese bíblica, exige discernimento. Paulo distingue claramente os “dons de cura” do dom de profecia em 1Cor 12,9-10. São manifestações diferentes do mesmo Espírito. Além disso, Paulo afirma que todo carisma é concedido “para o bem comum” (1Cor 12,7). Portanto, nenhum dom espiritual existe para promover a pessoa que o manifesta, criar dependência religiosa ou transformá-la em uma espécie de celebridade espiritual.

A profecia na Bíblia: Palavra de Deus dentro da história

Na Bíblia, o profeta não é, fundamentalmente, aquele que descobre informações ocultas sobre indivíduos. É aquele que, movido pelo Espírito, interpreta a realidade à luz da vontade de Deus.

O paradigma aparece já no Êxodo. Deus escuta o clamor dos escravizados: “Eu vi a opressão do meu povo, ouvi o seu grito […] conheço seus sofrimentos” (Ex 3,7). A revelação divina nasce do sofrimento de um povo. Moisés recebe, então, uma missão concreta diante do poder do faraó: “Deixa o meu povo partir!” (Ex 5,1). A profecia, portanto, coloca a Palavra de Deus em confronto com aquilo que produz opressão e morte.

Os grandes profetas de Israel seguem essa mesma lógica. Amós denuncia uma religião cheia de celebrações, sacrifícios e cânticos, mas incapaz de produzir justiça: “Corra o direito como água e a justiça como rio perene” (Am 5,24). Isaías proclama: “Aprendei a fazer o bem! Buscai o direito, corrigi o opressor; fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva” (Is 1,17). Jeremias denuncia a utilização do templo como falsa garantia religiosa enquanto permanecem a exploração e a injustiça (cf. Jr 7).

A profecia bíblica, portanto, não se reduz a prever acontecimentos. Ela revela aquilo que o poder procura esconder e denuncia aquilo que produz sofrimento.

Jesus e a missão profética do Espírito

Jesus retoma essa tradição. Em Nazaré, ao iniciar sua missão, proclama: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres” (Lc 4,18). O Espírito que unge Jesus não o afasta da realidade; ao contrário, conduz sua missão para os pobres, excluídos, doentes, presos e oprimidos.

Por isso, a ação do Espírito não pode ser reduzida a manifestações extraordinárias. O Espírito conduz à missão, à solidariedade, à libertação e à vida.

Pentecostes: o Espírito é derramado sobre o povo

Essa compreensão torna-se particularmente importante em Atos 2. Pedro interpreta Pentecostes à luz do profeta Joel: “Derramarei o meu Espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão” (At 2,17).

O texto apresenta uma verdadeira democratização do Espírito: filhos e filhas, jovens e idosos, servos e servas participam da profecia. O Espírito não fica restrito a especialistas religiosos.

Além disso, Pentecostes não produz uma comunidade fechada em experiências privadas. As diferentes pessoas presentes em Jerusalém ouvem a mensagem em suas próprias línguas. O Espírito cria comunicação, testemunho e missão.

Pedro, em seu discurso, não realiza um diagnóstico sobrenatural das doenças presentes entre os ouvintes. Ele interpreta a história à luz de Deus, denuncia a violência praticada contra Jesus, anuncia sua ressurreição e chama o povo à conversão (At 2,23-24). Essa é a dimensão profética do Pentecostes: interpretar a realidade, denunciar a morte e anunciar a vida.

Cura e profecia não devem ser confundidas

Isso não significa negar a cura ou os demais carismas. O próprio Paulo apresenta uma diversidade de manifestações do Espírito: sabedoria, conhecimento, fé, curas, milagres, profecia, discernimento, línguas e interpretação de línguas (1Cor 12,8-10).

Portanto, uma pessoa pode rezar pela cura de alguém e experimentar uma inspiração espiritual. Mas não se deve afirmar automaticamente que toda manifestação desse tipo seja o Dom de Profecia.

É necessário ainda um cuidado pastoral fundamental: nenhuma suposta revelação de cura deve levar alguém a abandonar tratamento médico ou a desprezar os recursos da ciência. A fé cristã não precisa se opor à medicina; pelo contrário, pode reconhecer nela instrumentos de cuidado e preservação da vida.

O critério decisivo permanece sendo aquele apresentado por Paulo: o carisma deve servir ao bem comum (1Cor 12,7) e estar subordinado ao amor (1Cor 13).

A contribuição da Teologia Latino-Americana

É justamente nesse ponto que a Teologia Latino-Americana ajuda a recuperar a força original da profecia. A fé precisa ser lida em diálogo com a realidade concreta do povo. A Leitura Popular da Bíblia, as Comunidades Eclesiais de Base e as Pastorais Sociais procuram realizar esse movimento: ler a Bíblia a partir da vida e iluminar a vida com a Palavra de Deus.

Por isso, diante de uma pessoa enferma, é legítimo rezar por sua recuperação. Mas uma comunidade profética precisa fazer também outras perguntas: por que tantas pessoas adoecem? Quem produz as condições sociais que provocam sofrimento? Quem não tem acesso à saúde? Quem trabalha em condições degradantes? Quem perde sua terra? Quem tem sua água e seu território contaminados?

Uma criança desnutrida precisa de oração, mas também de alimento. Um trabalhador adoecido pela exploração precisa de cuidado, mas também de condições dignas de trabalho. Uma comunidade indígena ameaçada pela violência precisa de oração, mas também de uma Igreja que defenda sua vida e seu território.

Aqui aparece a dimensão sociotransformadora da profecia.

Uma Igreja que não apenas celebra, mas transforma

Também a Eucaristia precisa ser compreendida nessa perspectiva. A mesa do altar não pode ser transformada em palco para manifestações individuais. A centralidade pertence a Cristo e à comunidade reunida. Não pode ser lugar e oportunidade para pregadores que se transformam em celebridades.

Participar do corpo de Cristo significa reconhecer também o corpo de Cristo ferido na história. Por isso, a mesa eucarística deve provocar perguntas sobre as mesas da sociedade: quem tem alimento? Quem passa fome? Quem possui terra? Quem é expulso? Quem trabalha? Quem é explorado? Quem tem acesso à saúde? Quem permanece excluído?

O Pentecostes produz comunidade, partilha e compromisso (cf. At 2,42-47). O Espírito não cria espectadores, mas testemunhas.

O verdadeiro discernimento profético

Por isso, toda manifestação apresentada como profecia precisa passar pelo discernimento comunitário. Algumas perguntas são fundamentais:

Conduz a Cristo ou coloca o profeta no centro?
Produz comunhão ou dependência?
Gera solidariedade ou apenas emoção?
Defende a vida ou mantém silêncio diante da injustiça?
Edifica a comunidade ou promove celebridades religiosas?
Está em consonância com a Escritura?
Produz compromisso com os pobres e excluídos?

A Primeira Carta aos Tessalonicenses oferece um princípio equilibrado: “Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo e ficai com o que é bom” (1Ts 5,19-21).

Nem credulidade ingênua, portanto, nem ceticismo absoluto: discernimento.

Conclusão

O Dom de Profecia precisa ser recuperado em sua densidade bíblica. O profeta não é simplesmente aquele que revela doenças ocultas ou anuncia acontecimentos extraordinários. É aquele que, movido pelo Espírito, escuta o clamor do povo, denuncia as estruturas que produzem morte, anuncia a esperança e mobiliza a comunidade para a construção da vida.

Moisés confronta o faraó. Amós denuncia uma religião sem justiça. Isaías defende os vulneráveis. Jeremias questiona a religião utilizada para legitimar a injustiça. Jesus anuncia a Boa-Nova aos pobres. Pentecostes derrama o Espírito sobre filhos e filhas, jovens e idosos, servos e servas.

É nessa tradição que a profecia cristã deve ser compreendida. Por isso, talvez a pergunta mais importante para nossas comunidades não seja apenas: “Quem está sendo curado?”

Mas também:

Quem está sendo oprimido?
Quem está sendo excluído?
Quem está sendo silenciado?
Quem está passando fome?
Quem está perdendo sua terra?
Quem está tendo sua dignidade negada?
Quais estruturas estão adoecendo nosso povo?

Quando o Espírito nos faz enxergar essas realidades, levantar a voz contra elas e assumir o compromisso de transformá-las, a profecia reencontra sua força bíblica e sua dimensão libertadora.

O verdadeiro Pentecostes não transforma cristãos em espectadores de fenômenos religiosos. Transforma o povo em testemunha, comunidade e sujeito da missão de Deus na história.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑